Flávio vê chance de deixar a defensiva e dividir custo político do caso Master após envolvimento de líder do governo
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 19/06/2026 04:46:55
Aliados avaliam que investigação contra Jaques Wagner permite ao pré-candidato do PL voltar a atacar o PT por corrupção sem ‘pisar em ovos’
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RESUMO
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GERADO EM: 18/06/2026 – 22:52
Operação da PF contra Wagner dá alívio estratégico a Flávio Bolsonaro
A operação da PF contra Jaques Wagner (PT-BA) trouxe um alívio estratégico para Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que enfrenta críticas pelo caso Banco Master e busca financiamento para o filme Dark Horse. Com Wagner na mira, Flávio vê oportunidade de dividir o custo político do escândalo, atacando o PT por corrupção. Aliados acreditam que a investigação enfraquece a associação exclusiva do caso ao entorno bolsonarista.
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A operação da Polícia Federal (PF) que teve como alvo o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), provocou uma mudança de humor no entorno do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Depois de semanas lidando com os desdobramentos do caso Banco Master e com o desgaste, inclusive em pesquisas de intenção de voto, provocado pela revelação de sua atuação na busca de recursos para o filme Dark Horse, aliados do pré-candidato à Presidência avaliam que, pela primeira vez desde a eclosão do escândalo, ele deixou de carregar sozinho o custo político da crise.
A avaliação no entorno de Flávio é que a operação abriu espaço para uma disputa de narrativas mais favorável ao senador, que vinha sendo um dos principais rostos políticos associados ao caso.
Embora continue defendendo publicamente que sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro se restringiu à busca de financiamento privado para uma produção audiovisual sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), interlocutores admitem reservadamente que o tema se transformou em um dos principais passivos de sua pré-campanha.
A preocupação era especialmente grande diante da perspectiva de debates, entrevistas e sabatinas ao longo da corrida presidencial. Aliados reconheciam que adversários certamente utilizariam o episódio para questionar a idoneidade do senador, obrigando-o a gastar parte relevante da campanha respondendo a acusações e se defendendo de ataques.
A operação contra Jaques Wagner não elimina esse problema, mas, na avaliação de pessoas próximas ao pré-candidato, altera o cálculo político, já que pela primeira vez desde o caso Dark Horse, Flávio não precisaria apenas se defender, mas também poderia atacar na “mesma moeda”.
Poucas horas após a ação da PF, o senador passou a explorar publicamente esse caminho. Em publicação nas redes sociais, defendeu a instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar o Banco Master.
“Escândalo envolvendo o PT é como a incompetência do governo Lula: não tem como esconder. CPMI do Banco Master já!”, escreveu.
Apesar da insistência no assunto, interlocutores do senador falam que já está claro que uma comissão não será instalada tão cedo se depender da vontade do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Ou seja, a defesa tende a ser mais retórica do que fato capaz de resultar em efeitos práticos de investigação parlamentar.
Durante evento em São Paulo para lançar pontos de seu programa voltado à segurança pública, Flávio voltou ao tema e tentou associar o escândalo ao PT.
— O PT da Bahia acaba de ser implodido pela Polícia Federal com operação contra o líder do governo do PT no Senado Federal, Jaques Wagner. Isso é um alento de que a impunidade vai ser combatida. Como nós sempre dizemos, o cerne de todo esse problema era o PT da Bahia — afirmou.
Nos bastidores, interlocutores relatam que as equipes de comunicação digital da campanha passaram o dia empenhadas em repercutir os desdobramentos da operação e reforçar a associação entre o caso Master e o núcleo político petista na Bahia, o que foi feito em grande medida logo nas primeiras horas depois das ações de busca e apreensão contra Wagner.
Aliados afirmam que Flávio já vinha defendendo uma CPI e criticando o governo por causa do caso Master, mas reconhecem que o discurso era frequentemente neutralizado pelo fato de ele próprio estar implicado politicamente nas investigações. Agora, avaliam, a campanha ganhou condições de voltar a explorar o tema da corrupção de forma mais agressiva.
Ao mesmo tempo, o entorno do senador afirma que não pretende transformar a campanha em um debate permanente sobre o Banco Master. Segundo aliados, o objetivo é aproveitar a mudança de cenário para retomar uma agenda considerada mais “propositiva”.
A estratégia ficou evidente nesta quinta-feira. No mesmo dia em que explorou politicamente a operação contra Wagner, Flávio lançou o programa “Brasil sem Medo”, conjunto de propostas para a área de segurança pública elaborado com a participação do senador Sérgio Moro (PL-PR) e do deputado Guilherme Derrite (PL-SP).
Entre as medidas defendidas estão a redução da maioridade penal, a castração química de estupradores, a classificação de facções criminosas como organizações narcoterroristas e a criação de presídios inspirados no modelo adotado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele.
Apesar do que descrevem como “breve alívio” provocado pela operação, aliados de Flávio ponderam que as situações não são equivalentes. Eles reconhecem que o senador continuará submetido a um escrutínio maior por disputar a Presidência da República.
Além disso, foi uma conversa sua com Daniel Vorcaro sobre o financiamento do filme Dark Horse que desencadeou a crise política da pré-campanha. Já Jaques Wagner, por sua vez, ocupa posição diferente. Embora seja um dos principais aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), líder do governo no Senado e figura histórica do PT, não disputará a eleição presidencial.
Reservadamente, aliados admitem que o peso eleitoral dos casos é distinto. Ainda assim, avaliam que a entrada de um dos políticos mais próximos de Lula na investigação reduz o isolamento político de Flávio dentro do escândalo e enfraquece a tentativa de associar o caso Master exclusivamente ao entorno bolsonarista. A avaliação resumida por um interlocutor é que a proporção dos problemas pode ser diferente, mas a tendência é que a investigação passe a colocar personagens de campos políticos distintos dentro da mesma narrativa pública.
Jaques na mira
A ação da PF teve como alvo Jaques Wagner no âmbito das investigações relacionadas ao Banco Master, na nona fase da operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. O senador é líder do governo no Senado e ocupa posição estratégica na articulação política do Palácio do Planalto no Congresso Nacional.
Durante ações de busca e apreensão, foi apreendido um montante de US$ 49 mil (o equivalente a R$ 253 mil na cotação atual) em espécie em um endereço ligado ao senador em Brasília.
O senador, contudo, disse que o valor é referente a diárias recebidas para missões oficiais, mas que não foram gastos.
Segundo a decisão de Mendonça, Wagner foi o “beneficiário central” de “vantagens econômicas” pagas por integrantes do Banco Master em troca da sua atuação no Congresso Nacional em prol da instituição financeira. Entre esses benefícios identificadas pela PF, estão pagamentos de um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador, o uso de aeronaves particulares e ingressos para um show em Los Angeles que teria custado R$ 63,3 mil.
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