Poucos nomes, nenhum interessado: PT revive dor de cabeça histórica na disputa ao governo de Minas
Fonte: otempo.com.br | Data: 24/06/2026 13:49:04
Nesta quarta-feira (24/6), uma cúpula do PT em Minas Gerais definiu, em Brasília, durante encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que o partido terá uma candidatura própria ao governo estadual. A alternativa é a preferida entre os principais quadros da legenda no estado, embora ainda permaneça no radar, nos bastidores, possíveis composições com outros nomes, como Gabriel Azevedo (MDB) e Jarbas Soares Júnior (PSB).
No debate de uma candidatura própria, em um primeiro momento, reuniões do PT chegaram a elencar os nomes dos deputados federais Reginaldo Lopes e Rogério Correia, das deputadas estaduais Beatriz Cerqueira e Macaé Evaristo, da ex-prefeita de Contagem Marília Campos e da ex-reitora da UFMG, Sandra Regina Goulart, como opções ao governo de Minas. Outra hipótese cogitada anteriormente foi a prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão (PT). Todavia, o aprofundamento das conversas e resultados de pesquisas, porém, a lista foi reduzida a Marília Campos, Reginaldo Lopes e Rogério Correia.
Em Minas, sem Rodrigo Pacheco, alas do PT desejam uma candidatura de Marília Campos, hipótese descartada por ela – Alex de Jesus/ O TEMPO
O trio, porém, tem outros planos eleitorais. Marília tem rechaçado qualquer possibilidade de abandonar a pré-candidatura ao Senado para concorrer ao governo do estado. Ela porém será pressionada a recalcular a rota e entrar na briga pelo governo. Reginaldo e Rogério, que caminham em campos opostos no partido, têm pré-candidaturas lançadas para a reeleição na Câmara dos Deputados e também têm demonstrado pouca disponibilidade em fazer uma mudança de rota.
“A gente tem nome. O problema é que as pessoas às vezes não querem ir para disputa majoritária, né? A gente tem nome na bancada de deputado federal, de deputado estadual também. Temos nomes importantes que contribuem com o Brasil, mas são pessoas que também a gente respeita que não querem vir para disputa majoritária. O estado vai ser um desafio para os próximos gestores, nós estamos falando de um estado onde o governador vai entregar ele com uma dívida três vezes maior do que recebeu. Então, não é só vir disputar. É disputar com a coragem e a vontade de fazer as mudanças”, disse a deputada estadual e presidente do PT em Minas, Leninha, durante entrevista ao Café com Política há um mês.
Problema histórico
A indefinição neste ano se dá na esteira de um histórico em que o PT atua como coadjuvante nas disputas pelo Executivo mineiro, mesmo com o estado garantindo vitórias a Lula em 2002, 2006 e 2022 e à ex-presidente Dilma Rousseff em 2010 e 2014. A legenda só chegou ao poder em Minas uma vez desde a fundação da sigla em 1980. O ex-governador Fernando Pimentel foi o responsável pelo feito, em 2014, beneficiando-se do capital político obtido após duas gestões bem-sucedidas à frente da prefeitura de Belo Horizonte. Ele, porém, deixou o Palácio Tiradentes ofuscado e sem conseguir a reeleição em 2018, quando Zema chegou ao poder.
O insucesso petista em Minas se deu depois de uma gestão marcada por insatisfação de servidores e municípios com Pimentel, em função dos atrasos nos pagamentos de salários e repasses às prefeituras. O desempenho ruim na única vez que o PT comandou o governo também se deu em meio ao crescimento da direita no país, com o impeachment de Dilma Rousseff e a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Mas, apesar do cenário negativo nos últimos anos, no estado o PT sempre acompanhou, desde sua fundação, a predominância do PSDB e do antigo PMDB — hoje apenas MDB — no comando do governo.
