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Cocaína, agrotóxicos e microplásticos: expedição revela contaminação no Rio Tietê

Fonte: tribunadosertao.com.br | Data: 24/06/2026 20:27:00

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Um grupo de cientistas e ambientalistas percorreu o Rio Tietê em 2025 para coletar amostras de água e avaliar diferentes tipos de poluição no principal rio do estado de São Paulo.

Os resultados da Expedição Tietê, divulgados nesta quarta-feira, 24, apontam não apenas a presença de poluição, mas várias camadas simultâneas de contaminação por compostos que vão de microplásticos a medicamentos e drogas ilícitas, como a cocaína.

Segundo a ONG SOS Mata Atlântica, a análise é inédita pela abrangência dos parâmetros avaliados e pela escala do levantamento. O estudo identificou poluentes que ainda não têm monitoramento obrigatório por lei, como resíduos farmacológicos, associados a efeitos tóxicos e impactos ecológicos.

Em nota, a Secretaria de Meio Ambiente do Estado afirma que a carga de poluição no rio recuou 21% nos últimos dois anos, após ações de saneamento, drenagem e outras iniciativas. A pasta também destaca a complexidade da bacia, marcada por intensa atividade industrial, agrícola e urbana.

A presença das substâncias indica forte influência do esgoto não tratado no rio, além de outras atividades humanas, como o uso intensivo de insumos agrícolas e o descarte inadequado de lixo.

“Qualquer descuido em qualquer lugar, o rio vai nos contar. O rio não mente, conta o que a gente tem feito com ele”, afirma Gustavo Veronesi, coordenador da causa Água Limpa da Fundação SOS Mata Atlântica.

Segundo Veronesi, um dos achados que surpreenderam os pesquisadores foi a presença de resquícios de contaminantes até mesmo na nascente do rio, em Salesópolis, onde a água é mais limpa e passa por uma área protegida de mata, no Parque Nascentes do Tietê.

O que a expedição constatou:

— Nenhum trecho livre de contaminação ao longo do Tietê;

— Microplásticos identificados em todos os pontos analisados, com predominância de fibras;

— 25 tipos de agrotóxicos detectados ao longo do rio;

— 16 substâncias, entre fármacos e drogas ilícitas, encontradas;

— Piora mais intensa da qualidade da água na região metropolitana de São Paulo.

A pesquisa foi desenvolvida pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com uma equipe multidisciplinar de pesquisadores das universidades federais de São Paulo (Unifesp) e do ABC (UFABC), do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP (CENA/USP) e da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS).

As medições foram feitas em 14 pontos do canal principal do rio, da nascente em Salesópolis à foz no Rio Paraná, em Itapura (SP), considerados representativos dos usos e da ocupação do solo em toda a bacia hidrográfica.

Poluentes invisíveis

A expedição mediu os níveis de microplásticos, agrotóxicos, fármacos e drogas ilícitas, além de integrar análises microbiológicas, físico-químicas e biogeoquímicas, como carbono e nitrogênio, indicadores do acúmulo de carga orgânica nos trechos mais impactados. Os resultados também foram disponibilizados pela SOS Mata Atlântica em um painel de dados, com visualização por ponto de análise.

Encontrados em concentrações altas o suficiente para causar efeito tóxico, alguns desses parâmetros não são medidos regularmente pelas bases de monitoramento. Por isso, são chamados pelos pesquisadores de poluentes invisíveis.

Fármacos e drogas ilícitas

A investigação sobre a ocorrência de fármacos e drogas ilícitas, conduzida por pesquisadores da Unifesp — Câmpus Baixada Santista, surpreendeu pelas concentrações encontradas.

A cafeína, detectada em todos os pontos, apresentou concentrações na ordem de parte por milhão, o que indica lançamento de esgoto bruto no rio. Outras substâncias encontradas em alta concentração foram a losartana, medicamento anti-hipertensivo; o acetaminofeno, analgésico e antitérmico; e a valsartana, usada contra insuficiência cardíaca. Todas representam risco para organismos aquáticos.

Segundo o professor Camilo Seabra, do Departamento de Ciências do Mar da Unifesp, essas substâncias causam efeitos tóxicos significativos. “Não provocam mortalidade, mas sim, por exemplo, desregulação hormonal, diminuição da produção, do crescimento e da locomoção de organismos aquáticos. Isso tem impacto ecológico de médio a longo prazo muito significativo”, disse.

A benzoilecgonina, substância produzida pelo organismo ao metabolizar a cocaína, foi quantificada em 10 pontos ao longo do rio, de Mogi das Cruzes até a barragem de Ibitinga.

O ponto localizado em Osasco apresentou as maiores concentrações para todas as substâncias analisadas, principalmente cafeína e losartana. Também registrou a maior concentração de cocaína.

“Se esse rio está funcionando como um grande esgoto a céu aberto, podemos olhar para ele também com uma visão epidemiológica”, afirma Seabra. Em estimativa preliminar, o pesquisador calcula o uso de cocaína por 1,5% a 2% da população, a partir da concentração encontrada no ponto de coleta em Osasco.

A análise detectou ainda contaminação incipiente por cafeína e traços de cocaína, em concentração abaixo do limite de quantificação, até mesmo na nascente do rio. A presença pode estar relacionada ao lançamento de esgoto doméstico ou a atividades recreativas na região.

Agrotóxicos

Pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP realizaram uma análise direcionada à presença de agrotóxicos com uso autorizado no Brasil.

Foram detectados 25 compostos, entre fungicidas, inseticidas e, sobretudo, herbicidas. As maiores concentrações e frequências ocorreram no trecho entre Pirapora do Bom Jesus e Barra Bonita, região de intensa atividade agrícola, principalmente no cultivo de cana-de-açúcar.

