Geração ‘prateada’, com mais de 50 anos, avança no mercado de trabalho e soma 20% da renda do país
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 28/06/2026 06:22:23
Mais escolarizada, com mais saúde e com a entrada maciça da mulher no mercado de trabalho, a população que tem hoje de 50 a 79 anos, que tem integrantes das gerações X e Baby Boomer, produziu R$ 89 bilhões por mês em 2024, alcançando 20% do total da renda do trabalho no país.
É o que mostra um dos capítulos do livro organizado pela economista Ana Amélia Camarano, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), intitulado “Brasil velho: bomba fiscal ou vetor de inovação e desenvolvimento?”, a ser lançado em agosto. Em 2016, a fatia era de 18,4% da renda total.
— Há uma parcela nessa população altamente escolarizada, cujo custo de oportunidade de sair do mercado é alto. Ganham mais e, ao se aposentarem, a renda cai muito. Há uma geração de mulheres que cresceram na vida ativa e não querem ficar fazendo bolo e esperando neto. Não querem ficar em casa. Para elas, o trabalho tem um papel social importante — diz Ana Amélia.
Segundo a economista, “por trás de tudo isso”, está o aumento da escolarização, que favorece a permanência no mercado de trabalho por mais tempo. Foi a geração, ela lembra, que se beneficiou do maior acesso à educação e teve alta mobilidade social.
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Em 1988, as mulheres com 60 anos ou mais que estavam na força de trabalho tinham 2,1 anos de estudo, enquanto os homens tinham 2,5 anos de estudo. Em 2024, é possível constatar o salto educacional: na faixa etária de 60 a 69 anos, 41,74% dos homens têm mais de 11 anos de estudo (equivalente ao ensino médio), e entre as mulheres, a taxa sobe para 51,72%.
Clarice de Araújo Fagundes tem 68 anos e trabalha desde os 15. Atualmente é gerente de uma loja da Fort Atacadista, do Grupo Pereira, em Florianópolis. Coordena 300 funcionários, com salário fixo de R$ 12 mil e que pode chegar a R$ 16 mil ao se somar a renda variável.
Ela se aposentou, mas continuou na ativa. Não pretende deixar o mercado de trabalho, nem chega a pensar nisso. Completou o ensino médio, mas não foi além porque a maternidade e o trabalho dificultaram.
Clarice tem um filho de 32 anos, que fez faculdade de Administração. Oportunidade que a gerente não teve. Ela conta que sua mãe não tinha trabalho remunerado e seu pai era contra mulher estudar:
— Fui morar com a minha avó com 15 anos e pude estudar e trabalhar. Tem dias que penso: um dia vou ter que parar, mas aí vou dormir e no dia seguinte já esqueci tudo isso. Eu tenho muita energia. Como vou conseguir levantar de manhã sem ter um lugar para ir, para me sentir viva?
Menos preconceito
Paulo Sardinha, presidente do Conselho da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), afirma que o mercado ficou mais acolhedor à população mais velha. O estopim desse movimento foi nos anos 2010, quando a taxa de desemprego ficou tão baixa quanto está atualmente.
— Em 2014, com níveis de desemprego muito baixos, pessoas de mais idade que estavam disponíveis responderam a esse movimento, quebrou-se um pouco esse tabu. De dez a 12 anos para cá, esse emprego vem crescendo diante da experiência positiva lá de trás — diz o especialista.
Sardinha se aposentou aos 54 anos, após 40 anos com carteira assinada, e hoje prefere fazer consultoria:
— Para essa geração que chegou a posições executivas, a atuação não é muito de carteira assinada. São consultores, conselheiros, professores e microempreendedores — afirma o psicólogo, hoje com 56.
Ainda há preconceito nas contratações, mas “está mais contido”, ele diz. A questão da reputação e da imagem tem sido um ponto a reduzir a discriminação, afirma Sardinha:
—Se a empresa for acusada de discriminação fica em maus lençóis.
Do Direito à aviação
Luis Trinxet, de 56 anos, é piloto de helicóptero e fez uma transição de carreira já perto dos 40. Bacharel em Direito, chegou a cursar parte do curso de Administração. Mas hoje tem carteira assinada e ganha por volta de R$ 20 mil trabalhando numa empresa de táxi aéreo do Rio que presta serviço para plataformas de petróleo.
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No seu campo de atuação, ele diz que é mais comum ver pessoas mais velhas. Seu instrutor no curso de qualificação que está fazendo agora tem 66 anos, conta.
Ele abraçou essa carreira aos 38 anos, depois de ter sido por anos dono de um restaurante. A concorrência maior no setor levou Trinxet a se interessar pela profissão, já que tinha feito curso de pilotagem alguns anos antes.
