Baixar Notícia
WhatsApp
Email

Lula e Flávio ajustam comunicação e palanques sob pressão do caso Master antes das convenções

Fonte: estadao.com.br | Data: 21/06/2026 17:32:47

🔗 Ler matéria original

Eleições 2026: saiba quais cargos estarão em disputa neste ano

Presidente, governadores, senadores e deputados serão escolhidos pelos eleitores; entenda o papel de cada cargo. Crédito: Estadão

A exatamente um mês da abertura do prazo das convenções partidárias, as pré-campanhas presidenciais entram em uma fase decisiva para resolver pendências antes da largada formal da eleição. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) terão de ajustar estratégias, acomodar aliados, organizar palanques e definir o tom com que pretendem chegar ao período em que as candidaturas, alianças e chapas passam a ser oficializadas pelos partidos.

As convenções partidárias para a escolha oficial dos candidatos começam no dia 20 de julho e vão até 5 de agosto. O prazo até lá, que coincide com a realização da Copa do Mundo, com atenções menos voltadas aos candidatos, é considerado fundamental nos dois principais campos da disputa.

No PT, a prioridade passa por alinhar a comunicação digital, reforçar bandeiras e entregas do governo, aparar arestas jurídicas e destravar palanques estaduais ainda sensíveis, como São Paulo e Minas Gerais. O partido também passou a administrar a chegada do caso Banco Master ao entorno de Lula, após a Polícia Federal (PF) realizar operação contra o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado, na nova fase da Operação Compliance Zero.

Lula ajusta redes e palanques, e Flávio Bolsonaro busca conter desgaste sobre Master até convenções

 

Foto: SEAUD/PR / Sergio Lima / AFP

O tema também pressiona o campo de Flávio. No entorno do senador, o desafio é atravessar o desgaste provocado pela relação direta com Daniel Vorcaro, ex-dono do Master, escolher um nome para a vice, recompor palanques em Estados estratégicos e tentar impor uma agenda própria, com a antecipação de propostas nas áreas econômica e de segurança pública.

Aliados de Lula focam em ajustar comunicação

No campo lulista, a comunicação digital aparece como uma das frentes centrais desta etapa pré-convenções. A avaliação no PT é que o partido conseguiu estruturar uma rede própria de canais para falar simultaneamente com a militância, com apoiadores e com setores da sociedade que acompanham a política pelas redes sociais. A estratégia combina perfis oficiais nas plataformas digitais, canais próprios de transmissão e iniciativas voltadas à mobilização do eleitorado.

Um dos nomes envolvidos na comunicação da pré-campanha de Lula, o secretário nacional de Comunicação do PT, Éden Valadares, afirma que o partido está satisfeito com a estratégia atual nas redes. Segundo ele, a legenda tem apostado em uma estrutura própria para distribuir conteúdo e tentar ampliar o alcance das mensagens do presidente fora dos canais tradicionais do partido. Entre as iniciativas estão o Pode Espalhar e o Porta-Vozes do Lula, voltado a organizar uma rede de apoiadores para replicar conteúdos de defesa do governo e de Lula nas plataformas digitais.

A definição do tom da comunicação, no entanto, ainda envolve um ponto sensível para a pré-campanha: o equilíbrio entre valorizar entregas do governo e adotar uma postura mais combativa contra o bolsonarismo. Esse cálculo ganhou uma nova camada após a operação da PF que teve Jaques Wagner, aliado próximo de Lula, entre os alvos.

Nos bastidores, integrantes do entorno de Lula admitem que a operação contra Wagner deu “munição aos bolsonaristas” e impede a campanha de tratar o caso Master como um desgaste restrito ao campo de Flávio Bolsonaro. A avaliação, porém, é que a comunicação petista deve continuar explorando a relação direta do senador com Vorcaro. O argumento é que a disputa presidencial será entre Lula e Flávio, não entre Lula e Wagner.

Escolha do vice de Flávio é pendência

Para Flávio Bolsonaro, o desafio é chegar às convenções menos associado ao desgaste do caso Master e mais vinculado a propostas próprias, especialmente nas áreas econômica e de segurança pública. A antecipação de medidas é vista no entorno do pré-candidato como uma forma de deslocar o foco do noticiário negativo provocado pela revelação de que ele pediu e recebeu recursos de Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

Nesta semana, Flávio fez dois movimentos nessa direção. O senador confirmou a participação da economista Daniella Marques na formulação de propostas econômicas da pré-campanha. Ex-presidente da Caixa, ela integrou a equipe de Paulo Guedes no governo Bolsonaro. Em outra frente, apresentou o plano “Brasil sem Medo”, com medidas para a área de segurança pública. A expectativa é que novos pontos do programa sejam divulgados nas próximas semanas, antes das convenções partidárias.

