Esporotricose acende alerta em Curitiba com milhares de casos no Paraná — Portal da Câmara Municipal de Curitiba
Fonte: curitiba.pr.leg.br | Data: 27/06/2026 11:42:45
A esporotricose já provoca milhares de casos em gatos e seres humanos no Paraná, mas ainda é desconhecida por grande parte da população. Transmitida principalmente pelo contato com animais infectados, a doença fúngica pode causar feridas graves na pele, atingir pessoas em situação de maior vulnerabilidade e se espalhar quando não há diagnóstico, tratamento e isolamento adequados. O alerta foi feito nesta sexta-feira (27), na Câmara Municipal de Curitiba (CMC), durante palestra de conscientização organizada pelo mandato da vereadora Giorgia Prates – Mandata Preta (PT), dentro da programação do Câmara Aberta.
Na palestra, especialistas em saúde humana, saúde animal, epidemiologia e micologia defenderam que o avanço da doença seja enfrentado com informação, atendimento integrado, guarda responsável e políticas públicas.
O Câmara Aberta é um programa da CMC que abre as portas da instituição em dias alternativos ao expediente tradicional, com foco em atendimento ao público, escuta cidadã e valorização dos espaços públicos como locais de convivência e participação popular. Na edição deste sábado, a esporotricose foi tratada como um problema de saúde pública que exige ação conjunta entre tutores, profissionais de saúde, médicos-veterinários, poder público, universidades e sociedade civil.
Segundo a vereadora Giorgia Prates, a palestra é importante porque a doença ainda é pouco conhecida pela população. “Essa é uma doença que quase ninguém conhece. Geralmente, quando o tutor ou alguém vê um bichinho com esporotricose, acha que foi o cachorro que mordeu, que foi atropelado, enfim, e nunca associa a uma doença que é extremamente perigosa tanto para o animal quanto também para os humanos”, afirmou. A parlamentar também destacou que seu mandato tem atuado para fortalecer a rede de atendimento veterinário em Curitiba, com destinação de emendas para viabilizar atendimentos na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Especialistas apontam surto e milhares de notificações no Paraná
A farmacêutica bioquímica Regielly Cogniali, responsável pelo laboratório de micologia do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR), afirmou que o Paraná vive um surto de esporotricose. Segundo ela, a expansão dos casos é observada desde 2019, tanto em animais quanto em humanos. “A gente tem observado no Hospital de Clínicas que a esporotricose, de 2019 em diante, teve uma expansão do número de casos e, de fato, hoje a gente vive um surto da doença”, disse.
Regielly explicou que o HC-UFPR, pioneiro no diagnóstico e tratamento da doença, passou a atender prioritariamente os casos humanos mais complexos, como gestantes, pacientes diabéticos e pessoas vivendo com HIV. “Antigamente, a gente recebia todos os casos de esporotricose no hospital e, devido a esse aumento do número de casos, a gente teve que descentralizar, porque hoje a gente só atende os casos complexos no hospital”, relatou.
De acordo com a especialista, os números notificados indicam a gravidade do quadro. “São milhares de casos anualmente. No estado do Paraná, em torno de cinco mil casos felinos, em torno de mil casos humanos. E isso são os casos notificados, fora o que é subnotificado”, afirmou. Para ela, a educação da população é o primeiro passo para reduzir o avanço da doença, acompanhada da guarda responsável dos gatos e da castração em massa.
A médica-veterinária Luciana Abrahão Pires, professora da Universidade Federal do Paraná e da UniBrasil, também apontou o crescimento da esporotricose no país. Segundo ela, os casos deixaram de estar concentrados em focos regionais e passaram a ser registrados em todos os estados brasileiros. “A gente viu uma mudança abrupta no número de casos. A gente teve o aparecimento do que podemos dizer de surto já há praticamente sete anos, com o aumento da propagação em todo o país”, afirmou.
Feridas em gatos e humanos exigem atenção e diagnóstico precoce
A esporotricose é causada por fungos do gênero Sporothrix. A apresentação utilizada na palestra explicou que a doença pode ter transmissão ambiental, pelo contato com solo, madeira, palha, espinhos ou matéria orgânica em decomposição, mas que a rota zoonótica, envolvendo principalmente gatos, tem papel central na epidemia atual. No Brasil, a espécie Sporothrix brasiliensis aparece associada à expansão dos casos, especialmente em gatos.
Luciana explicou que, nos animais, a doença costuma aparecer como lesões na face e nas patas, muitas vezes associadas a brigas, arranhaduras e mordeduras. “A gente tem a manifestação de lesões ulceradas, que até causam deformidades nos animais e nos seres humanos também. São feridas que começam como um nódulo pequeno e depois aumentam para um quadro ulcerado”, disse.
A professora alertou que pessoas podem ser contaminadas ao manipular animais doentes, principalmente quando há contato com feridas, arranhões, mordidas ou secreções. “Às vezes, na própria manipulação para tratar esses animais, as pessoas acabam se expondo”, explicou. Ela também relatou que o fungo pode estar presente nas vias aéreas dos animais doentes, o que aumenta o risco de lesões em regiões como olhos, boca e rosto, especialmente em crianças.
