Mostra de Ouro Preto tem documentários musicais entre os destaques
Fonte: otempo.com.br | Data: 24/06/2026 08:08:37
Disseram que era uma onda, uma moda passageira. Mas o subgênero se impôs e, desde 2005, quando o filme “Vinícius” levou mais de 270 mil pessoas aos cinemas, as telas brasileiras não pararam mais de receber documentários musicais, percorrendo vários estilos e personagens marcantes. Na 21ª edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), com início nesta quinta-feira (25), o formato é um dos principais destaques da programação.
“É fruto da riqueza da música brasileira. As pessoas começaram a se dar conta da importância desses documentos. Estamos numa era audiovisual e os filmes vêm tomando o lugar das biografias. Essas continuam sendo importantes, mas os documentários estão ganhando outro peso”, explica Paulo Severo, diretor de “Fernanda Abreu – Da Lata 30 Anos, o documentário”, que será exibido no domingo (28), às 20h, na Praça Tiradentes.
Além do filme sobre o disco “Da Lata”, marco da música pop no país, o festival apresenta “As Dores do Mundo – Hyldon”, de Emílio Domingos e Felipe David Rodrigues, “Apocalipse Segundo Baby”, de Rafael Saar, “Universo Circular – Jocy de Oliveira”, de Dácio Pinheiro, e “Vivo 76”, de Lírio Ferreira. Na tela, representantes do soul (Hyldon), da Tropicália (Baby Consuelo), do regional misturado ao rock (Alceu Valença) e do eletrônico (Jocy).
“A música brasileira está sempre se renovando. É impossível esgotar. Um único filme nunca vai esgotar o olhar sobre um artista, né? Um exemplo é a Maria Bethânia, que tem uma série de documentários que abordam a obra dela de diferentes maneiras”, registra Saar, que já está em terceiro documentário musical, após se debruçar sobre a dupla Luhli e Lucina e a cantora mineira Maria Alcina.
“A música é a manifestação artística mais rica e sofisticada que o país tem. Quando você fala da música, consegue falar de outras camadas da sociedade brasileira. Isso acontece por meio da própria música, dos artistas, do que eles estão falando e do mundo que eles estão vivendo. Ela tem essa força popular, conseguindo realmente chegar a lugares que só mesmo a música pode chegar”, afirma Emílio Domingos, que assinou filmes sobre a Black Rio e a batalha do passinho.
Domingos atendeu a reportagem de O TEMPO no set de seu próximo filme, que enfoca a casa de shows Zicartola, fundada por Cartola e sua esposa, Dona Zica, no centro do Rio de Janeiro, e lembrada por ser um reduto da velha guarda do samba. “Eu adoro música, fui DJ por muito tempo e mantenho essa relação intensa, sendo daqueles caras viciados em vinil. Tanto que já fiquei sabendo que, em Ouro Preto, há um lugar onde vendem vinis perto de onde o filme será exibido”.
Assim como Domingos e Saar, Severo também tem na música uma de suas paixões. Por sinal, o material reunido em “Fernanda Abreu” é dele próprio, feito há 30 anos e guardado a sete chaves até o momento em que ele e a cantora resolveram celebrar “Da Lata”. “Somos amigos desde o primeiro disco dela. Eu já fazia vídeo naquela época, que era feito em Super VHS, e um amigo em comum nos apresentou. Propus e a Fernanda aceitou fazermos um vídeo-release destes trabalhos”.
Em “Da Lata”, o processo foi diferente, com a dupla “fazendo uma coisa mais profunda, com material de gravação em estúdio, da mixagem em Londres, do videoclipe realizado no Sambódromo, da sessão de fotos da capa com Walter Carvalho, do show no Canecão…”. O primeiro produto foi um vídeo de 20 minutos, distribuído pela gravadora. O restante – cerca de 40 horas – permaneceu guardado até Severo enxergar a possibilidade de mostrá-lo num documentário.
“Apocalipse Segundo Baby” também foi marcado por longa espera. “Começamos em 2008. Naquele tempo não tinha documentário musical com mulheres. Isso me despertou certo incômodo, sobre a ausência desse olhar feminino. Tinha feito um curta sobre o Ney Matogrosso, que me mostrou como o cinema pode dialogar criativamente com a música, como um pode potencializar o outro. E fui em busca de outro artista que despertasse essa inquietação estética e transgressão de comportamento”.
No documentário sobre Baby Consuelo, que integrou os Novos Baianos e formou dupla com o marido Pepeu Gomes, é a própria artista que conta a sua história. Essa opção permitiu que o filme adentrasse pelo tema espiritual, que está presente muito antes de a cantora se tornar evangélica. “Ela sempre colocou a energia espiritual na criação artística”, assinala Rafael Saar.
Para o diretor, Baby é um espírito livre, transgressor e único. “Ela tem em uma coragem absurda de ser, de fazer sempre somente aquilo que acredita, sabe? Ela começou a carreira assim, fugindo de casa, sem saber exatamente o porquê, atendendo a um chamado espiritual que ela teve. No filme percebemos o quanto ela estava aberta a mudar”, reflete.
A transgressão também cimenta a história de Hyldon, em “Dores do Mundo”. Ele é autor da eterna “Na Rua, na Chuva, na Fazenda (Casinha de Sapê)”, lançada em 1975. “Ele optou por ter uma carreira artística mais autoral, com liberdade criativa, mas as gravadoras quiseram moldá-lo, aprisioná-lo num formato que ele não aceitou”, explica Emílio Domingos.
O filme não exime o cantor, visto como uma pessoa de temperamento difícil. “Ele nos deu total liberdade e acho que isso fez ter mais admiração ainda, pelo fato de ter confiado na gente como autor do filme. Ele foi nos fornecendo informações, viu o corte e aprovou, com todas as questões delicadas envolvidas. Hyldon gosta muito do filme. Fica muito emocionado”.
Domingos não tem dúvidas de que Hyldon é um dos maiores nomes da música brasileira. “Ele fez parte da Santíssima Trindade da Soul Music, com Cassiano e Tim Maia. São três figuras que plantaram sementes de muita coisa que a gente tem hoje em dia, para além dessa questão da Black Music. A gente tem que começar a tratá-las como música popular brasileira, porque são artistas populares”, afirma.