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Master usou áudio de mulher para provar que PM homem contratou seguro com Credcesta

Fonte: ururau.com.br | Data: 18/06/2026 04:04:37

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Ruben Berta
Ruben Berta

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Jornalista investigativo com 27 anos de carreira, especializado na cobertura da administração pública. Passou por O Globo, The Intercept Brasil e UOL. Em 2020, venceu o Prêmio Amaerj Patrícia Acioli de Direitos Humanos.

Fachada do Banco Master em edifício de alto padrão na principal avenida corporativa de São Paulo / Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

“Boa tarde, meu nome é Amanda Moura, sou correspondente bancária do Banco Master, tudo bem com a senhora?”

“Tudo bem.”

“Informo que a ligação está sendo gravada por motivo de segurança. Estou falando com a senhora Gilcemar (…)?”

“Oi.”

O diálogo acima faz parte de um áudio anexado pelo Master para provar na Justiça que um cliente do cartão de benefícios Credcesta –espécie de consignado oferecido a servidores– tinha adquirido também um seguro prestamista, com descontos mensais na fatura. 

Mas agora vem o detalhe mais importante: Gilcemar (cuja identidade completa será preservada a pedido de sua advogada) não é uma “senhora”. 

Ele é um policial militar homem, da Região Serrana do estado, que afirma nunca ter autorizado as cobranças do seguro, cuja soma de parcelas, entre 2024 e 2025, chegou a quase R$ 1 mil. 

OUÇA O ÁUDIO APRESENTADO PELO MASTER

O caso expõe um drama que segue vivo, mesmo após a liquidação do Master: além dos juros abusivos que podem levar ao superendividamento, servidores que aderiram ao Credcesta convivem com pagamentos por serviços não solicitados, embutidos na fatura. 

No processo de Gilcemar, o 1º Juizado Especial Cível de Petrópolis considerou que “não houve qualquer irregularidade na cobrança do seguro, que foi devidamente contratado”, dando ganho de causa ao Master

Os recursos do policial militar no Tribunal de Justiça também foram indeferidos.

Agora, a advogada Thaís Muquici, especializada em Direito do Consumidor, que defende o PM, tenta numa vara cível convencional que seu cliente consiga uma indenização. 

“Como não conseguimos que o áudio fosse analisado no juizado especial ou que fosse encaminhado ao Ministério Público, agora entramos na vara cível, porque lá, se precisar de perícia, prontamente deverá ser feita”, disse Thaís, ressaltando que se trata de um caso absurdo de uma voz de mulher atribuída a um homem. 

Segundo a advogada, há centenas de clientes dela na mesma situação, que afirmam que as vozes apresentadas em áudios pelo banco não são deles. 

Tentei contato por telefone com o escritório de advocacia Amorim Marinho, que representa o Master, mas não tive retorno. O espaço segue aberto. 

Atualmente, o Credcesta está vinculado ao Banco Pleno, de Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, que teve a sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em fevereiro deste ano. 

O seguro “Proteção Premiada”, que Gilcemar afirma não ter contratado, é da Kovr Seguradora, empresa que chegou a ser de Vorcaro, mas foi vendida em setembro de 2025 a acionistas minoritários, segundo reportagem da Folha. 

O seguro prestamista funciona para dar garantia ao banco na cobertura dos valores devidos em caso de imprevistos, como morte ou invalidez. Tentei contato com a Kovr por email, mas não houve retorno. O espaço segue aberto. 

Servidores questionam outras cobranças

Os casos de cobranças vinculadas ao Master questionadas na Justiça não se limitam ao seguro prestamista. Localizei ações que envolvem títulos de capitalização e também uma espécie de clube de benefícios de saúde, que ofereceria descontos em consultas online e farmácias, cujas contratações também não foram reconhecidas por clientes. 

No caso dos servidores estaduais, questionei a assessoria de imprensa do governo interino, do desembargador Ricardo Couto, que se eximiu de responsabilidade sobre essas cobranças extras: 

“Eventuais produtos ou serviços vinculados aos produtos contratados integram a relação privada firmada entre o servidor e a instituição ofertante, não cabendo ao Estado definir, validar ou interferir em cláusulas contratuais, taxas, condições comerciais, bonificações, coberturas ou benefícios eventualmente associados, matérias sujeitas à regulamentação própria, inclusive do Banco Central do Brasil e dos demais órgãos competentes, conforme a natureza do serviço contratado”. 

Em janeiro, ainda na gestão de Cláudio Castro (PL), em resposta a um pedido que fiz via LAI (Lei de Acesso à Informação), a Secretaria da Casa Civil informou que cobranças como a do “Proteção Premiada” “não fazem parte do sistema de consignação”. 

Segundo os dados de dezembro do ano passado, havia 108 mil servidores estaduais com cartões do Credcesta em vigor. O sistema é operado pela empresa PKL One Participações. 

São dois tipos de cartões: o de benefício, análogo ao cartão de crédito convencional para compras, e a modalidade espécie, destinada à operação de saque. 

Além das cobranças extras questionadas, o Credcesta também vem sendo alvo de críticas por causa dos juros altos, que passam do dobro de empréstimos consignados tradicionais, apesar de haver desconto em folha. 

Outro problema é a forma de débito mensal, que é feita apenas de um valor mínimo, o que pode fazer o cliente perder o controle. Num consignado tradicional, já se sabe desde o início a quantidade e os valores das parcelas. 

 
No fim do ano passado, o governo estadual obteve uma liminar na Justiça que permite a retenção de todos os valores do Credcesta para garantir o ressarcimento de valores aplicados pelo Rioprevidência no Master, que foi liquidado em novembro do ano passado. 

Questionei a atual gestão sobre as cobranças extras ligadas ao cartão. 

“No caso dos descontos previamente autorizados em folha, incluindo aqueles relacionados ao Credcesta, o processamento permanece sendo realizado nos termos da legislação e dos normativos vigentes à época de sua habilitação. Os valores processados encontram-se retidos em conta específica por determinação do TJ-RJ”, informou o governo. 

No fim do mês passado, o deputado estadual Flávio Serafini (PSOL) entrou com representação no TCE (Tribunal de Contas do Estado) pedindo a suspensão dos descontos do cartão, auditoria completa e identificação dos responsáveis. O parlamentar também tenta, ainda sem sucesso, a implementação da CPI do Master na Alerj.  

Fonte: Ruben Berta

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