Voluntários reclamam de filas para acesso a área mais afetada por terremoto na Venezuela
Fonte: operamundi.uol.com.br | Data: 27/06/2026 13:46:41
A presidenta interina Delcy Rodríguez determinou que voluntários envolvidos com os resgates às vítimas do terremoto na Venezuela realizem um cadastro no Centro Poliedro, em Caracas, para obter autorização para realizar o trabalho.
A decisão, comunicada na madrugada desta sexta-feira (26/06), tem o objetivo de “evitar que o congestionamento do trânsito prejudique as operações de resgate”, segundo o texto publicado no site do Ministério das Comunicações da Venezuela.
Em entrevista à reportagem de Opera Mundi, a advogada Alesia Santacroce, que tem atuado como voluntária desde quinta-feira (25/06), explica que o processo está dificultando a vida daqueles que querem ajudar e que estão angustiados em busca de notícias dos parentes.
“O local está cheio de gente. Há uma fila enorme. O processo não precisa ser presencial, o governo poderia ser online. A gente não tem que ir pessoalmente para lá, não há gasolina”, queixa-se Alesia.
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A espera em longas filas leva angústia aos familiares e moradores da cidade, que travam uma batalha contra o tempo, que quanto mais passa, pode reduzir as chances de encontrar sobreviventes, assim como provocar a decomposição dos corpos.
Alesia perdeu o sobrinho, um piloto de uma empresa comercial de aviação da Venezuela, que morreu soterrado na última quarta-feira (24/06), em La Guaira, a cerca de 27 km de Caracas, área mais afetada pelos dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 que atingiram o país naquele dia.
A advogada conta que o corpo do jovem, primo do seu esposo, foi encontrado 24 horas depois, com ajuda de voluntários e vizinhos do prédio. “Não havia bombeiros, profissionais, especialistas, só voluntários e familiares”, recorda.
Segundo balanço mais recente do governo, divulgado no portal do Ministério da Informação e Comunicação, o número de mortos aumentou para 920 e o de feridos e já supera os 3 mil.

Fila para cadastro de voluntários no Poliedro de Caracas
Alesia Santacroce
Linha de frente
Em nota, o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodriguez, anunciou que “861 socorristas internacionais de países como México, Estados Unidos, El Salvador, Suíça, Espanha, Equador, Chile, República Dominicana e Panamá, além da Organização das Nações Unidas (ONU), estão atualmente apoiando os esforços de socorro”.
Para quem está na linha de frente, na região mais afetada pelos tremores, o reforço não tem sido suficiente para os estragos deixados pela tragédia. Por isso, voluntários e familiares têm apoiado nos resgates.
“Ainda estamos aqui e ficaremos até amanhã à tarde, durante as primeiras 36 horas de vida. A expectativa de vida desses acidentes pode chegar a 36 horas. Ainda estamos tentando resgatar as pessoas que sobreviveram, e os esforços de resgate são muito complicados porque não temos as ferramentas necessárias”, explica Santacroce.
Os voluntários pedem que, além dos suprimentos básicos como água, comida e medicamentos, sejam doados instrumentos para auxiliar nas buscas. “É muito importante que as pessoas nos ajudem com martelos, cinzéis, ferramentas para poder trabalhar nos escombros”, complementa.
Outra preocupação, segundo a jurista, é com os corpos que possam entrar em estado de decomposição por estarem há várias horas soterrados. “Isso significa que vamos precisar de máscaras e luvas para evitar contaminação durante o trabalho”, pondera. Nos grupos de voluntários, membros pedem doação de formol para conter a decomposição dos corpos.

Mesmo sem equipamentos adequados, familiares e voluntários reviram escombros para encontrar sobreviventes
Alesia Santacroce
Falta de energia e conectividade
Já próximo ao fechamento desta reportagem, Luis Alfredo Poleo Martínez, de 37 anos, esposo de Alesia, aproveitou a melhoria no sinal de conexão com a internet para enviar imagens do dia de trabalho. Ele contou à esposa que “foram retirados muitos cadáveres. Cheiram mal. Há bactérias e contaminação. Muita gente não está usando luvas e podem se contaminar com os mortos”.
Segundo Alesia, por pouco elas e o marido não foram vítimas dos tremores. Ela contou que passou o dia do terremoto em La Guaira, mas decidiu antecipar a volta para casa porque faltou luz e os sinais das operadoras de celular foram interrompidos.
Todavia, na volta para casa, os reflexos da tragédia já podiam ser sentidos. “O trajeto que [normalmente] dura 20 minutos, levou cinco horas. Havia carros e pedras na única estrada que liga [La Guaira] à Caracas”, rememora.
A repórter independente Ro Hernandez, que se preparava para realizar uma apuração em dos hospitais de Caracas no momento em que a atendeu a reportagem. “Há muitos voluntários no setor de resgate que estão distribuindo máscaras, luvas e suprimentos para ajudar no resgate de pessoas ou na recuperação de corpos dos escombros”, afirmou, despedindo-se para se posicionar no centro médico.

Voluntário dormem poucas horas por dia e passavam a maior parte do tempo revirando escombros
Alesia Santacroce
Atendimento de saúde
Cesar Jimenez, engenheiro e gerente na Venezuela do Projeto Hope, organização global que realiza ajuda humanitária em diversos países, informa que está atuando em oito estados reforçando a assistência primária de 55 centros de saúde. No entanto, ele diz que “a necessidade é tão grande e tantas pessoas são afetadas que não há capacidade suficiente para atender a todos imediatamente”.
Familiares e sobreviventes estão recebendo assistência psicológica, por meio do projeto Lar na Venezuela, conta o gerente. “Esperamos continuar fazendo isso durante as próximas semanas e meses, nessas primeiras 48 a 72 horas da Resposta Rápida”, arremata.
Jesús Armas, membro da entidade o Monitor Ciudad, está realizando inspeções voluntárias nos prédios habitados para averiguar risco de desabamento. “Até agora, evacuamos um prédio que apresentou risco de desabamento”, complementa.
Opera Mundi tentou contato com a Defesa Civil de Caracas e a Embaixada do Brasil na Venezuela, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.