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As duas siglas governaram o estado desde 1982 em quatro oportunidades cada uma, com Tancredo Neves, Hélio Garcia, Newton Cardoso, Eduardo Azeredo, Itamar Franco, Aécio Neves e Antônio Anastasia. Desde 1982, primeira eleição disputada com o PT representado, o partido abriu mão de ter candidatos próprios em duas ocasiões: em 2010, quando se uniu ao PMDB para apoiar o ex-senador Hélio Costa, e em 2022, quando apoiou o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT), à época filiado ao PSD. Já quando teve candidato próprio, o partido terminou em 2º lugar em 1982, com a ex-deputada e uma das fundadoras do partido, Sandra Starling; em 4º lugar nos pleitos de 1986, 1990 e 1994, quando lançou Fernando Cabral, Virgílio Guimarães e Antônio Pereira; na 3ª posição, com o ex-prefeito de Belo Horizonte Patrus Ananias, em 1998; e em 2º lugar em 2002 e 2006, quando os petistas lançaram o ex-ministro Nilmário Miranda, que, à época, foi derrotado pelo ex-governador Aécio Neves.
O desempenho ruim nas eleições ao Executivo estadual contrasta com um cenário mais positivo ao longo da história em prefeituras importantes. O PT governou BH com Patrus Ananias (1993-1996), Célio de Castro (2001) e Fernando Pimentel (2001-2009). Além de BH, o partido também comandou Contagem, terceira maior cidade do estado, com a agora pré-candidata ao Senado, Marília Campos, em quatro mandatos: 2004-2008, 2008-2012, 2021-2024 e 2025-2028.
Apesar do bom desempenho em BH e Contagem, desde 2008, o PT viu despencar em quase 70% o número de cidades que governa no estado, saindo de 109 prefeituras sob o comando da sigla para 35 em 2024.
Autocrítica
O problema é reconhecido pela presidente do PT em Minas, a deputada estadual Leninha. Em entrevista ao Café com Política, a parlamentar já havia citado a necessidade de construir um caminho para vitórias no Executivo estadual. Ela lembrou que o insucesso no estado passa pelo desempenho aquém do esperado, nos últimos anos, nas eleições à prefeitura de Belo Horizonte. Desde 2012, com a saída de Pimentel, o partido não retornou ao comando da capital.
“Tem a ver, inclusive, com nossa performance em Belo Horizonte, que a capital é muito importante. Você lembrou dos governos, mas, se a gente olhar, as disputas municipais também não tiveram os resultados que a gente gostaria. É lógico que foi toda uma confluência de forças e movimentações que fizeram os resultados que a gente tem em BH. Então, o desafio nosso é de como a gente retoma as bases. Como a gente faz no processo de formação e mobilização em tempos de batalhas digitais, em tempos de fake news, como é que a gente dribla tudo isso. Inclusive nós estamos falando de uma estrutura das igrejas, dos conservadores nas igrejas, não só as pentecostais, mas na Igreja Católica também”, disse a deputada.
Ainda conforme a deputada, há uma série de fatores que dificultam a construção de uma vitória eleitoral. “O PT faz uma autoavaliação de que é preciso retomar um caminho. E levando em consideração toda essa questão da inteligência artificial, da tecnologia, de como é que a gente tem outros modos operantes de mobilizar a militância, as lideranças, e a gente tem feito esse trabalho para que daqui a pouco a gente não tenha essa situação de ficar com dificuldade em indicar um nome”, complementou Leninha.
Um dos nomes mais influentes nos bastidores do PT mineiro, o deputado federal Reginaldo Lopes também disse ser necessária uma mudança na estratégia do partido. Ele disse que o movimento contrário à legenda observado especialmente nos últimos dez anos foi intensificado por uma “falta de enfrentamento político”.
Reginaldo Lopes é um dos deputados mineiros com maior influência no PT em Minas – Flávio Tavares/ O TEMPO
“O Brasil vivia uma operação ideológica contra o nosso partido, que foi a Lava Jato, tinha uma crise econômica em curso e teve o impeachment da presidenta Dilma. E o Fernando Pimentel também não abriu as contas do estado que ele recebeu da gestão dos governos anteriores do PSDB, que tinha acumulado ali várias responsabilidades futuras com a Polícia Militar, com a segurança, e tinha um endividamento de uma negociação que foi mal construída da dívida pública do estado desde o governo Eduardo Azeredo. Essa tempestade perfeita e a falta de política de enfrentamento do próprio governo Pimentel levou o partido a esta situação”, observou.
