Conheça a história por trás da data do Dia do Cinema Brasileiro; primeira filmagem no país completa 128 anos
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 19/06/2026 03:50:04
Primeiro filme, que mostrava paisagem do Rio e acabou se perdendo, inspira documentário e data ganha programação especial na TV
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RESUMO
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- A data celebra o registro de Afonso Segreto em 1898. Curiosamente, a película foi danificada e o primeiro filme nacional nunca pôde ser exibido ao público.
- Os irmãos Segreto, pioneiros do audiovisual no país, têm sua trajetória resgatada no documentário ítalo-brasileiro “Os irmãos Segreto”, em exibição em festival de cinema.
- Para comemorar a data histórica, o Canal Brasil e a plataforma Itaú Cultural Play prepararam mostras especiais com clássicos e documentários musicais nacionais.
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Em 19 de junho de 1898, Afonso Segreto, um italiano radicado no Brasil, voltava ao Rio após um período em Nova York e Paris. Nessa viagem havia comprado filmes para exibir na então capital e equipamento para produzir seus próprios curtas, na época chamados de “vistas”. E começou antes mesmo de desembarcar: a bordo do navio que o trazia, Afonso registrou imagens da entrada da baía de Guanabara. A data ficou conhecida por marcar as primeiras filmagens no país, razão pela qual se comemora nesta quarta-feira o Dia do Cinema Brasileiro — que faz, portanto, exatos 128 anos.
O jornal Gazeta de Notícias do dia 20 de junho de 1898 publicou aquela que é considerada a “certidão de nascimento” do cinema nacional, uma nota simples em que mencionava a filmagem, único relato oficial do ocorrido. “O sr. Afonso Segreto há sete meses que fora buscar o aparelho fotográfico para preparo de vistas destinadas ao cinematógrafo e agora volta habilitado a montar aqui uma verdadeira novidade, que é a exibição de vistas movimentadas do Brasil. Já ao entrar à barra, fotografou ele as fortalezas e navios de guerra. Teremos para dentro em pouco verdadeiras surpresas”, destacou a publicação em trecho citado no livro “A bela época do cinema brasileiro”, importante registro histórico de Vicente de Paula Araújo.
É justamente este registro na imprensa da época que consolida a data e o pioneirismo de Afonso. No mesmo dia em que foi publicada a matéria, seria realizada uma sessão com a vista no Salão de Novidades Paris, primeira sala de cinema fixa do Brasil, estabelecida em 1897 na rua do Ouvidor, no Rio, por Paschoal Segreto, irmão de Afonso e importante nome do entretenimento no Brasil no final do século XIX e início do XX. Para a exibição foram convidadas autoridades como o presidente da República Prudente de Morais e o jurista Rui Barbosa. Um convite para a sessão faz parte do acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa.
Acontece que a sessão não foi realizada da forma que se pretendia. Ainda um cinegrafista inexperiente, Afonso abriu inadvertidamente a câmara e a película acabou danificada, como relatou o sobrinho Domingos Segreto em depoimento presente no livro “Palácios e poeiras”, de Alice Gonzaga. Assim, o primeiro filme brasileiro nunca viu a luz do dia. Os irmãos Segreto acabaram exibindo vistas estrangeiras para o público presente, que ficou frustrado.
— A data de 19 de junho é muito simbólica da dificuldade que se tem de fazer cinema no Brasil, porque ela é uma data que marca uma ausência, um filme que não existiu — destaca Hernani Heffner, gerente da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio (MAM). — E, além da dificuldade, retrata a perseverança e força de fazer cinema contra todas as expectativas. É o marco inicial de uma história que tem muitos percalços, mas que segue sempre em frente, com muita persistência até hoje.
Hernani lembra que apesar do fracasso na primeira tentativa, Afonso vai sim se tornar o primeiro realizador cinematográfico do país. As primeiras filmagens completas no país ocorreram menos de um mês após o desembarque de Afonso no país, no dia 5 de julho, quando ele registrou duas vistas: o desfile fúnebre do marechal Floriano Peixoto; e a visita de Prudente de Morais ao cruzador Benjamin Constant no Arsenal de Marinha. Entre 1898 e 1903, Afonso registrou mais de 100 filmes, e todos se perderam com o tempo, como todo cinema brasileiro antes de 1909. Por trás da Empresa Paschoal Segreto, Paschoal se manteve como principal exibidor e produtor do Brasil até 1907, mas aos poucos vai deixando o cinema de lado para investir em outros campos do entretenimento, como o teatro, sua grande paixão. Hoje, a única herança viva da família Segreto no Rio é o Teatro Carlos Gomes, no Centro.
Outras hipóteses
Alguns consideram que o primeiro filme brasileiro foi, na verdade, “Chegada do trem em Petrópolis”, em razão de um recorte do jornal Gazeta de Petrópolis que convidava para uma sessão de vistas organizada por Vittorio di Maio no dia 1º de maio de 1897, no Theatro Cassino de Petrópolis, que apresentaria uma obra com aquele nome. A falta de matérias reagindo à vista e de informações sobre quem seria o cinegrafista, e o fato de di Maio ter vendido posteriormente seu projetor e acervo para Paschoal, sem qualquer menção à obra, faz com que historiadores contestem sua existência. Lembrando que sessões de cinema já aconteciam no Brasil desde 8 de julho de 1896.
Também data de 1897 a vista “Ancoradouro de pescadores na baía da Guanabara”, de José Roberto Cunha Sales, registro guardado no Arquivo Nacional, mas que historiadores contestam a “brasilidade” e acreditam que o filme teria sido recortado de uma vista estrangeira pelo cinegrafista, que tinha ligações com o jogo do bicho.
Doc a caminho
O documentário “Os irmãos Segreto”, dos cineastas italianos Federico Ferrone e Michele Manzolini, uma coprodução entre Brasil e Itália, conta um pouco da história dos irmãos Paschoal, Gaetano e Alfonso, que deixaram San Martino de Cilento para se tornarem importantes nomes da cena cultural da Belle Époque carioca. Gaetano, o irmão do meio, era sócio de Paschoal em suas empresas, mas dedicou-se à sua paixão pelo jornalismo, ajudando inclusive a divulgar os filmes realizados e exibidos pelos irmãos.
— Os Segreto foram os nossos irmãos Lumière. Mas mais do que pioneiros do cinema, foram pioneiros do entretenimento, dessa cultura carioca do divertimento — destaca Juliana de Carvalho, produtora brasileira do filme através da Bang Filmes. — No filme também falamos sobre a influência da imigração italiana no Rio, que é pouco valorizada. Sempre falamos das influências francesas, como se todos os italianos tivessem ido para o Sul, mas não foi bem assim. O filme vai mostrar que na nossa cultura, temos muito mais de italianos do que de franceses.
O longa integra a programação do 8½ Festa do Cinema Italiano, evento que acontece entre os dias 25 de junho e 1º de julho nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Aracaju, Recife, Porto Alegre e Florianópolis.
Programação dedicada
O Dia do Cinema Brasileiro renderá programação especial no Canal Brasil, com uma maratona especial a partir das 14h30. A programação reúne clássicos como “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Cabra marcado para morrer”’, “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil” e “Central do Brasil”.
Já o Itaú Cultural Play recebe uma seleção de filmes do 18º In-Edit Brasil – Festival Internacional do Documentário Musical. O recorte reúne cinco produções que têm a música e a cultura brasileiras como eixo central.
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