Baixar Notícia
WhatsApp
Email

O que é e como age o novo medicamento que dobrou a sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas

Fonte: otempo.com.br | Data: 28/06/2026 06:11:00

🔗 Ler matéria original

Há muitos anos, o câncer de pâncreas figura entre os maiores desafios da oncologia. Um tumor agressivo, frequentemente descoberto em fases avançadas e com poucas alternativas de tratamento quando comparado a outros tipos de câncer. Agora, um novo medicamento reacende a esperança para pacientes e médicos: o daraxonrasib apresentou resultados promissores ao dobrar a sobrevida de pessoas com a doença avançada.

O estudo foi apresentado no início deste mês durante o ASCO 2026, principal congresso mundial de oncologia clínica, realizado em Chicago, nos Estados Unidos. O resultado chamou a atenção da comunidade médica porque, por muitos anos, poucos avanços significativos foram registrados no tratamento do câncer de pâncreas, especialmente em pacientes que já passaram pela quimioterapia e tiveram progressão da doença.

Mas, afinal, o que esse medicamento muda na prática? Ele representa uma cura? Quando poderá chegar aos pacientes brasileiros? E por que o câncer de pâncreas continua sendo uma doença tão difícil de tratar? Confira as respostas a seguir.

Por que o câncer de pâncreas preocupa tanto os especialistas?

Apesar de não aparecer entre os cânceres mais frequentes, o tumor de pâncreas está entre as doenças oncológicas com maior impacto pela alta mortalidade. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) para o período de 2026 a 2028, o Brasil deve registrar 13.240 novos casos por ano – ou seja, 36 diagnósticos por dia a partir deste ano -, sendo 6.330 em homens e 6.910 em mulheres.

No país, a doença corresponde a aproximadamente 2% de todos os tipos de câncer diagnosticados e 5% do total de mortes por neoplasias, ocupando a 14ª posição entre os tipos de tumor mais frequentes. Os números de óbitos mostram a gravidade da doença. De acordo com o Atlas de Mortalidade por Câncer – SIM de 2024, foram registradas 14.379 mortes, sendo 7.080 de homens e 7.299 de mulheres.

Para o cirurgião oncológico Felipe Fernández Coimbra, secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (WSSO), o grande problema não é apenas a ocorrência da doença, mas a falta histórica de opções terapêuticas. “O câncer de pâncreas, apesar de não ser o mais frequente, tem uma mortalidade alta. Então ele acaba sendo um tipo grave.”

Segundo o especialista, enquanto os tratamentos de outros tumores tiveram uma evolução importante nos últimos anos, o câncer de pâncreas avançou mais lentamente. “Pode haver um tipo de câncer de mama com vários tratamentos. Melanoma – câncer de pele -, hoje em dia, também tem diversas formas de tratar, mas para pâncreas praticamente não existem muitas opções.”

Essa dificuldade ajuda a explicar por que uma nova droga com resultado expressivo despertou tanta atenção.

O que o novo medicamento conseguiu demonstrar?

O daraxonrasib – administrado em forma de pílula oral diária – foi testado em pacientes com câncer de pâncreas que já haviam realizado tratamento com quimioterapia e que tiveram retorno ou progressão da doença. Ou seja, eram pessoas que tinham poucas alternativas disponíveis. No estudo, um grupo recebeu o tratamento convencional e outro utilizou o novo medicamento. O resultado mostrou uma diferença considerada significativa: pacientes tratados com o daraxonrasib tiveram praticamente o dobro de sobrevida.

Segundo Coimbra, um grupo viveu em média 6,7 meses, enquanto o grupo que recebeu o novo medicamento chegou a 13,2 meses. “Então, o que significa? Com a medicação, dobrou a sobrevida, mas as pessoas continuam falecendo. Então, esse é o ponto-chave. Não tem cura ainda”, explica.

O especialista destaca que, na oncologia, muitos avanços acontecem de forma gradual, aumentando a expectativa de vida dos pacientes em poucos meses. Por isso, um resultado que representa aproximadamente seis meses a mais de vida em uma doença com poucas opções é considerado relevante.

Como funciona o daraxonrasib?

O medicamento faz parte de uma classe chamada de terapias-alvo, desenvolvidas para agir diretamente em alterações específicas das células do câncer. O alvo da droga é uma via molecular chamada KRAS, relacionada ao processo de multiplicação das células tumorais. Segundo Coimbra, a ideia dessas terapias é impedir que o tumor continue crescendo. “O objetivo é, de preferência, que mate tudo, mas que ao menos pare de replicar a célula tumoral.”

O cirurgião de pâncreas, fígado e vias biliares Eduardo Ramos reforça que a alteração no gene KRAS é uma característica muito comum no câncer de pâncreas. “O tumor decorre, em 90% das vezes, de uma mutação nesse gene. O mecanismo funciona como um controle de liga e desliga das células, mas no câncer ocorre uma alteração que mantém esse estímulo ativo. É como se houvesse um interruptor que está travado no ligado.”

O medicamento já pode ser usado pelos pacientes?

Ainda não. Apesar dos resultados positivos, o daraxonrasib não foi aprovado nem nos Estados Unidos. Segundo Coimbra, o próximo passo depende da avaliação das autoridades regulatórias. “Ainda falta a aprovação do FDA (Food and Drug Administration), a ‘Anvisa americana’, para depois disso começar a ser liberado nos outros países.” 

O especialista explica que os estudos clínicos seguem etapas antes que um medicamento possa chegar ao mercado. “Primeiro você testa um determinado número de pessoas, depois aumenta a quantidade de pessoas, depois vem a fase 3, em que você vai comparar um grupo com outro grupo.”

Também não existe previsão de quando o remédio poderá estar disponível no Brasil ou qual será o custo do tratamento.

Se não é cura, por que o avanço é tão importante?

A resposta está justamente no cenário atual do câncer de pâncreas. A maioria dos pacientes ainda é diagnosticada quando a doença já está avançada. Segundo Coimbra, aproximadamente metade das pessoas chega ao diagnóstico com metástase, quando o tumor já se espalhou para outros órgãos. “Além disso, cerca de 30% já têm linfonodos — ou ínguas — comprometidos, o que sobra em torno de uns 20% dos que estão prontos, digamos assim, para a cirurgia.”

Os procedimentos cirúrgicos continuam sendo a principal possibilidade de cura, especialmente quando associados à quimioterapia. Eduardo Ramos destaca que o objetivo dos novos tratamentos é justamente ampliar as possibilidades para esses pacientes. “Esse estudo não está falando de cura, mas de melhor resultado. Porém, a gente tem esperança de que isso possa trazer mais benefício para as pessoas com a doença avançada e oportunidade de aumentar as chances de cura para as que estão em outros estágios.”

Para os especialistas, o principal legado do estudo é abrir caminho para uma nova fase no tratamento do câncer de pâncreas: a busca por terapias cada vez mais personalizadas. O cirurgião Ramos explica que a oncologia caminha para tratamentos capazes de atacar características específicas de cada tumor. “Cada vez mais, o tratamento tende a ser personalizado sempre que possível, ou seja, mais direcionado, de forma que a gente consiga atingir moléculas dentro das células do tumor”, conclui.