Baixar Notícia
WhatsApp
Email

Tela Brasil presta serviço público ao ofertar gratuitamente história do cinema brasileiro

Fonte: diariodonordeste.verdesmares.com.br | Data: 19/06/2026 07:04:37

🔗 Ler matéria original

Há cerca de cinco anos, encontrar filmes brasileiros mais antigos em grandes streamings, sejam estrangeiros ou nacionais, era um desafio. O cenário melhorou com o tempo, com plataformas como Globoplay e Netflix anunciando, respectivamente em 2021 e 2024, a adição de “coleções” de clássicos aos catálogos.

Em iniciativas de escala menor, como Itaú Cultural Play, Sesc Digital e SPCine, a situação se mostrava melhor, mas é com a recente estreia da Tela Brasil — plataforma gratuita do governo federal — que um panorama histórico relevante do cinema nacional se desvela.

O streaming público traz, neste primeiro momento, um catálogo com 555 obras, entre longas, curtas, médias e produções seriadas. O escopo temporal da iniciativa é amplo: há produções realizadas entre 1910 e 2025


Um dos aspectos de destaque no acervo são as dezenas de obras históricas, sejam longas em versões restauradas, produções dadas como perdidas ou registros do começo do século XX.

Em um país costumeiramente ligado à ausência de memória, a presença dessas obras tanto evidencia os esforços contra apagamentos, quanto presta serviço público ao disponibilizá-las gratuitamente.

A mais antiga disponibilizada é “Cerimônias da Inauguração da Catedral em Santa Maria; as festas da Sagração da Igreja em Santa Maria”, que reúne registros de eventos ocorridos em 5 de dezembro de 1909, no Rio Grande do Sul.

Momentos como quermesse, procissão e o embarque de passageiros na estação de trem compõem as imagens. Elas fazem parte do Projeto Nitratos, da Cinemateca Brasileira, que em 2024 promoveu a conservação, catalogação e digitalização de milhares filmes da coleção mais antiga do cinema nacional.

Imagem de reprodução de filme histórico de 1910 mostra pessoas que se reúnem em frente a uma igreja, destacando dois jovens coroinhas em trajes brancos no centro enquanto uma multidão de homens com chapéus observa ao redor. A imagem antiga em preto e branco registra um evento solene e histórico em uma composição repleta de detalhes e profundidade.

Legenda:
Obra mais antiga no catálogo da Tela Brasil é de 1910.

Foto:
Reprodução.

Parte deles, que já estava disponível em site da iniciativa, está na Tela Brasil, incluindo:

  • os fragmentos remanescentes do longa “Jangada” (1949) — que seria inspirado na história do líder jangadeiro cearense Dragão do Mar, mas teve cópias perdidas em um incêndio —; e
  • a esquete “Os Apuros do Genésio” (1940), que era dada como perdida, mas foi reencontrada em 2024 e traz uma “brincadeira cinematográfica” de Genésio Arruda, que estrelou o primeiro longa sonoro brasileiro.

É por ser uma plataforma do Ministério da Cultura que a Tela Brasil reúne acervos de instituições ligadas à pasta, como os da própria Cinemateca, do Centro Técnico Audiovisual (CTAv), da Fundação Nacional das Artes (Funarte) e da Fundação Cultural Palmares

Artistas, incluindo o humorista Grande Otelo de blusa xadrez e ajoelhado, performam em um palco decorado, destacando uma dançarina com um vestido de babados volumoso no centro. O grupo de passistas com trajes festivos e adereços de plumas compõe a cena antiga em tons de sépia, evocando uma atmosfera vibrante de dança e espetáculo musical.

Legenda:
Chanchada “Carnaval Atlântida” é um dos marcos do cinema brasileiro que está presente na Tela Brasil.

Foto:
Divulgação.

Inúmeros longas das companhias cinematográficas Vera Cruz e Atlântida, dois dos principais estúdios da indústria audiovisual brasileira dos anos 1940 e 1950, estão, por exemplo, disponibilizados na plataforma.

É possível apreciar, ainda, os humoristas Oscarito e Grande Otelo em obras como “Carnaval Atlântida” (1952), “O Homem do Sputnik” (1959) e “É Proibido Beijar” (1954). Também, ver na plataforma grande parte da filmografia do baiano Glauber Rocha, indo de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) ao curta “Pátio” (1959).

Há a produção francesa gravada no Brasil “Orfeu Negro” (1959) que levou o Oscar, mas representando a França — e filmes menos lembrados dos anos 1970, como “Pra Quem Fica, Tchau” (1971), de Reginaldo Faria, e “A Noite do Espantalho”, musical com Alceu Valença e Geraldo Azevedo.

Obras que recentemente foram restauradas e reexibidas no cinema também figuram no catálogo, caso de “São Paulo Sociedade Anônima” (1965), de Luiz Sérgio Person, e “A Hora da Estrela” (1986), adaptação de Suzana Amaral do livro de Clarice Lispector e com Marcélia Cartaxo.

Entre longas mais novos do século passado, há os indicados ao Oscar “O Quatrilho” (1995) e “O Que É Isso, Companheiro?” (1997). Do cinema mudo à retomada, a Tela Brasil desponta como ferramenta essencial de mergulho na história da produção audiovisual do país.

Há faltas, mas também promessa de ampliação

É fato que obras e nomes que também podem ser ditos como incontornáveis — caso de clássicos como “Limite” (1931), de Mário Peixoto, e “O Ébrio” (1946), de Gilda Abreu, e cineastas como Ana Carolina, Humberto Mauro, Nelson Pereira dos Santos e Júlio Bressane, para elencar poucos — estão ausentes neste primeiro momento.

Ressalte-se, ainda, como pontuou a Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro (API), que além da oferta na plataforma, é necessária “preservação ativa” do setor, inclusive com fomento às instituições que cumprem esse papel. “Uma plataforma de exibição não substitiu o investimento público estrutural necessário para salvar e manter os arquivos físicos e digitais do cinema brasileiro“, diz a entidade em nota.

Em termos de cinema cearense, chama a atenção a falta de qualquer filme de Rosemberg Cariry, para citar apenas um nome relevante da história da produção do Estado — pelo menos, é possível acessar produções do cineasta na Siará+, plataforma da Secretaria da Cultura do Ceará e “irmã mais velha” da Tela Brasil.

No entanto, questões como licenciamento e direitos autorais também entram em jogo numa iniciativa como a Tela Brasil. De partida, o MinC havia divulgado antes do lançamento que seriam 561 produções audiovisuais, número que diminuiu para 555 depois — “Xica da Silva”, de Cacá Diegues, era um dos filmes listados, mas não consta no site, por exemplo.


Apesar dessas faltas, já há indicativos de ampliação do catálogo do streaming, a partir de acordos com outras instâncias ligadas ao Governo Federal, como a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC).  No evento de lançamento da Tela Brasil, ocorrido em 30 de maio, o secretário-executivo do MinC Márcio Tavares adiantou “foco” em duplicar o catálogo em breve, a partir desta e de outras parcerias previstas.

Na mesma ocasião, a secretária do Audiovisual da pasta Joelma Gonzaga bem definiu a Tela Brasil como “uma plataforma que preserva a memória do nosso cinema, amplia o acesso da população à cultura e fortalece a circulação de obras que ajudam a contar a história, a diversidade e a identidade do Brasil”. Que assim siga, para que os brasileiros possam se ver, reconhecer e redescobrir na riqueza das “telas” do País.