“O PT precisa fazer uma disputa eleitoral novamente e eu tenho convicção de que nós estamos preparados para discutir com a sociedade e, evidentemente, apresentar novas soluções”, acrescentou Lopes.
‘A prioridade é o palanque de Lula’
À reportagem de O TEMPO, o deputado federal Rogério Correia confirmou uma prioridade em Minas na formação de um palanque capaz de fortalecer a campanha à reeleição do presidente Lula, fator que envolve a formação de uma rede de alianças. “Há uma prioridade na eleição presidencial, e o partido busca uma aliança que seja a mais ampla possível para disputar o governo de Minas e ampliar a votação do presidente Lula. Foi exatamente por causa dessa estratégia que o próprio presidente lançou o Pacheco há bastante tempo e que tinha a concordância do diretório. Com isso, não fizemos um plano B”, observou ele, que disse ver o partido com grandes chances de construir uma candidatura capaz de levar a eleição em Minas para o segundo turno.
“As pesquisas que temos feito mostram que um candidato apoiado por Lula tem grandes chances de ir para o segundo turno, a perspectiva é grande. O principal agora é conseguir uma unidade em torno de uma candidatura que represente o presidente Lula aqui”, complementou. Questionado sobre uma eventual entrada na disputa pelo governo, o deputado, que é vice-líder do governo federal na Câmara, demonstrou pouca disposição.
“Eu sou candidato à reeleição e me preparei para isso, não é tão fácil fazer essa alteração agora, mas entendo que não é só a gente. A prioridade é a candidatura do presidente Lula, mas neste momento eu mantenho minha pré-candidatura a deputado federal”, ponderou. Correia ainda atribuiu as dificuldades do partido em construir uma candidatura ao desgaste dos últimos anos.
“O PT sempre teve administrações em BH e Contagem que foram bem avaliadas e exemplos nacionais. O governo Pimentel foi um momento ruim de Minas Gerais e do Brasil, com o impeachment da presidenta Dilma e perseguição do governo Michel Temer a Minas Gerais, que, desde que ele assumiu, teve uma posição muito dura com o estado na cobrança da dívida”, analisou.
Reginaldo Lopes, por sua vez, reforçou a tese de prioridade aos desejos eleitorais do Palácio do Planalto. “Nós temos essa priorização do projeto nacional, até porque a solução de Minas também passa por um bom diálogo com a União”, afirmou ele, que defende candidatura própria, mas que seja acompanhada por uma aliança robusta. “Mas precisamos ter um próximo governador com essa responsabilidade de realmente recuperar o estado de Minas Gerais e potencializar para novas riquezas porque tem muitas vocações econômicas. O estado é uma máquina, é uma potência. O mini Brasil que é o estado de Minas Gerais é uma potência para ser desenvolvido e nós não podemos perder essa oportunidade”, frisou.
Aposta para redes, vereador pede renovação
Tido como uma das apostas do PT para atuar nas redes sociais, o vereador de Belo Horizonte Pedro Rousseff, um dos vice-presidentes da legenda no estado, diz ser necessário que o PT faça uma transição geracional. “Temos companheiros históricos que ajudaram a construir o partido, mas a política mudou especialmente com as redes sociais. As pessoas precisam de cara nova, e a direita se renova com facilidade e na rapidez que o PT não tem conseguido apresentar novos nomes. A sociedade começou a ver o PT como o sistema”, avaliou.
Segundo Rousseff, a renovação não é um caminho fácil, mas que precisa ser feito. “Só assim teremos nomes competitivos para os próximos 10, 15, 20 anos para ocupar espaços de poder. O Lula será reeleito neste ano e cumprirá os próximos quatro anos de mandato, mas quais nomes o PT construiu ou está construindo para sucedê-lo?”, questionou o vereador, que defende uma posição mais firme do partido na pauta da segurança pública.
“Precisamos estar onde as pessoas estão, dentro das comunidades, do agro, das indústrias, das empresas, somos um partido que defende os trabalhadores brasileiros. E não só nestes setores, mas precisamos de um debate sério e muito firme na segurança pública. Não podemos passar a mão na cabeça da bandidagem, não podemos mais ser acusados de que o PT e o Lula defendem bandido. Bandido bom é bandido preso”, complementou.