Inovação Aberta e Ecossistema no Setor Elétrico
Fonte: osetoreletrico.com.br | Data: 26/06/2026 17:27:14
A crescente complexidade do setor elétrico, impulsionada pela transformação digital, transição energética e necessidade de maior eficiência operacional, tem levado concessionárias a buscar modelos mais colaborativos de inovação. Nesse contexto, a inovação aberta surge como estratégia capaz de integrar empresas, startups, universidades e Centros de Pesquisa na construção de soluções tecnológicas mais ágeis e eficientes. Entretanto, apesar das oportunidades, o modelo também apresenta desafios relacionados a governança, propriedade intelectual, alinhamento estratégico e aplicabilidade prática dos projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI) regulados pela ANEEL.
As parcerias com startups oferecem vantagens importantes, como rapidez no desenvolvimento, flexibilidade, cultura experimental e domínio de tecnologias emergentes. Já universidades e Centros de Pesquisa contribuem com conhecimento científico, infraestrutura laboratorial e capacidade técnica especializada. Quando bem estruturadas, essas parcerias permitem integrações de diferentes visões podendo acelerar o processo de inovação e desenvolver soluções customizadas.
Por outro lado, existem riscos relevantes nos 2 lados que devem gerar atenção. Muitas startups ainda possuem baixa maturidade operacional e fragilidade financeira, o que pode comprometer entregas e continuidade dos projetos. Já nas universidades, há frequentemente maior foco em produção acadêmica e publicações científicas do que em soluções aplicáveis ao negócio. Esse desalinhamento entre objetivos empresariais e acadêmicos pode resultar em projetos pouco aderentes à realidade operacional das concessionárias.
Para reduzir esses riscos e tornar essas parcerias viáveis, é fundamental estabelecer uma governança clara, com definição de papéis, metas, indicadores, cronogramas e critérios de aceitação de entregas do projeto por cada um dos parceiros envolvidos. A realização de provas de conceito (PoCs), contratos comerciais vinculados a entregas ao final do projeto e participação ativa das áreas operacionais também aumentam a efetividade dos resultados dos projetos.
Nesse cenário, o papel dos Centros de Pesquisa também vem evoluindo. Tradicionalmente vistos apenas como executores técnicos responsáveis por pesquisas, essas instituições passaram a atuar cada vez mais como indutoras da inovação, fortalecendo integrações importantes com o Setor Fabril que também faz parte desse contexto.
Além das startups, universidades e Centros de Pesquisa, o setor fabril e os agentes metrológicos exercem papel estratégico nesse ecossistema de inovação aberta do setor elétrico. Enquanto o setor fabril contribui para transformar pesquisas e protótipos em produtos escaláveis, industrializáveis e aptos para aplicação em larga escala, os organismos de metrologia, ensaios e certificação garantem conformidade técnica, segurança, confiabilidade e aderência regulatória das soluções desenvolvidas. Essa integração é fundamental para reduzir a distância entre pesquisa e mercado, aumentar a maturidade tecnológica dos projetos de PDI e viabilizar a inserção efetiva de novos produtos e tecnologias no ambiente operacional das concessionárias.
Entretanto, essa atuação ampla e colaborativa, amplia os desafios relacionados à propriedade intelectual. Nos projetos de PDI ANEEL, é comum surgirem conflitos sobre titularidade de tecnologias, exploração comercial, publicação científica e divisão de receitas futuras. Muitas vezes, os projetos são iniciados sem regras claras sobre patentes, licenciamento e compartilhamento de resultados.
Além disso, existe dificuldade em mensurar a contrapartida efetiva de cada parceiro, especialmente em projetos colaborativos com múltiplos atores e a definição de uma regra clara nesse tópico, é fator importante para o estabelecimento de parcerias e fortalecimento desse ecossistema de inovação. Para mitigar esses problemas, é essencial também, definir previamente a estratégia de propriedade intelectual, estabelecendo regras de titularidade e licenciamento.
A adoção de metodologias ágeis, MVPs, sprints e validações contínuas, contribuem para aumentar a aderência das soluções, num ambiente de incerteza da melhor solução onde as técnicas preditivas de projetos, perdem espaço para essas técnicas adaptativas.
Conclui-se que a inovação aberta representa uma oportunidade estratégica para o setor elétrico, mas seu sucesso depende de governança eficiente, alinhamento entre os parceiros, gestão adequada da propriedade intelectual e foco em resultados práticos. O desafio não é apenas produzir conhecimento, mas transformar inovação em valor operacional, competitividade e benefícios concretos para a sociedade.
Sobre o autor:
Tenorio Barreto é Mestre pela PUC-Rio em Metrologia, Inovação e Qualidade, Engenheiro Eletricista. É Sócio-Diretor da B&S Consultoria em Projetos.