Opinião: Wagner se explica e se complica nas relações pouco apropriadas com Augusto Lima e o caso Master
Fonte: bahianoticias.com.br | Data: 19/06/2026 07:38:16
O senador Jaques Wagner até tentou justificar as complexas relações com o banqueiro Augusto Lima desveladas por uma nova fase da Operação Compliance Zero. No entanto, os argumentos pareceram vazios, especialmente em um contexto em que o Banco Master, “pai do escândalo”, usou subterfúgios em dinheiro para influenciar as mais diversas esferas do poder. Para a militância, Wagner vai continuar sempre inocente. Para os adversários, o episódio, em tese, abala a reputação de um candidato à reeleição com grande ascendência sobre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Jerônimo Rodrigues.
Do que foi revelado a partir da decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a operação, o pedido para “compra temporária” de um apartamento de alto luxo, no valor de R$ 2,5 milhões, e os milhares de dólares e euros encontrados ganharam desculpas esfarrapadas. Ao invés de um empréstimo, como qualquer cidadão comum, Wagner pediu a Augusto Lima para comprar um apartamento que daria de presente à filha enquanto ela ainda morava no imóvel em que residia. Guardar 49 mil dólares e 33 mil euros em endereços pessoais também não levantaria suspeitas. Pelo menos foi essa a perspectiva que o senador tentou apresentar publicamente.
O rastro do dinheiro é o que assusta. As operações se não forem ilegais, como apregoam Wagner e os aliados, seriam imorais. Foi o senador, enquanto secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, que articulou a venda da Cesta do Povo a Augusto Lima. Foi o Credcesta, o bônus da operação, que impulsionou o empresário e, posteriormente, o Banco Master. No âmbito do Senado, o aval dele foi importante para que Ciro Nogueira emplacasse a emenda que beneficiou Daniel Vorcaro e cia. Não enxergar tais relações como inapropriadas é tão republicano quanto naturalizar barbáries cometidas pela extrema-direita para permanecer no poder.
Ao som “Amigo estou aqui”, o ex-governador e também candidato ao Senado pela Bahia, Rui Costa, se solidarizou com Wagner após o companheiro bradar que a imprensa fazia publicações que o relacionavam ao escândalo Master. Dois dias depois, a operação arremessou o “Galego” no olho do furacão e Rui, tão falante nos últimos tempos, calou-se. Era ele o governador quando a Cesta do Povo foi vendida. É ele quem evita ser tratado como “PT da Bahia” que mantinha relações com Augusto Lima. O mesmo silêncio atingiu outro hábil orador do passado recente na Bahia, o governador Jerônimo Rodrigues, que manteve uma pauta na tarde desta quinta, mas não falou com a imprensa.
Com as lideranças do entorno silente – postagens controladas pelas respectivas assessorias não deveria contar -, Wagner veio a público se defender, reclamar de fogo amigo e evitar a fritura intensa sem dar as caras. Admitamos que foi um esforço para conter danos, já que o episódio pode respingar na corrida eleitoral da Bahia e do Brasil (o posto de líder do governo no Senado o coloca frequentemente no Palácio do Planalto). O resultado prático das declarações devem ser medidos nos próximos dias. Mesmo que o impacto não seja grande, é inocente supor que ele passará incólume.
TELHADO DE VIDRO
O pacto de não agressão entre governo e oposição da Bahia no caso Master, inclusive, foi revivido com a operação. No passado, quando a PF batia a porta de alguém, os adversários aproveitavam o momento para alfinetar. Wagner não foi alvo, até aqui, de comentários de qualquer um dos oposicionistas baianos. Ou seja, a lógica do telhado de vidro se aplica aqui.