Indústria brasileira passa por investimentos em ecoinovação
Fonte: jornalja.com.br | Data: 03/07/2026 14:08:08
A Economia da Inovação é o ramo da Economia Industrial que tem como principal objeto de estudo as inovações tecnológicas e organizacionais introduzidas pelas empresas para fazerem frente à concorrência e acumularem riquezas. É exatamente aí que a Propriedade Intelectual se insere e o sistema de patentes passa a exercer um papel fundamental em qualquer economia de mercado.
Um estudo divulgado este ano pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) revelou que o crescimento recente dos depósitos de Propriedade Intelectual foi apoiado sobretudo em commodities e agropecuária. O Brasil vem inovando muito em áreas onde já possui vantagens competitivas naturais — agronegócio, biotecnologia agrícola, alimentos, mineração, bioenergia e química associada à biomassa — enquanto a inovação industrial de maior densidade tecnológica continua relativamente fraca.
Nos últimos 20 anos, os setores mais rentáveis da economia brasileira foram o agronegócio, mineração, petróleo e gás, celulose e proteínas animais. Naturalmente, grande parte do esforço tecnológico migrou para essas áreas. Enquanto isso, entre 1980 e 2025, a participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro caiu de algo próximo de 25% para cerca de 10% a 11%.
Desde o período colonial, o Brasil se integrou à economia mundial como exportador de produtos primários. Muitos economistas da tradição desenvolvimentista, como Celso Furtado, argumentaram que essa especialização criou uma estrutura econômica que favorece atividades extrativas e agrícolas em detrimento de setores industriais mais sofisticados.
O paradoxo da economia brasileira é o dado mais interessante do estudo do INPI: o Brasil está se tornando cada vez mais sofisticado tecnologicamente dentro das cadeias de commodities.
Mas é preciso ter cuidado com essa afirmação. No caso da soja, por exemplo, o produtor brasileiro é extremamente eficiente na adoção de tecnologia, mas uma parcela significativa da geração dessa tecnologia continua sendo controlada por empresas multinacionais.
Quanto à soja transgênica e de boa parte das variedades mais modernas, empresas como Bayer (que adquiriu a Monsanto), Corteva e Syngenta controlam muitas das patentes relacionadas aos eventos biotecnológicos e à genética comercial. O agricultor compra uma semente que incorpora anos de pesquisa, desenvolvimento e propriedade intelectual. Parte do preço pago remunera justamente essa tecnologia.
No entanto, é preciso reconhecer que o Brasil produz tecnologia agrícola. A Embrapa desenvolveu centenas de cultivares, tecnologias de manejo, fixação biológica de nitrogênio, integração lavoura-pecuária-floresta, agricultura tropical e outras inovações que transformaram o Cerrado em uma das regiões agrícolas mais produtivas do mundo.
Além disso, empresas brasileiras vêm crescendo em segmentos como bioinsumos, inoculantes, agricultura digital e softwares de gestão rural. Já nos segmentos de maior intensidade em propriedade intelectual — como genética vegetal, edição gênica e eventos transgênicos — as multinacionais ainda exercem forte liderança.
Ecoinovação na indústria
O argumento clássico é que a economia mundial é organizada de forma hierárquica: países que dominam tecnologia, finanças e propriedade intelectual tendem a capturar a maior parte do valor agregado, enquanto países especializados em recursos naturais capturam uma parcela menor. A pergunta é: a ecoinovação muda essa lógica?
Se a ecoinovação for apenas “verde”, ela não resolve o problema só exportando lítio, grafite, hidrogênio verde, créditos de carbono e biomassa. Mesmo sendo produtos ligados à transição energética, continuaria comercializando principalmente insumos. Nesse caso, a posição do país na divisão internacional do trabalho mudaria pouco.
No entanto, a ecoinovação pode significar desenvolver tecnologia sobre esses recursos:
Exportação tradicional Ecoinovação industrial
Lítio Células de bateria e de armazenamento
Grafite Materiais avançados para baterias
Biomassa Bioplásticos e bioquímicos
Celulose Nanocelulose e biomateriais
Etanol Combustíveis para aviação (SAF)
Minério de ferro Aço verde
A diferença econômica é enorme. Em muitos casos, o valor agregado pode ser várias vezes superior ao do produto primário. O ponto central é que a ecoinovação permite ao país construir uma estratégia industrial aproveitando vantagens que já possui e que poucos concorrentes conseguem replicar. O Brasil pode liderar segmentos da economia verde onde seus recursos naturais e sua matriz energética oferecem vantagens únicas.
Estratégia nacional
A Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e a Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI) lançaram no final de setembro de 2023, durante o 10º Congresso Internacional de Inovação da Indústria, em São Paulo, uma proposta de diretrizes para a criação de uma Estratégia Nacional de Ecoinovação voltada para a indústria brasileira. O documento sinaliza que, embora a indústria brasileira tenha capacidade de inovar, são necessárias políticas públicas para o país ocupar a posição de liderança verde global.
A Estratégia Nacional de Ecoinovação proposta pela CNI, Sebrae e MEI não se transformou, até meados de 2026, em uma política nacional formal, mas a Nova Indústria Brasil (NIB), lançada pelo governo Lula em janeiro de 2024, incorporou parte da agenda.
Entre as seis missões da NIB, uma das principais é justamente a descarbonização da indústria e a transição energética, tema central da proposta de ecoinovação da CNI. Em 2025, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) aprovaram cerca de R$ 14 bilhões em crédito para projetos de inovação no âmbito da NIB.
Armadilha verde
Um debate importante sobre política industrial deve analisar como a ecoinovação deve ser concebida. A economia verde não elimina a necessidade de dominar tecnologias estratégicas, inclusive cria uma demanda por elas. Nenhum dos países tecnologicamente mais avançados escolheu entre economia verde e alta tecnologia. A China investe simultaneamente em energia limpa, semicondutores e inteligência artificial. A Coreia do Sul faz o mesmo e os Estados Unidos também.
Esses países estão travando uma corrida tecnológica e industrial sem precedentes, onde energia limpa, semicondutores e inteligência artificial (IA) funcionam como um ecossistema interligado. O avanço em IA exige semicondutores potentes, que por sua vez demandam quantidades colossais de energia para fabricação e operação.
Por isso, iniciativas como a revitalização do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec) e a criação de um hub de semicondutores no Rio Grande do Sul deveriam ser vistas como parte da ecoinovação. Se a ecoinovação for integrada a uma estratégia nacional de domínio tecnológico, poderá ser justamente o mecanismo que financie e estimule a construção de capacidades em áreas como semicondutores, IA e manufatura avançada.