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Daniel Vorcaro criou fábrica de fundos de papel sem fiscalização da CVM, mas seu banco só se viabilizou com Rui Costa e Jaques Wagner no consignado dos servidores da Bahia

Fonte: jc.uol.com.br | Data: 18/06/2026 13:29:46

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Relação do banqueiro com a Bahia vem desde quando os dois baianos venderam uma rede falida de alimentos com autorização para operar consignado

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Foi assim: no dia 13 de agosto de 2004, o presidente Lula assinou o decreto nº 5.180, que estabelecia apenas que o empréstimo consignado poderia ser concedido por qualquer instituição consignatária, independentemente de ser ou não responsável pelo pagamento do benefício.

Foi o resultado de uma pressão dos grandes bancos (especialmente o Bradesco), que ameaçou deixar de pagar 2,5 milhões de aposentados do INSS se o Banco BMG continuasse como agente exclusivo de empréstimos aos velhinhos da previdência. A exclusividade durou 72 dias e após o decreto, o BMG tinha consolidado uma grande carteira de crédito dessa modalidade.

Dezoito anos depois, o governador da Bahia Rui Costa editou um decreto que também dava exclusividade ao Cartão Credcesta estruturado na esteira da venda da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), dona de uma rede de supermercados estatal chamada “Cesta do Povo”.

Ela dava prejuízo e foi comprada pelo empresário Augusto Ferreira Lima que pagou R$ 15 milhões depois que o governo baiano previu no edital a operação de um cartão de crédito consignado, ofertado aos mais de 400 mil servidores, pensionistas e aposentados da Bahia. Naquele ano, Jaques Wagner era secretário de Rui Costa.

O decreto reforçou a exclusividade do Banco Master, que era o operador do Credcesta, iniciando a longa jornada de relacionamento do PT com o Master que culminou nesta quinta-feira com a nona fase da Operação Compliance Zero e tem como alvo principal de busca e apreensão o senador Jaques Wagner (PT), líder do governo Lula no Senado.

Em 2022, o Banco Master tinha uma operação pequena no mercado de consignado, mas a carteira do Cartão Credcesta ajudou Daniel Vorcaro e seus parentes a catapultar os negócios do banco, porque dava capilaridade, ainda que ele, pelo decreto de Rui Costa, tivesse uma reserva de mercado que só acabou com a liquidação extrajudicial.

Divulgação
Vorcaro deixou de confessar nos documentos da delação fatos que já haviam sido extraídos – Divulgação

O vínculo do PT com Daniel Vorcaro, ao menos até agora, sempre foi com a Bahia de Rui Costa e Jaques Wagner. Mas a compra do Cartão Credcesta foi o melhor negócio do Banco Master. Ele concedeu quase R$ 6 bilhões em empréstimos consignados desde que assumiu o programa Credcesta da Bahia, criado em 2018, até a decretação de sua liquidação pelo Banco Central, em novembro de 2025.

Mas é desde o governo da Bahia que o ponto de conexão de Wagner com o caso Master se dá por meio do ex-sócio do banco, o empresário baiano Augusto Lima, que também foi alvo na Operação de hoje.

As investigações da Polícia Federal, portanto, confirmam que o senador baiano usou a atuação parlamentar para defender pautas de interesse do Banco Master no Congresso. Segundo os investigadores, o senador teria tratado diretamente com o ex-sócio da instituição, Augusto Ferreira Lima.

A acusação de que entre os benefícios esses que Jaques Wagner se beneficiou de pagamentos de um apartamento número 1702 no valor de R$ 2,45 milhões em Salvador só ganha robustez porque no fundo foi a partir da compra da Cartão Credcesta na Bahia que o Máster pode ter uma fluxo de caixa garantido já que os descontos são obrigatórios nos contra-cheque dos servidores daquele estado.

Em 2012, o banco BMG precisou responder a inquérito em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF), resultante da denúncia do Mensalão. Agora, o Master vai ter uma outra frente de investigação e desta vez envolvendo as duas maiores lideranças políticas da Bahia e talvez o único estado onde Lula não tinha problemas para a disputa da eleição de outubro.

As biografias de Daniel Vorcaro sempre relatam que entrou para o mundo da Faria Lima uma década e meia atrás, pelas mãos do empresário Antônio Augusto Conte. Também já foi alvo de busca e apreensão na segunda fase da Operação Compliance Zero.

Augusto Conte era um dos sócios da gestora Blackwood quando Daniel e o pai Henrique Vorcaro apareceram em 2011 no escritório dele no Itaim (AS) em busca de investidores para o retrofit de um prédio abandonado no centro de Belo Horizonte que nunca saiu do papel.

Mas, na verdade, ele só virou banqueiro de fato quando seu banco se apresentou como dono da carteira do Credcesta, o que lhe permitiu sair comprando outros bancos até ser pego tentando fugir em São Paulo, quando já tinha formado um círculo de amizades que, a cada dia, envolve mais políticos em Brasília.