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Backrooms’ e ‘Obsessão’: críticos do NYT explicam o sucesso retumbante dos dois filmes de terror entre jovens

Fonte: oglobo.globo.com | Data: 15/06/2026 15:53:17

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Produções de baixo orçamento, ela ultrapassaram a marca dos US$ 100 milhões em bilheteria


Cena do filme 'Backroom'
Cena do filme ‘Backroom’ — Foto: Divulgação/A24

RESUMO

Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você

  • Produções de terror de baixo orçamento dirigidas por jovens do YouTube alcançaram bilheterias surpreendentes. O fenômeno demonstra a força de criadores que já possuem público engajado na internet.
  • Enquanto “Backrooms” aposta em uma atmosfera abstrata baseada em memes, “Obsessão” utiliza o humor e o realismo para construir tensão. Ambas as obras evitam clichês tradicionais do gênero.
  • Críticos sugerem que a indústria cinematográfica deve dar liberdade criativa a novos talentos da internet. Manter os filmes por mais tempo em cartaz também é crucial para o sucesso.

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Existem muitos pontos a ser analisados no que diz respeito ao sucesso enorme de “Backrooms: um Não-Lugar” e “Obsessão”. Por exemplo: como esses dois filmes de baixo orçamento conseguiram ultrapassar a marca dos US$ 100 milhões em bilheteria; de que forma o YouTube se consolidou como um caminho para o cinema; e o que essas produções revelam sobre as ansiedades e inquietações de uma geração mais jovem.

Conversando sobre esses temas, e muito mais, aqui estão Alissa Wilkinson, crítica de cinema do “Times”, e Jason Zinoman, crítico geral deste mesmo jornal e autor de “Shock Value: how a few eccentric outsiders gave us nightmares, conquered Hollywood and invented modern horror” (Poder de choque: como alguns excêntricos forasteiros nos ofereceram pesadelos, conquistaram Hollywood e inventaram o terror moderno, em tradução livre).

ALISSA WILKINSON: Durante anos, algumas afirmações foram repetidas tantas vezes por executivos de terno e gravata da indústria cinematográfica e por analistas do futuro do entretenimento que eu mesma quase passei a aceitá-las como verdadeiras. Diziam que as salas de cinema eram um conceito ultrapassado e que os jovens, acostumados a consumir entretenimento na tela do celular, haviam reduzido tanto a capacidade de atenção que jamais se interessariam em assistir a filmes na tela grande, muito menos em fazê-los. Nunca acreditei nisso de verdade. Afinal, as pessoas gostam de filmes. Gostam de ir ao cinema. E, embora muitos espectadores, sobretudo os mais velhos, reclamem do preço do ingresso, das filas, dos trailers intermináveis ou de qualquer outra coisa, a verdade é que ir ao cinema ainda é uma dos programas mais baratos e divertidos para fazer com os amigos em uma noite de terça-feira qualquer. Isso nos leva ao fenômeno cinematográfico mais recente: os filmes de terror “Backrooms: nm Não-Lugar”, de Kane Parsons, e “Obsessão”, de Curry Barker. Os dois diretores pertencem à Geração Z e começaram a carreira no YouTube. Cada qual fez seu longa com um orçamento modesto e obteve uma bilheteria extraordinária. Mais do que isso, ambos alcançaram um nível de repercussão cultural e de sucesso comercial que muitos cineastas de estúdio só podem sonhar. O assustador “Backrooms” é baseado em um meme do 4chan — um dos fóruns de discussão mais antigos da internet — que se transformou em uma série de vídeos virais no YouTube. Agora é a maior estreia de todos os tempos do estúdio de cinema independente norte-americano A24, triplicando seu recorde anterior. Arrecadou mais de US$ 80 milhões na América do Norte no fim de semana de estreia, com um orçamento de pouco menos de US$ 10 milhões. E, para impressionar ainda mais, Parsons faz 21 anos este mês. Conhecido por seus esquetes de comédia, Barker rodou seu filme por menos de US$ 1 milhão. Quando estreou em maio, foi melhor do que o previsto, mas então houve algo inesperado: o faturamento continuou crescendo exponencialmente. Costumamos medir o sucesso de um longa-metragem pela queda de bilheteria no segundo fim de semana — um decréscimo pequeno significa que está indo bem —, mas a divulgação boca a boca de “Obsessão” é tão boa que ele vem crescendo a cada fim de semana. Já arrecadou bem mais de US$ 100 milhões na América do Norte, um número dos sonhos para qualquer filme, e ninguém sabe quanto vai arrecadar até o término da temporada.

Inde Navarrette e Michael Johnston no terror "Obsessão" — Foto: Divulgação
Inde Navarrette e Michael Johnston no terror “Obsessão” — Foto: Divulgação

JASON ZINOMAN: A função principal do terror é, obviamente, aterrorizar — e, para mim, “Obsessão” cumpre essa tarefa com uma narrativa inteligente e habilidosa e uma disposição de atacar sem piedade. O filme tem cinco ou seis sustos perturbadores, a maioria graças à atuação notável e inquietante de Inde Navarrette, digna de Oscar, que lembra tanto Mia Goth em “Pearl” quanto Betty Gabriel em “Corra!”, sem deixar de ser extremamente original. “Backrooms” é um filme mais abstrato, cerebral e cru, do tipo “casa mal-assombrada”, que aposta fortemente na atmosfera sinistra. Já “Obsessão”, inspirado no conto clássico de terror “A Pata do Macaco”, escrito em 1902, ancora sua premissa em um realismo convincente. O roteiro excessivamente estendido de “Backrooms”, cujos diálogos não têm o mistério nem o subtexto de suas imagens, acaba diluindo parte da força do labirinto assustador mencionado no título. Achei mais aterrorizante o vídeo original de nove minutos que inspirou o longa. O que você acha? Esses filmes compartilham outras características além da juventude dos diretores, do orçamento apertado e da bilheteria estrondosa?

