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Do céu à tragédia: seis vidas perdidas e o verdadeiro risco da aviação irregular no Brasil

Fonte: noticias.r7.com | Data: 27/06/2026 03:09:17

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Acidente entre helicópteros no Rio: voo irregular TV Record RJ

Eu quero começar com uma pergunta simples, mas profundamente desconfortável: o que você diria para uma mãe que acabou de perder um filho e descobre que o voo era irregular?

Porque esse é o ponto. Não estamos falando de teoria. Não estamos falando de legislação. Estamos falando de pessoas.

No acidente entre dois helicópteros, no último dia 14, no Rio de Janeiro, seis vidas foram perdidas. Seis histórias interrompidas. Seis famílias que, naquele momento, não querem saber de ANAC, de TACA ou de cláusula de seguro.

Elas querem uma única coisa: respostas, presença, humanidade. Mas é exatamente aqui que o sistema falha.

Porque, quando surge a palavra “irregular”, o comportamento muda. As empresas recuam. Os operadores desaparecem. O jurídico entra em cena. E, de repente, aquela família, que já perdeu tudo, perde também o apoio.

Sandra Assali, presidente da ABRAPAVAA Arquivo pessoal

E eu pergunto a vocês: em que momento a irregularidade do voo passa a justificar a assistência às famílias? Porque essa é a distorção que precisamos enfrentar. A irregularidade é um problema jurídico. Mas o sofrimento é uma responsabilidade humana. E essa não pode ser negada. Não pode esperar o laudo final.

Agora imaginem essa cena: uma família sendo informada, de forma fria, que talvez não haja indenização. Que o voo não era autorizado. Que há dúvidas. Que há investigações. Sem acolhimento. Sem suporte.

Isso não é gestão de crise. Isso é amplificar o trauma.

Gestão de crise de verdade começa diferente. Começa com alguém olhando nos olhos e dizendo: “Eu estou aqui. Nós vamos passar por isso juntos.” E isso antes de qualquer explicação técnica. Antes de qualquer defesa institucional.

Porque, no fim, não é sobre o helicóptero. Não é sobre o contrato. Não é sobre a apólice. É sobre confiança. E confiança… se constrói ou se perde para sempre.

E aqui está o ponto mais duro: Mesmo que o voo seja irregular, mesmo que o seguro não cubra, mesmo que haja falha humana, todos são vítimas: os que se foram e os que ficaram.

Esse trágico acidente do último dia 14 chocou a todos. Nos traz um debate urgente e recorrente: o transporte clandestino (TACA), irregular de passageiros, e o momento preocupante que a segurança de voo enfrenta no Brasil atualmente.

A ABRAPAVAA traz uma visão preocupante com o número de acidentes aéreos no Brasil, as deficiências e necessidades urgentes. Nossa posição está consolidada diante do momento atual e preocupante e se fundamenta.

Necessidade do combate à impunidade e cobrança por fiscalização

A ABRAPAVAA entende que a proliferação do taxi aéreo clandestino ocorre devido a uma fiscalização “reativa” e não “proativa” por parte da Anac. Para a ABRAPAVAA, permitir que aeronaves denunciadas continuem voando livremente até que uma tragédia aconteça é uma falha inaceitável.

Como exemplo, em referência ao acidente em questão. A aeronave PP-MAC, envolvida na colisão, foi autuada em 2025 durante operação contra o transporte aéreo clandestino.

A empresa proprietária da aeronave, Turfik Comércio de Frutas, e seu proprietário, Oswaldo de Luca Junior, foram multados em R$ 8 mil e incluídos na lista de monitoramento da unidade de fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC).

Conforme a ANAC, a aeronave PP-MAC foi autuada por recusa de informações à agência durante a “Operação Voe Seguro realizada nos aeródromos do Estado do Rio de Janeiro, em 2025 e 2026. Nessas fiscalizações, a aeronave não foi encontrada. Embora estivesse em situação de voo regular, a PP-MAC não tinha autorização para operar como táxi aéreo, segundo o UOL.