Embora em baixas concentrações, alguns agrotóxicos também foram encontrados na nascente do rio.

“Esses resultados mostram que os agrotóxicos conseguem chegar por várias rotas a diferentes partes do meio ambiente, como por meio das chuvas e da lixiviação”, explica a pesquisadora do CENA-USP Nicoli Gomes de Moraes.

Os pesquisadores destacam a presença da atrazina, herbicida proibido na União Europeia desde 2004, mas ainda amplamente usado no Brasil. A substância foi detectada acima dos limites legais em trechos do Tietê, chegando a uma concentração sete vezes maior — 14 mil nanogramas por litro — do que o permitido por lei para a proteção da água doce, que é de dois mil nanogramas por litro.

Microplásticos

Os microplásticos têm sido detectados em diferentes ambientes e organismos da Terra, mas ainda são pouco estudados nos rios brasileiros. Na Expedição Tietê, eles foram encontrados em todos os pontos analisados, em concentrações que variaram de 330 a 23.587 partículas por metro cúbico.

“Ao mesmo tempo que não é uma surpresa, é preocupante”, afirma Ítalo Braga de Castro, professor do Instituto do Mar da Unifesp e responsável pela análise do tema na expedição.

O impacto dos níveis de microplásticos no Tietê foi considerado de moderado a forte pelos cientistas. Na comparação internacional, os índices ficaram abaixo dos registrados em rios asiáticos, mas acima dos observados em cursos d’água europeus.

Essas micropartículas derivam de diversas atividades, como a lavagem de roupas sintéticas, e são altamente móveis. Sua presença na água contamina a cadeia alimentar e ameaça os seres vivos e o ambiente.

Castro destaca que as quantidades são progressivamente mais altas em áreas com maior densidade populacional e urbanização, além de regiões próximas a barragens.

O que diz a análise integrada?

Uma das principais conclusões dos estudos é que as múltiplas camadas de contaminação do Tietê não estão isoladas. Segundo o relatório, microplásticos podem absorver agrotóxicos e fármacos; ambientes eutrofizados favorecem a proliferação bacteriana; a baixa concentração de oxigênio dissolvido altera processos de degradação química; e os reservatórios prolongam o tempo de permanência dos contaminantes no sistema.

O levantamento associa o padrão de degradação do Tietê principalmente à urbanização, ao lançamento de esgotos domésticos e industriais, à intensificação das atividades agropecuárias e à presença de barragens e reservatórios. O relatório destaca ainda que a melhora observada nos níveis de oxigênio dissolvido em determinados trechos não significa a eliminação dos contaminantes presentes no sistema.

Os piores indicadores ambientais coincidem com os trechos mais urbanizados da bacia, especialmente Mogi das Cruzes, Guarulhos, Osasco e Pirapora do Bom Jesus. Nessas áreas, o lançamento de esgoto doméstico sem tratamento é apontado como principal fonte de poluição, com forte correlação entre parâmetros como cafeína, cocaína, bactérias indicadoras de contaminação fecal e carbono orgânico.

Segundo o relatório, há um gradiente espacial definido da poluição conforme as regiões da bacia:

Cabeceira: baixa interferência antrópica, melhor qualidade da água e carga contaminante reduzida;

Região metropolitana de São Paulo: colapso ambiental, eutrofização e múltiplas formas de contaminação;

Médio Tietê: zona de transição, caracterizada pela retenção hidrológica promovida pelos reservatórios e pelo aumento da influência de atividades agrícolas;

Baixo Tietê: melhora parcial de alguns parâmetros de qualidade da água, mas com persistência de contaminantes e efeitos acumulados de toda a bacia hidrográfica;

Foz: presença de compostos como cafeína, carbamazepina, microplásticos e resíduos farmacológicos, evidenciando a persistência e o transporte contínuo de contaminantes ao longo de toda a bacia.

A iniciativa aponta a necessidade de fortalecer políticas de saneamento, controle da poluição, adoção de práticas agropecuárias mais sustentáveis, recuperação florestal e monitoramento contínuo da bacia do Tietê. O rio concentra grande parte da população e da atividade econômica paulista e tem papel fundamental no abastecimento de água, na produção industrial e agropecuária, na geração de energia, na navegação e na conservação da biodiversidade.

Pesquisadores também reforçam a importância de discutir a inclusão desses poluentes invisíveis na legislação e nas redes de monitoramento estadual, para que sejam considerados nas medidas de despoluição do rio.

Programa estadual tem cinco eixos

Em nota, a Secretaria de Meio Ambiente do Estado afirma que o Programa IntegraTietê, lançado em 2023, foi concebido para integrar ações de saneamento, recursos hídricos, meio ambiente, drenagem, logística e governança. Segundo a pasta, a iniciativa tem alcançado resultados expressivos na recuperação do rio e de seus afluentes.

O programa atua em eixos estratégicos:

— universalização do saneamento e melhoria da qualidade das águas;

— controle de cheias por meio de desassoreamento e obras de drenagem;

— limpeza e coleta de lixo superficial;

— recuperação ambiental e valorização das várzeas;

— monitoramento e fiscalização;

— governança integrada, com transparência e atuação coordenada entre os órgãos e municípios da bacia.

A principal frente é a universalização da coleta e do tratamento de esgoto. “Nos últimos dois anos, a carga de poluição transportada pelo Rio Tietê foi reduzida em 21%, passando de 219 para 173 toneladas por dia, uma queda equivalente a 46 toneladas diárias”, informou o governo estadual.