IBGE: trabalho e falta de interesse por estudos lideram motivos para evasão escolar no Brasil
Fonte: noticias.r7.com | Data: 19/06/2026 10:07:25
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- Em 2025, o IBGE identificou 7,7 milhões de jovens entre 14 e 29 anos que não concluíram o ensino médio, principalmente devido à necessidade de trabalhar e ao desinteresse pelos estudos.
- A evasão escolar afeta mais jovens negros, refletindo racismo estrutural e desigualdades de renda, com 72,8% dos evadidos sendo pretos e pardos.
- Entre os jovens que abandonaram os estudos para trabalhar, 54,2% são homens, que enfrentam maior pressão para prover financeiramente, enquanto as mulheres também lidam com gravidez precoce e responsabilidades domésticas.
- Especialistas defendem que políticas públicas devem abordar questões sociais e econômicas para combater a evasão escolar, incluindo pobreza, desigualdade racial e precarização do trabalho juvenil.
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Um levantamento divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta sexta-feira (19) revelou que, em 2025, a necessidade de trabalhar e o desinteresse pelos estudos foram as principais razões que levaram 7,7 milhões de jovens entre 14 e 29 anos a não concluírem o ensino médio.
Segundo a pesquisa, a necessidade de trabalhar foi citada por 43% dos entrevistados como o principal motivo para não concluir os estudos, um aumento de um ponto percentual em relação ao ano anterior.
A falta de interesse pelos estudos foi a resposta de 25,6% dos jovens. Em seguida aparecem gravidez (9,9%), problemas permanentes de saúde (4,4%), afazeres domésticos ou cuidados com outras pessoas (3,9%) e falta de escola, vaga ou turno desejado (2,8%).
Os dados fazem parte da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua e mostram que os motivos para o abandono escolar vão além de decisões individuais, refletindo desigualdades sociais e desafios enfrentados pelo sistema educacional.
Para definir os níveis de evasão escolar, a pesquisa leva em conta pessoas que, por terem interrompido os estudos ou nunca terem sequer começado, não concluíram o ciclo educacional básico, que é definido por ensino médio completo.
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Para especialistas ouvidos pelo R7, os dois principais motivos apontados pela pesquisa estão interligados a fatores sociais, econômicos e ao próprio modelo educacional.
Outro dado da pesquisa revela que, entre os jovens que não terminaram a escola por precisar trabalhar, os homens são maioria. Segundo o professor e doutor em direito Jonas Rodrigo Gonçalves, esse cenário reflete uma construção social histórica.
“Historicamente, os homens são socializados para assumir precocemente a função de provedores financeiros da família. Isso faz com que a pressão para ingressar no mercado de trabalho recaia de forma mais intensa sobre eles”, explica.
O professor acrescenta que, embora entre as mulheres o trabalho também seja o fator primário, surgem outras variáveis com peso equivalente. “Outros elementos influenciam fortemente a evasão escolar, como gravidez, maternidade precoce, trabalho doméstico não remunerado e responsabilidades de cuidado”.
O estudo revelou que 24,7% das mulheres interromperam os estudos por conta de uma gravidez. Enquanto 8,6% deixaram a escola para realizar tarefas domésticas, essa foi a resposta de somente 0,7% dos homens.
Por trás do desinteresse
Se a necessidade de trabalhar ajuda a explicar boa parte dos casos de abandono escolar, o segundo principal motivo apontado pelo IBGE — a falta de interesse pelos estudos — também foi citado pelos especialistas.
Geógrafo e doutor em educação, o professor Gabriel Petter acredita que o modelo tradicional de educação, aliado a uma dependência cada vez mais precoce das tecnologias, enfrenta dificuldades para se conectar às demandas atuais.
“A ideia de que a educação é um caminho para a mudança social não faz muito sentido para adolescentes com necessidades imediatas, constantemente estimulados pelas redes sociais e seus algoritmos. Dessa forma, há uma desmotivação e um desengajamento evidentes, tanto entre os estudantes como entre os professores, que se veem expostos à apatia de quem deveria interagir consigo na construção de conhecimento”, afirma.
A ideia é compartilhada por Gonçalves, que afirma que o suposto desinteresse deve ser analisado com cautela. Na visão do professor, o fenômeno é atravessado por questões mais complexas.
“A literatura demonstra que o desinteresse raramente é uma causa isolada. Frequentemente é consequência das experiências escolares marcadas por dificuldades de aprendizagem, defasagem idade-série e baixas perspectivas concretas de ascensão econômica por meio da educação”, argumenta.
Jonas Gonçalves acrescenta que, quando a escola não dialoga com a realidade social, cultural e econômica dos jovens, ocorre um processo de afastamento subjetivo que pode ser lido como “desinteresse”. “Em outras palavras, muitas vezes não é o estudante que perde interesse pela educação, mas a educação que deixa de estabelecer significado para aquele estudante”, conclui.
Desigualdades agravam
Além dos motivos que levam ao abandono dos estudos, a pesquisa mostra que a evasão escolar afeta de forma desigual diferentes grupos da população.
Entre os jovens que não concluíram o ensino médio, 59,8% eram homens e 40,2%, mulheres. Em relação ao recorte racial, 26,4% se declararam brancos, enquanto pretos e pardos representam 72,8% desse universo.
Para o doutor em educação Renato de Oliveira Brito, o fato de a evasão escolar atingir principalmente jovens negros é a expressão direta de uma realidade marcada por racismo estrutural e desigualdades profundas de renda.
“São jovens mais pressionados a trabalhar cedo, mais expostos à violência e mais sujeitos à reprovação e discriminação na escola. Nesse contexto, abandonar os estudos deixa de ser uma escolha isolada e passa a ser produto de um sistema excludente”, defende.
Soluções possíveis
Na visão dos especialistas, as políticas públicas voltadas a reverter o cenário de abandono de estudos devem ser elaboradas em conjunto por parte dos âmbitos nacional, estadual e local.
Para Jonas Gonçalves, as ações do governo federal podem envolver:
- Ampliação de programas de transferência de renda condicionados à permanência escolar;
- Expansão de bolsas de permanência para estudantes em vulnerabilidade;
- Fortalecimento do ensino médio integrado à educação profissional;
- Ampliação de políticas públicas de aprendizagem profissional para jovens; e
- Investimentos em infraestrutura e conectividade escolar.
“No âmbito estadual, governos podem investir na expansão da educação em tempo integral, em apoio psicossocial nas escolas e em currículos mais conectados com o mundo do trabalho e com a realidade local”, afirma Gonçalves.
No caso de gestores municipais, o professor sugere ações integradas:
- Monitoramento individualizado de estudantes em risco de evasão;
- Integração entre escola, assistência social e saúde;
- Transporte escolar adequado; e
- Apoio às famílias em situação de vulnerabilidade.
O professor reforça que a permanência escolar é, antes de tudo, uma questão de garantia de direitos e de justiça social.
“Do ponto de vista das políticas públicas, as evidências mostram que a evasão escolar não será resolvida apenas dentro da escola. É necessário enfrentar simultaneamente pobreza, insegurança alimentar, desigualdade racial, desigualdade de gênero e precarização do trabalho juvenil”, finaliza.
*Estagiária do R7, sob supervisão de Augusto Fernandes, editor-chefe.
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