Segundo as últimas informações, o voo que resultou no acidente não era TACA pois os passageiros “eram convidados”. Ok! Falta esclarecer: “convidados de quem?”. Do Sr. Oswaldo, proprietário? Se sim, uma vez autuado pela ANAC, deveria estar impedido de voar, certo? Ou errado? Errado! Pois ele pode continuar voando apesar da autuação. Absurdo!!!

Já, a aeronave de matrícula PR-DJJ é um Eurocopter AS350 B2 (popularmente conhecido como Esquilo), e as investigações apontam sérias irregularidades no arranjo com o município.

Segundo a Folha de S.Paulo, o helicóptero PR-DJJ é objeto de um modelo de prestação de serviço com a prefeitura carioca considerado irregular pela ANAC. Informações obtidas pela Folha mostram que, embora estivesse registrada para uso privado, a aeronave fazia parte de acordo com a prefeitura do Rio, que previa um tipo de permuta, com a oferta periódica de horas de voo ao município, em troca do direito de utilizar o heliponto da Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul da cidade.

O termo de compromisso foi assinado em abril de 2025 com o Centro de Operações e Resiliência da Prefeitura. O proprietário disponibilizava uma hora de voo ao município a cada 24 pousos realizados no heliponto da Lagoa Rodrigo de Freitas ou a cada 60 dias.

Desconhecimento do órgão: A ANAC declarou publicamente que desconhecia esse modelo de parceria. O órgão descobriu a prática após o acidente e abriu uma auditoria para analisar contratos similares mantidos pela gestão municipal com outros operadores.

O voo específico que resultou no acidente não estava prestando serviços para a prefeitura naquele momento.

ABRAPAVAA entende a necessidade de um maior rigor nos protocolos de manutenção e treinamento

Diante do alto número de acidentes, a ABRAPAVAA reforça a importância e a revisão na concessão de licenças para oficinas de manutenção e defende punições criminais severas para proprietários e operadores que negligenciam relatórios técnicos de aeronavegabilidade, uma vez que, aeronaves de táxi-aéreo regularizadas seguem um plano rígido de manutenção porém, as de TACA frequentemente negligenciam esse controle.

Necessidade de humanização no gerenciamento de crises

O papel central da ABRAPAVAA em Congressos e Fóruns nacionais é cobrar que governos e seguradoras parem de tratar tragédias sob uma ótica puramente burocrática ou financeira.

Entendemos urgente e necessário, que exista assistência às vítimas e seus familiares, com acolhimento psicológico imediato, transparência nas investigações e agilidade nos processos indenizatórios para os familiares que enfrentam perdas.

O acidente no Rio de Janeiro reacende o que entende como urgente para as autoridades reguladoras: sem uma punição exemplar para os contratos clandestinos e uma fiscalização implacável sobre o espaço aéreo urbano, os recordes de acidentes continuarão cada vez mais altos, resultando em perdas de vidas e levando inúmeras famílias ao sofrimento intenso do que poderia ser evitado.

Fazer um voo, mesmo que “de convidados” em situações de risco e fora de conformidade, nos faz refletir sobre “a importância e comportamento daqueles que devem responder” por todo e qualquer risco.

E os familiares das vítimas desse terrível acidente?

Quem responde? Terão assistência integral? O dono dessa aeronave está em contato e presente com os familiares das vítimas? Os procedimentos necessários, a Identificação das vítimas, os velórios, os atendimentos psicológicos, os cuidados e entrega dos pertences dessas vítimas para as famílias, os seguros, os próximos encaminhamentos quanto as investigações (CENIPA e criminal)?

Importante observar que… caso ocorra um acidente durante um voo de TACA comercial, as seguradoras não pagam indenizações aos passageiros, já que o uso da aeronave violou os termos do certificado de registro.

A ABRAPAVAA se solidariza com os familiares das 6 vítimas desse trágico acidente. Nossas condolências!

*Sandra Assali é presidente da ABRAPAVAA – Associação Brasileira de Parentes e Amigos de Vitimas de Acidentes Aéreos

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.