A vereadora Giorgia Prates citou um exemplo apresentado por especialistas para demonstrar a dificuldade de reconhecimento da doença também na área humana. “Elas me mostraram o caso de uma moça que estava quase perdendo a visão, porque estava tratando do bichinho sem saber como cuidar, e acabou espirrando dentro do olho dela. Ela passou por vários oftalmologistas; só quando chegou no HC foram identificar que era esporotricose”, relatou.
Curitiba tem fluxo de atendimento para humanos e animais
O diretor do Centro de Epidemiologia da Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba, Alcides Oliveira, classificou a esporotricose como um problema de saúde pública e defendeu políticas voltadas tanto para animais quanto para seres humanos. “A esporotricose hoje se espalhou por quase todos os estados brasileiros. Por isso, ela se tornou um problema de saúde pública. Nós necessitamos de uma política pública voltada não só para os casos animais, principalmente os gatos, mas também para os seres humanos”, afirmou.
Segundo Alcides, a doença pode causar lesões na pele e exige tratamento específico. Ele disse que a rede assistencial está preparada para o diagnóstico e o tratamento dos casos humanos, mas ressaltou a importância de um olhar integrado para a saúde animal. “A Prefeitura tem um fluxo de atendimento, tanto para os humanos quanto para os animais, para que possa acolher as pessoas adoecidas e recuperar seu estado de saúde”, explicou.
O representante da Secretaria de Saúde alertou que a detecção precoce é essencial, principalmente para pessoas em situação de maior vulnerabilidade. “Nós sabemos que pessoas com maior vulnerabilidade, quando adquirem a esporotricose, podem ter a doença de uma forma disseminada, com maior gravidade. Por isso, a importância de fazer a detecção precoce da doença e iniciar o tratamento o mais rapidamente possível”, afirmou.
Guarda responsável é forma de proteção animal e humana
O presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Paraná (CRMV-PR), Adolfo Sasaki, reforçou que o combate à esporotricose depende da atuação dos médicos-veterinários, mas também da responsabilidade dos tutores. “O médico-veterinário é essencial nesse trabalho, pois é ele que vai diagnosticar, tratar e também dar informações para os responsáveis, para a Prefeitura e para o governo, para que realmente se faça política pública”, disse.
Sasaki afirmou que a prevenção começa pela guarda responsável, especialmente no caso dos gatos. “O conselho é, primeiramente, visitar o médico-veterinário. O que a gente bate hoje é a posse responsável. Seja responsável. Você quer ter um animal, um gato, um cachorro, tem que entender os seus deveres com relação a esse animal”, orientou.
Entre as medidas citadas pelo presidente do CRMV-PR estão manter os gatos dentro de casa, oferecer vacinação, acompanhamento veterinário e enriquecimento ambiental. “Se a gente gosta do gato, a gente tem que mantê-lo dentro de casa, com vacinação, visita ao médico-veterinário e cuidado, e também com enriquecimento ambiental. Não adianta só deixar dentro de casa. Você tem que proporcionar para esse gato um ambiente sadio, com brinquedos, com diversão”, afirmou.
A orientação foi reforçada por Regielly Cogniali, que apontou o acesso dos gatos à rua como um dos fatores que favorecem a transmissão. “Animais tutoriados precisam ficar dentro de casa. Isso reduz a chance de eles contraírem a doença fora. Castração em massa também nos ajuda a controlar a doença, principalmente a controlar essa população de felinos”, completou.
Saúde Única: doença conecta pessoas, animais e meio ambiente
A palestra também abordou a esporotricose pelo conceito de Saúde Única, que integra saúde humana, saúde animal e meio ambiente. A apresentação destacou fatores como perda de biodiversidade, desmatamento, mudanças climáticas, determinantes sociais e resistência como elementos relacionados à disseminação da doença. Também foram apresentados dados de uma ação comunitária com 155 pessoas, na qual apenas 31% dos entrevistados conheciam a esporotricose, apesar de 76,6% serem responsáveis por cães ou gatos.
Para Luciana Abrahão Pires, abrir espaços de debate e educação é fundamental para enfrentar o avanço da doença. “A gente tem que trabalhar na divulgação. Quanto mais faz, mais casos aparecem, porque a conscientização vai aumentando. Então, a gente tem que trabalhar com educação. Eu tenho trabalhado com educação ambiental em escolas para disseminar essa informação já com os menores. Acredito que a educação é um dos pilares importantes”, afirmou.
Giorgia Prates também defendeu campanhas de comunicação voltadas à população, aos tutores, às cuidadoras de animais e aos profissionais de saúde. Segundo ela, muitas famílias abandonam animais por não compreenderem a doença, o que agrava o problema. “A gente tem feito esse trabalho extensivo para poder fazer campanhas de comunicação, de informação, mas principalmente de cuidado com os animais”, disse.
Ao final, os especialistas reforçaram que a esporotricose tem tratamento, mas exige diagnóstico, isolamento adequado do animal doente, medicação correta e acompanhamento profissional. A recomendação à população é procurar atendimento veterinário ao notar feridas persistentes em gatos, especialmente no rosto e nas patas, e buscar a rede de saúde em caso de lesões na pele após contato com animal suspeito.