WILKINSON: “Obsessão” me prendeu muito mais a atenção, e não só porque é mais engraçado (embora os dois filmes sejam divertidos, cada um à sua maneira). Recorre a algumas imagens clássicas do terror, mas também se alimenta daqueles sentimentos muitas vezes apavorantes que surgem quando tentamos namorar alguém. Além disso, eu não conseguia parar de rir. Nesse sentido, ele me lembrou os filmes de outro diretor de terror relativamente jovem e em ascensão, Zach Cregger, cujas obras “Noites Brutais” e “A Hora do Mal” foram bem-sucedidas e também trazem as marcas de sua formação como comediante de esquetes. Mais velho que Barker e Parsons, Cregger começou a carreira atuando com sua trupe e depois foi escalado para uma série de TV. Colocá-los sob a mesma lente me fez refletir. Barker e Parsons não são exatamente os únicos. No início deste ano, por exemplo, o longa de ação “Iron Lung: Oceano de Sangue” fez sucesso; é baseado em um videogame, mas foi dirigido por Mark Edward Fischbach, mais conhecido como “Markiplier” no YouTube, plataforma na qual já havia jogado o jogo para seus espectadores e dirigido vários curtas. Depois, há “Fale Comigo” (2022), sucesso do A24 dirigido pelos irmãos Danny e Michael Philippou, que ficaram conhecidos primeiro por seus curtas de terror no YouTube. E será que esquecemos Bo Burnham, um dos primeiros astros do YouTube, que dirigiu “Oitava Série”, longa-metragem excelente de 2018, e criou uma das melhores e mais estranhas obras de arte da pandemia em 2021, “Bo Burnham: Inside”? (Tecnicamente, nenhum dos dois é do gênero terror, embora se possa argumentar o contrário!) O que todas essas obras têm em comum? Sim, foram feitas por diretores jovens — e brancos, na maioria. Mas acho que a verdadeira história está em como se tornaram bem-sucedidos. Em cada caso, trouxeram para a tela grande um público construído a partir da base, que não foi ao cinema porque viu um trailer e pensou: “Quero ver um filme sobre isso.” Esse pessoal foi porque já estava envolvido com o trabalho desses criadores.

ZINOMAN: No que diz respeito à sua observação sobre a construção de público, pensei nos comediantes do YouTube. À medida que o poder dos gatekeepers (influencers que guardam suas fórmulas de sucesso para não serem copiados) diminui, os comediantes que já possuem seguidores têm mais oportunidades, e essa mudança pode ser uma faca de dois gumes ao incentivar os artistas a se destacarem nas redes sociais antes mesmo de subirem ao palco ou chegarem à telona. E devemos dizer que “Backrooms” é uma propriedade intelectual muito conhecida entre os jovens, que significa mais para meus filhos do que “Sexta-Feira 13” ou “Drácula”. Portanto, seu sucesso, de certa forma, vem da mesma fonte que o de um filme da Marvel, mas para um público que cresceu com o YouTube. Acho que o sucesso de “Obsessão” também se deve à maneira inventiva como brinca com velhos clichês do terror. Confesso que fiquei inclinado a torcer o nariz para Barker quando ele afirmou que “O Massacre da Serra Elétrica” original era “muito bom para a época”. Mas vale lembrar que os mestres do terror dos anos 1970 também cultivavam um desrespeito saudável por seus predecessores. Assim como no caso de Bo Burnham, é possível perceber que o fato de ter crescido usando a internet deu a Barker ferramentas criativas diferentes daquelas de gerações anteriores de artistas. Acho bom que ele não dependa tanto de sustos fáceis, e gosto da quantidade de tensão que consegue extrair de um simples close-up: um cenho franzido, um sorriso fora de lugar. Esses momentos funcionam tanto como memes quanto como uma forma de horror constrangedor que me lembra o universo de Tim Robinson. Também tenho curiosidade de saber qual é sua interpretação de “Backrooms”. A história se passa nos anos 1990, antes mesmo que o diretor tivesse nascido. Você vê nisso uma espécie de proto-internet?

WILKINSON: Lembra como era estar on-line por volta de, digamos, 1997? Você clicava e navegava sem rumo e nunca sabia em que site estranho do Angelfire ou do GeoCities ia parar. No geral, posso tirar duas conclusões principais. Primeiro: “Obsessão”, em particular, é um sucesso porque as pessoas estão falando sobre ele. Mas, para um filme como esse arrecadar tanto dinheiro, é preciso paciência, e isso significa mantê-lo em cartaz por mais tempo. Portanto, não lancem filmes diretamente no streaming, e também não façam isso com muita rapidez. Na nossa época, eles ficavam em cartaz durante meses; lembre-se de que “Pecadores” se tornou um dos maiores sucessos do ano passado porque as pessoas queriam continuar a vê-lo no cinema mesmo depois de já estar passando na TV. Repensar o que a experiência cinematográfica significa para os espectadores é o ponto principal aqui. Por isso, acho que a melhor lição que os executivos podem tirar desse fenômeno não é investir uma fortuna em mais filmes que se pareçam exatamente com esses dois, mas sim encontrar mais criadores como esses diretores, isto é, indivíduos que tenham conquistado espectadores de forma orgânica nos lugares em que o público mais jovem se reúne, e dar a eles liberdade criativa para explorar o que lhes parecer melhor. E ter em mente que nem todo produto vai fazer sucesso como esses dois longas.

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