Saneamento salva — e o Espírito Santo já sabe disso
Fonte: tribunaonline.com.br | Data: 15/06/2026 13:45:52
Falta de esgoto e água tratada afeta saúde, escola e trabalho; avanços no Espírito Santo mostram como investimento vira dignidade
Édison Carlos
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15/06/2026, 13:31 h
| Atualizado em
15/06/2026, 13:31

Leitores do Jornal A Tribuna
Édison Carlos é presidente do Instituto Aegea
Existe uma pergunta simples que costumo fazer quando visito comunidades sem saneamento básico: o que você faria diferente na sua vida se tivesse água tratada e esgoto coletado em casa?
As respostas nunca são sobre tecnologia ou infraestrutura. São sobre dormir sem medo de que o filho vai adoecer. Sobre não precisar faltar ao trabalho toda vez que a criança tem diarreia. Sobre poder plantar uma horta sem contaminar o solo. Sobre dignidade. Saneamento básico é isso. É a infraestrutura mais humana que existe — e ao mesmo tempo a mais negligenciada na história do nosso país.
No Brasil, quase 100 milhões de pessoas ainda vivem sem acesso à coleta e ao tratamento de esgoto. São famílias que convivem cotidianamente com um risco invisível: o da água contaminada, dos rios poluídos, das doenças que se proliferam sem que ninguém consiga apontar uma causa clara. Verminoses, dengue, leptospirose, hepatite A — todas essas doenças têm o mesmo endereço: lugares onde o saneamento não chegou.
As crianças pagam o preço mais alto. A literatura científica é clara: crianças sem saneamento em casa faltam mais à escola, têm pior desempenho cognitivo, crescem com sequelas que comprometem a vida adulta. Não é fatalidade. É ausência de política pública.
O Espírito Santo tem escolhido um caminho diferente. Na Serra, a cobertura de esgoto saiu de 58% para mais de 90% em uma década — resultado de uma parceria público-privada que colocou o município entre as 60 cidades brasileiras com maior índice de esgotamento sanitário.
Em Vila Velha e Cariacica, o Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil, reconheceu os dois municípios entre os que mais investem por habitante no País: Vila Velha ocupa a quarta posição nacional, com
R$ 326,33 investidos por habitante; Cariacica está na 16ª posição e foi um dos municípios com maior avanço no ranking — 11 posições em um único ano.
Para se ter ideia da magnitude desse esforço, a média nacional dos 100 maiores municípios é de R$ 103,16 por habitante.
Esses avanços salvam vidas. Não é metáfora — é o que os dados mostram. Em Manaus, onde a Aegea assumiu o saneamento da cidade, os casos de hepatite A caíram 88% e os de diarreia recuaram 46% desde o início da operação. O mesmo movimento acontece, em diferentes ritmos e escalas, em cada município onde o saneamento avança.
É para contar essas histórias — e para que mais pessoas entendam que esse avanço depende também do engajamento de cada um — que iniciativas de informação e conscientização sobre saneamento ganham cada vez mais relevância. O conhecimento mobiliza. E mobilização transforma políticas públicas.
Porque saneamento não é pauta de especialistas. É pauta de mães e pais que querem ver seus filhos saudáveis. De professores que querem alunos presentes. De médicos que querem tratar doenças graves, não diarreias evitáveis. De cidadãos que entendem que uma cidade só é desenvolvida quando cuida de todos os seus moradores — inclusive dos que ainda não têm esgoto em casa.
O Espírito Santo está no caminho certo. Mas o saneamento só se universaliza de verdade quando a sociedade inteira decide que isso é urgente. Esse é o movimento que começa agora.
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