Bets pertencem ao mercado da desgraça alheia, diz Nath Finanças
Fonte: www1.folha.uol.com.br | Data: 25/06/2026 15:20:49
Apostas esportivas fazem parte do mercado da desgraça alheia, defende a empresária e influenciadora Nathália Rodrigues, 27, conhecida como Nath Finanças. Em suas redes sociais, onde acumula quase 960 mil seguidores, ela busca traduzir a linguagem da economia para pessoas comuns e compartilha a história de famílias que perderam tudo para as bets.
“Esse mercado faz o vício. O SUS teve que usar o nosso dinheiro de impostos para ajudar pessoas a saírem disso. Afeta no âmbito da política pública”, afirma.
Para ela, ferramentas como a de bloquear bets no celular por um período determinado transfere a responsabilidade para a pessoa, quando o que deveria estar na mira são as propagandas e a permissão para que as plataformas operem no país.
CEO da edtech Nath Play, voltada à educação financeira, ela gerencia hoje 30 pessoas e defende o fim da escala 6×1. Há um ano, a escala 4×3 foi implementada em sua empresa, após meses de adaptação para atender às necessidades de seu negócio e de seus funcionários. Como resultado, diz ter percebido trabalhadores mais produtivos e com uma qualidade de vida melhor.
“Empresários acham que o lucro exige exploração máxima, mas se você acha que o funcionário deve fazer três, quatro, cinco funções, não deveria ter uma empresa”, afirma. Segundo ela, a pressão popular pode avançar o debate no Senado, e seu papel é democratizar o assunto.
“Nosso país foi o último em muitas coisas, incluindo o fim da escravidão. Precisamos esperar todos fazerem essa mudança para fazermos?”.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida à Folha durante o Web Summit Rio.
Por que se opõe às apostas esportivas e bets?
Eu vi pessoas perderem tudo, devendo tanto a ponto de não quererem viver. Vejo esposas, maridos e familiares passando pelo vício junto com a pessoa, entrando em contato comigo implorando por ajuda. Sei que existe diferença entre apostas esportivas e o jogo do tigrinho, mas ambos são apostas.
O jogo cria um ciclo vicioso. Começa com prêmios para você achar que está ganhando até que começa a perder. As apostas esportivas dependem da probabilidade, mas nada garante que o jogador não seja pago para fazer um gol ou tomar um cartão. As apostas afetam diretamente a população, tanto a de baixa quanto a de alta renda.
Você critica a normalização das apostas esportivas. O que essa normalização gera?
Há um impacto econômico desastroso. O mercado de previsões não deixou aquela bilionária “self-made” da Kalshi famosa porque a empresa dela solucionou um problema. Esse mercado faz o vício. O SUS teve que usar o nosso dinheiro de impostos ajudar pessoas a saírem disso. Afeta no âmbito da política pública. No varejo, a população não consome. Não conseguem se alimentar, porque apostam e não têm dinheiro.
Temos cerca de 70% da população brasileira endividada por conta desse mercado. Fora que esse dinheiro não está no nosso país, foi para fora. Não adianta cobrar imposto, se esse recurso é usado para solucionar o problema criado. O governo pega o imposto, mas tem que gastar esses bilhões de reais em política pública para ajudar essa população.
Criaram uma forma de bloquear as bets no celular por seis ou doze meses, mas isso passa a responsabilidade para a pessoa. A culpa é dela por estar com dívidas ou desse mercado que foi autorizado no país? Eu critico não só quem divulga online, mas a propaganda na TV, nos jogos, na camisa de time. Isso não é positivo para a sociedade.
Como a ética entre o criador de conteúdo, as marcas e o público opera no caso das bets?
Recebi uma proposta de R$ 2 milhões para divulgar bets. O dinheiro circula na agência que faz a intermediação com os criadores de conteúdo. Desde que foi legalizado, não tem essa questão moral. Eu recuso, mas sei que quem está começando precisa desse dinheiro. O Brasil tem milhões de influenciadores. Os com menos seguidores fazem essas publicidades para pagar as contas. É moralmente errado? É. Estão fazendo algo ilegal? Não, porque está autorizado, o presidente sancionou.
Outro assunto de economia que se popularizou é o fim da escala 6×1. Em que medida essa mudança pode afetar a vida do trabalhador?
Sou totalmente a favor do fim da escala 6×1. Na minha empresa a gente implementou a escala 4×3 há um ano. A produtividade das pessoas que trabalham conosco não diminuiu e elas tiveram uma qualidade de vida melhor. Fazemos rodízio na sexta-feira. Alguns ficam segunda, outros terça, quarta, quinta, tem apenas um dia que todos estão simultaneamente.
Como 8 horas de trabalho por dia são necessárias na minha empresa, não tinha como diminuir esse número, mas vimos a possibilidade de dar um dia a mais de folga. As pessoas têm medo de testar, mas se não der certo a gente adapta. Foi aprovada a NR-1 para a gente lembrar que esse funcionário é um ser humano, não uma IA. Tem sentimentos, tem família, fica doente. A vida não é linear.
Alguns setores dizem que a mudança na escala vai quebrar o país, que certos setores não vão funcionar, e que não vão conseguir pagar o número de funcionários. Por que você discorda dessa posição?
Porque sou sócia de outras empresas e sei que dá para adaptar. Quando eles falam que vão quebrar, é porque acham que o lucro exige exploração máxima, mas se você acha que o funcionário deve fazer três, quatro, cinco funções, não deveria ter uma empresa. Quem precisa fazer cinco funções é o empreendedor, porque é o nosso sonho. O funcionário não é sócio, não ganha o mesmo que você.
É para essa perspectiva que o empresário tem que olhar, mas ele pensa apenas no lucro. A padaria não vai parar de trabalhar no sábado e no domingo. Existe escala. Senão o hospital, o corpo de bombeiros e a polícia não funcionavam. Nosso país foi o último em muitas coisas, incluindo o fim da escravidão. Vamos ser os últimos a acabar com as 44 horas semanais e a escala 6×1? Precisamos esperar todos fazerem essa mudança para fazermos?
A PEC foi aprovada na Câmara dos Deputados e o debate segue para o Senado. Como essa discussão vai se desdobrar? Há espaço para retrocesso?
O povo só conseguiu a aprovação na Câmara dos Deputados por pressão, porque ficou muito vergonhoso para o deputado que trabalha na escala 4×3 dizer que as pessoas não querem trabalhar. Chega a ser um escárnio.
Agora o Senado quer esfriar a pauta e fingir que esqueceu, mudar o texto base para não seguir como o povo quer. Se a gente não fizer pressão, falar quem são os deputados que votam contra e mostrar o rostinho deles, eles avançam. Mas com a internet a gente pode popularizar o debate e fazer essa cobrança, porque a população não vai assistir à TV Senado. Elas trabalham, estão no “busão”. Essa é a minha intenção ao trazer esse conteúdo. A pressão popular funciona.
Raio-x | Nathália Rodrigues, 27
Nascida na periferia de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, é administradora, educadora financeira e fundadora e CEO da Nath Finanças, da edtech Nath Play e do Instituto Mulheres no Mercado Financeiro. Fez parte da lista Forbes Under 30 na categoria de finanças em 2020 e foi eleita uma das 500 personalidades mais influentes da América Latina pela Bloomberg Línea em 2021 e 2024. É autora dos livros “Precisa dar certo: Guia para Empreendedores Reais” e “Orçamento Sem Falhas”.