— Na aviação, tem que estar em plena forma e ter a saúde em dia para poder voar. Há um exame anual de capacitação física. Não existe idade-limite estabelecida pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) para voar, mas há alguns contratos que pedem que a soma de idade (entre tripulantes) na cabine não passe de 120. Mas a maioria não faz essa exigência.
A falta de opção dos mais pobres
Nem sempre continuar trabalhando é uma opção. Os profissionais maduros, que compõem o que alguns consultores chamam de “economia prateada”, em alusão aos cabelos grisalhos, formam uma população muito desigual.
Em outro capítulo do livro da Ana Amélia, onde são analisados dados do emprego formal, a profissão que lidera nessa faixa etária de 50 anos ou mais é a de faxineiro (majoritariamente feminina), seguida por assistente administrativo, motorista de caminhão, professor de nível médio e fundamental, auxiliar administrativo, serviços de limpeza e conservação, porteiro, cozinheiro, professor de nível superior e vendedor.
— Na base da pirâmide, se manter trabalhando é impulsionado pela necessidade — observa Sardinha, da ABRH.
Poder de consumo
Segundo o estudo, em 2024 havia 25,4 milhões de pessoas entre 50 e 79 anos na ativa, das quais aproximadamente 20% já estavam aposentadas.
Além dos R$ 89 bilhões da renda do trabalho, há mais R$ 12,1 bilhões de aposentadorias e pensões. Muitos trabalham para complementar a aposentadoria que consideram insuficiente, mas para outros essa soma de recursos reforça o poder de consumo além do essencial.
A “economia prateada” é um mercado consumidor expressivo, no qual o turismo desponta. Respondeu por um terço das viagens em 2024, o equivalente a 16,8 milhões de deslocamentos. Para os destinos internacionais, foram 500 mil viagens. A Europa foi o principal destino.
— É uma geração que começou a se preocupar com autopreservação, com o mercado de consumo incentivando isso, o cuidado com o corpo. Há avanço das ciências, tudo isso caminha junto. Essa geração está chegando na idade mais avançada com boas condições de saúde — diz Ana Amélia.
Envelhecimento não limita PIB, diz demógrafo
Países onde a população está diminuindo e é mais envelhecida estão crescendo e aumentando a renda per capita. Dados reunidos pelo doutor em demografia José Eustáquio Alves, professor aposentado da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), mostram que o enriquecimento de uma nação pode seguir em curso juntamente com o envelhecimento da população.
— Falam que o Brasil passou do bônus populacional (população em idade de trabalhar crescendo) ao ônus. Quando você vê os dados, essa ideia de que primeiro o país enriquece depois envelhece não é muito correta. O país enriquece junto com envelhecimento.
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Ele diz que, mesmo no Brasil, um país de renda média, a redução da população que deve acontecer na década de 2040 não é o fim da linha.
Eustáquio cita o exemplo da Polônia que, na primeira metade da década de 1990, tinha uma renda per capita semelhante à do Brasil, só que com uma estrutura etária mais envelhecida.
—Lá, a população começou a diminuir em 1995, e renda per capita triplicou nesses 30 anos. A do Brasil cresceu 50%.
Vida comunitária
Segundo ele, o país passa pelo segundo bônus, o da produtividade, com menos gente em idade de trabalhar, porém, mais produtiva. O Produto Interno Bruto (PIB) precisará crescer com número menor de trabalhadores:
— Os países que aproveitaram esse bônus investiram em infraestrutura, comunicação e automação. Todo mundo pensa numas caixinhas fixas, crianças estudam, adultos trabalham e idosos descansam. Mas isso é muito mais misturado. A educação é continuada ao longo da vida.
O demógrafo cita ainda Taiwan. A população da província chinesa autônoma começou a cair em 2019, e o PIB local cresceu 8,7%, puxado pela indústria de tecnologia, particularmente a de chips. A redução populacional não reduziu o ímpeto de crescimento, ele diz:
—Envelhecimento traz um desafio: se não fizer nada vai estagnar e aumentar a pobreza. Mas, se aproveitar esse potencial da população idosa, com nível educacional maior que o das gerações passadas, haverá mais gente contribuindo para a economia.
Alves chama a atenção para o papel social dessa geração mais velha que está mais atuante na comunidade e vivendo mais. Mesmo fora do mercado de trabalho, atua como voluntário, participa mais ativamente da vida comunitária:
— Antes, a pessoa se aposentava aos 65 anos e morria aos 70. Hoje, ela tem mais de 20 anos de vida. É um idoso saudável que vai contribuir com a economia de diversas formas. São atividades muito importantes que não entram no PIB.