Outra indefinição na pré-campanha de Flávio é a escolha do vice. Em evento recente, o senador disse que sua vice será, “preferencialmente”, uma mulher. A ideia, segundo aliados, é tentar reduzir a resistência no eleitorado feminino, segmento em que o clã Bolsonaro historicamente enfrenta maior dificuldade.

Nos últimos dias, nomes passaram a circular no entorno da pré-campanha. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro defendeu publicamente a deputada Júlia Zanatta (PL-SC) para a vaga. Também são mencionadas a deputada Clarissa Tércio (PP-PE), ligada ao eleitorado evangélico, e a senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura de Jair Bolsonaro. A escolha, porém, ainda não foi definida.

Palanques-chave nos Estados seguem indefinidos

Além da comunicação digital, Lula ainda precisa aparar arestas na montagem dos palanques estaduais. Um dos casos é São Paulo, maior colégio eleitoral do País, onde a chapa do ministro Fernando Haddad ao governo ainda depende da acomodação de aliados na disputa majoritária. A indefinição passa pela escolha do vice e pela composição das duas vagas ao Senado, disputadas por nomes como Márcio França (PSB), Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede).

Como mostrou o Estadão, Lula prefere que França seja vice de Haddad, mas o PSB ainda resiste a abrir mão da candidatura do ex-governador ao Senado. A decisão tem efeito em cadeia sobre o restante da chapa, porque a definição de França ajuda a organizar o espaço de Simone e Marina na disputa pelas duas cadeiras paulistas no Senado.

Para Flávio, uma das principais preocupações está no Rio de Janeiro, seu reduto eleitoral e Estado onde o palanque do senador perdeu força nos últimos meses. O impasse se dá em duas frentes. A primeira envolve o formato da eleição para o governo fluminense, suspensa no STF após pedido de vista do ministro Flávio Dino. Enquanto o julgamento não é concluído, permanece no cargo o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Ricardo Couto, como governador em exercício.

O entorno de Flávio contava com a possibilidade de o deputado estadual Douglas Ruas (PL), eleito presidente da Assembleia Legislativa do Rio, assumir o mandato-tampão no Palácio Guanabara. A avaliação era que, com a máquina estadual nas mãos de um aliado, o pré-candidato teria uma estrutura mais robusta para organizar seu palanque no Estado. O STF, no entanto, manteve Couto no comando interino do governo fluminense.

A segunda frente de indefinição está na chapa ao Senado. O PL ainda discute quem ocupará o espaço deixado pelo ex-governador Cláudio Castro (PL) após ser alvo da Polícia Federal. Entre os nomes em avaliação estão o deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ) e o senador Carlos Portinho (PL-RJ). A definição é considerada estratégica porque o Rio, terceiro maior colégio eleitoral do País, é também o principal território político da família Bolsonaro e deveria funcionar como uma das bases mais sólidas da pré-campanha de Flávio.

A preocupação segue a leitura do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da pré-campanha. “O foco total agora está na construção, ampliação e estruturação dos palanques”, diz.

Já Minas Gerais aparece como uma indefinição comum aos dois campos. Estado historicamente tratado como termômetro da disputa presidencial, Minas ainda não tem um desenho claro para os palanques de Lula e Flávio.

No pré-campanha lulista, a negativa do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) em concorrer ao governo mineiro abriu uma lacuna na montagem da chapa estadual. Após o partido descartar o apoio ao ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT), outros nomes ainda citados são o do ex-presidente da Câmara da capital mineira, Gabriel Azevedo, e o do empresário Josué Gomes, ex-presidente da Fiesp, filho do ex-vice-presidente José Alencar e recém-filiado ao PSB. A ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT) também é citada nas conversas, mas ela tem dito que não abre mão de disputar o Senado.

Flávio Bolsonaro também ainda não bateu o martelo sobre quem será seu candidato ao governo de Minas. O senador Cleitinho (Republicanos-MG) é tratado como o nome bolsonarista mais provável, mas resiste a oficializar a candidatura ao Palácio da Liberdade.

A preparação para as convenções também envolve ajustes internos nas estruturas das pré-campanhas. No PT, uma das frentes ainda em aberto é a organização jurídica. O advogado eleitoral Ângelo Ferraro, que já representa o partido em demandas eleitorais relacionadas a Lula, deve ficar à frente da coordenação jurídica. O advogado Pierpaolo Bottini foi consultado para integrar um núcleo voltado a temas penais. No grupo de Flávio, o comando da estratégia jurídica estará a cargo da ex-ministra do TSE Maria Claudia Bucchianeri.