Obra por debaixo do Rio Tietê e modelo do metrô de Londres: 6 curiosidades da Linha 6-Laranja
Fonte: estadao.com.br | Data: 01/07/2026 12:52:57
A linha 6-Laranja do metrô terá suas primeiras seis estações inauguradas nesta quinta-feira, 2. O trajeto inicial será entre as paradas João Paulo I, na zona norte, e Perdizes, na oeste. O projeto foi a primeira parceria público-privada (PPP) para construção e operação de metrô em São Paulo.
Apelidado de “linha das Universidades”, o ramal conta com a estação mais profunda da América Latina e teve um de seus canteiros de obra transformado em sítio arqueológico após a descoberta de artefatos de um quilombo.
Trens produzidos em SP com novo layout de bancos e portas que abrem para fora
A linha terá 22 trens da marca Alstom fabricados em Taubaté, no interior paulista.
Um metrô convencional, como o das linhas 1-Azul e 3-Vermelha, carrega até 1,6 mil pessoas. Com design interno projetado para oferecer mais espaço para o público em pé, a 6-Laranja comporta até 2.044 por veículo.
A capacidade extra se deve principalmente ao fato de os vagões serem interconectados: é possível ir de uma ponta a outra do veículo, como nas linhas 4-Amarela e 5-Lilás.
Conheça a Linha-6 Laranja do metrô
Reportagem do Estadão visitou uma das estações que será inaugurada nos próximos dias e mostra os detalhes.
A diferença da laranja é ter assentos só nas paredes laterais, sem bancos voltados para a frente ou para trás, ampliando a área livre do corredor. A ideia é facilitar o embarque e o desembarque em horários de pico e evitar aglomerações perto das portas. É o mesmo modelo do metrô de Londres (conhecido como Tube).
As portas, inclusive, são outra novidade no metrô de São Paulo. No vagão convencional, elas são recolhidas para dentro da estrutura ao abrir, ficando em um vão interno entre as paredes do veículo.
Na laranja, não: quando a porta abre, ela vai para fora do vagão, ficando encostada na parede externa do trem. Segundo a concessionária, a mudança ocorreu por motivos de segurança.

Portas da Linha 6-Laranja.
Foto: Taba Benedicto/Estadão
Todas as estações também serão inauguradas já com portas automáticas nas plataformas, para evitar que passageiros possam cair nos trilhos.
Por baixo do Rio Tietê e com luz natural: metrô mais profundo da América Latina
Escavar a 6-Laranja exigiu ir fundo. Segundo o governo, trata-se do metrô mais profundo da América Latina. Sete estações estão enterradas a no mínimo 45 metros.
A Estação Santa Cruz, da 5-Lilás, era a recordista em São Paulo até então, a 41,3 metros no subsolo. Mas, já nesta primeira entrega, a Água Branca, da laranja, a supera, com seus 47,8 m — e essa nem é a mais profunda do ramal.
A Itaberaba-Hospital Vila Penteado, que será inaugurada em outubro na zona norte, estará a 65,7 m abaixo do chão, o equivalente a um prédio de mais de 20 andares.

A profundidade ganha ainda mais destaque devido ao relevo da capital. “Há desnível de aproximadamente 105 metros entre o ponto mais alto (Pátio Morro Grande, na zona norte) e o mais baixo (Estação Água Branca, na zona oeste)”, afirma o CEO da Acciona Brasil, André De Angelo.
Superintendente metroferroviário da Agência Reguladora de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), Jelson Siqueira afirma que as linhas de metrô na capital estão cada vez mais fundas justamente porque precisam ser construídas uma embaixo da outra. “Precisa ter uma camada de solo entre uma linha e outra para fazer o túnel dentro do nível de segurança.”
A 6-Laranja teve de ser profunda porque precisou ser construída por baixo do Rio Tietê, da linha 4-Amarela e de centenas de prédios.
No caso do Tietê, a estrutura está a quase 12 metros da calha do rio. A dificuldade dessa empreitada foi, inclusive, o que fez a 1-Azul ser construída na década de 1960 sobre um elevado e passar por cima do rio.

Na 4-Amarela, foi necessário vencer os 35,4 m da Estação Paulista, que por muitos anos foi a mais funda do Estado.
Siqueira ainda destaca que a inclinação máxima de uma rampa de metrô é de 4%, dessa forma, é necessário escavar o túnel para baixo ou para cima gradualmente.
Apesar da profundidade, parte das estações da laranja terá teto de vidro. Dessa forma, a luz natural irá iluminar as plataformas de embarque e desembarque durante o dia, permitindo menor consumo energético.

Plataforma de embarque na estação Santa Marina iluminada por luz natural por volta das 11h da manhã.
Foto: Beatriz de Souza Silva/Estadão
Achados arqueológicos
Em 2022, durante as escavações da Estação 14-Bis, na Bela Vista, no centro, foi descoberto um sítio arqueológico do Quilombo Saracura. A unidade fica ao lado da Praça 14-Bis, onde era a sede da escola de samba Vai-Vai.
“Indícios apontam para a existência da estrutura de um possível terreiro e de outros objetos ligados à religiosidade afro-brasileira”, declarou o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) sobre o espaço. Estruturas de drenagem do córrego Saracura também foram encontradas no local.

Artefatos encontrados durante escavação da estação 14-Bis.
Foto: Reprodução/Relatório A Lasca
O achado levou a estação a ser rebatizada para 14 Bis-Saracura. No local, foram encontrados mais de 100 mil artefatos ligados ao quilombo. O Iphan propôs que a concessionária exiba alguns dos objetos encontrados dentro da própria estação, para que fiquem acessíveis à população.
Linha das universidades
Desde que foi anunciada, em 2008, o trajeto foi apelidado de “linha das universidades”. Seu trajeto completo, com 15 estações, conecta faculdades como PUC, Faap, Mackenzie, Unip, FMU, Uninove e Centro Universitário São Camilo — parte das paradas, inclusive, foi batizada com o nome das instituições de ensino.

Sem piloto
A linha 6 será comandada remotamente, direto do Centro de Operações, assim como na 4-Amarela e na 5-Lilás. Há uma sala onde os funcionários acompanham diversas TVs, monitoram todo o sistema e verificam o andamento das viagens e eventuais irregularidades.
Em caso de emergência, há um posto de controle manual dentro do trem. Mas o console deve ficar fechado — o público pode, inclusive, se apoiar na estrutura fechada para descansar ou ver o caminho subterrâneo.

Condutora pilota trem da Linha 6-Laranja durante fase de testes.
Foto: Taba Benedicto/Estadão
Neste início, no entanto, o novo transporte vai funcionar manualmente, com um condutor pilotando o trem. A condução à distância só começa após o início da operação plena, prevista para ocorrer ainda em 2026.
Primeira PPP de metrô
A linha foi a PPP integral de metrô. Ou seja, a concessionária é responsável pela obra e depois por operar a linha. Antes, todas as linhas eram construídas pelo Metrô ou pela CPTM e só então privatizadas.
A ideia era que a empresa teria interesse em acelerar as obras para logo gerar receita com a operação.

Vagão da linha 6-Laranja.
Foto: Taba Benedicto/Estadão
O Trem Intercidades São Paulo-Campinas, cujo contrato foi assinado no ano passado, segue o mesmo modelo de PPP. O plano atual do governo é seguir a mesma estratégia para as linhas 14-Ônix, 16-Violeta, 20-Rosa e 22-Marrom, que ainda não foram licitadas.