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Minas, o PT, aliados e seus candidatos a candidatos envoltos no sofisma da rejeição

Fonte: brasil247.com | Data: 11/07/2026 10:31:41

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O senador Camilo Santana, ex-ministro da Educação de Lula e hoje integrante da coordenação da campanha presidencial, defendeu que o PT abra mão de apresentar candidatura própria ao governo de Minas Gerais. Seu argumento parte do desgaste deixado pela administração de Fernando Pimentel e conclui que a melhor estratégia seria apoiar um candidato pertencente ao chamado arco de alianças. Camilo foi mais cauteloso do que alguns intérpretes de sua fala: disse expressamente que não se tratava necessariamente de um “risco de fiasco”. Ainda assim, afirmou que a avaliação do PT no estado teria ficado “muito ruim” e que, por isso, o partido deveria procurar um nome externo. 

Em formulação mais contundente, o economista e especialista em direitos sociais José Prata Araújo, esposo de Marília Campos e coordenador de sua pré-campanha ao Senado, sustentou em Carta Aberta que uma candidatura petista ao governo reunificaria a direita mineira, ressuscitaria a memória do governo Pimentel, levaria o PT à derrota estadual, prejudicaria a eleição para o Senado e ainda contaminaria a campanha presidencial de Lula. Para Prata, a candidatura própria seria uma “temeridade” e, no limite, um “desastre político”. A alternativa proposta seria uma chapa composta por Lula para presidente, um candidato de centro ao governo e Marília Campos ao Senado.

Há nessa argumentação uma preocupação política legítima, mas também um sofisma evidente. Parte-se de uma premissa verdadeira — a administração Pimentel terminou desgastada e foi severamente derrotada em 2018 — para se chegar a uma conclusão que os fatos não autorizam: a de que o eleitor mineiro teria desenvolvido uma rejeição estrutural, permanente e indiscriminada ao PT e a qualquer candidato identificado com Lula. O governo Pimentel pode ser um passivo histórico a ser explicado. Não pode, porém, ser convertido numa espécie de maldição eleitoral eterna, capaz de sobreviver intacta a novos governos, novas eleições, novas lideranças e às profundas transformações políticas ocorridas desde 2018.

A própria história eleitoral recente desmente essa transferência automática. Fernando Pimentel, depois de ter sido eleito governador em primeiro turno em 2014 com aproximadamente 52,9% dos votos válidos, terminou a disputa de 2018 em terceiro lugar, com 23,12%. Quatro anos depois, porém, Lula venceu a eleição presidencial em Minas Gerais, obtendo 50,20% dos votos válidos no segundo turno de 2022. O eleitor mineiro, portanto, foi capaz de reprovar o governador petista e, posteriormente, votar no candidato petista à Presidência da República. Isso demonstra algo elementar: o eleitor diferencia governos, cargos, personalidades, conjunturas e projetos. Não existe um voto mineiro mecanicamente condicionado pela lembrança de Pimentel. 

Os levantamentos contemporâneos aprofundam essa conclusão. Na pesquisa AtlasIntel realizada entre 25 e 30 de março de 2026, com 2.195 eleitores e margem de erro de dois pontos percentuais, Lula registrou rejeição de 48,2%. Marília Campos, entretanto, apareceu com 34,7% — praticamente o mesmo índice de Mateus Simões, com 34,5%, e de Rodrigo Pacheco, com 34,3%. Alexandre Kalil tinha 37,8%, enquanto Cleitinho Azevedo aparecia com 24,2%. A rejeição nominal de Marília estava, portanto, 13,5 pontos abaixo da rejeição de Lula e estatisticamente empatada com a do candidato ligado ao governo estadual. Esses números não demonstram que Marília venceria a eleição, mas tornam insustentável a afirmação de que seu nome seria automaticamente repelido por representar o PT. 

A mesma AtlasIntel apresentou um teste ainda mais revelador. Num primeiro cenário, Rodrigo Pacheco, sem a identificação explícita de apoio presidencial, marcou 28,6%, contra 32,7% de Cleitinho. Em outro cenário — cuja composição não era idêntica e, por isso, não permite atribuição causal absoluta — Pacheco foi apresentado como “apoiado por Lula” e alcançou 37,9%, assumindo a liderança, enquanto Cleitinho registrou 34,2% e Mateus Simões, identificado como apoiado por Bolsonaro e Zema, obteve 11,5%. A associação com Lula, longe de destruir a candidatura, apareceu acompanhada de maior competitividade. Não se pode afirmar que todo o crescimento tenha sido produzido exclusivamente pelo apoio presidencial, mas tampouco se pode sustentar que a marca de Lula funcione como veneno eleitoral em Minas.

A pesquisa DATATEMPO de junho de 2026 também desmonta a fantasia de uma rejeição singular à administrações petistas. Lula apareceu com 35,9% de rejeição, abaixo dos 43,4% atribuídos a Flávio Bolsonaro. Ambos eram, simultaneamente, os nomes mais competitivos e os mais rejeitados, fenômeno típico de uma eleição polarizada. A própria coordenadora do instituto advertiu que rejeição elevada não significa inviabilidade eleitoral. Significa maior dificuldade de expansão, mas também revela a existência de uma base consolidada. O dado contradiz frontalmente a afirmação de que Minas estaria se “despolarizando” por uma suposta inclinação natural à moderação. O que existe é uma sociedade eleitoralmente dividida, em que os dois principais polos nacionais mobilizam adesão e resistência.

Também não se sustenta a imagem de uma direita mineira já pronta para ser reunificada por simples reação ao PT. A Genial/Quaest encontrou 86% de indecisos na pesquisa espontânea para governador em abril. A DATATEMPO de junho ainda registrava 69,1% de eleitores sem candidato definido espontaneamente. Mateus Simões, apesar de ocupar o governo e herdar a máquina estadual, tinha apenas 3,7% no cenário estimulado da DATATEMPO. Na Quaest, aparecia com índices entre 3% e 5%, era desconhecido por 68% dos eleitores e possuía apenas 12% de potencial declarado de voto. Nem sequer o capital político de Romeu Zema se transferia automaticamente: embora o ex-governador tivesse 52% de aprovação, 49% dos entrevistados diziam que ele não merecia fazer seu sucessor, contra 42% que defendiam sua indicação; 44% desejavam mudança total no governo e outros 38%, mudança parcial. Aprovação administrativa não é procuração eleitoral.

O equívoco de José Prata está em anunciar como inevitável aquilo que deveria ser objeto de disputa política. A direita pode tentar unificar-se contra o PT, com ou sem candidatura própria petista. O antipetismo continuará sendo utilizado mesmo se o candidato apoiado por Lula pertencer a um partido de centro. A direita não deixará de acusá-lo de ser “o candidato de Lula”, “o candidato do PT” ou instrumento de retorno do petismo apenas porque sua ficha partidária trouxer outra sigla. Abrir mão do próprio nome não elimina a polarização; pode apenas entregar ao adversário o direito de polarizar unilateralmente, enquanto o PT se submete a um candidato que talvez aceite os votos de Lula, mas evite defender seu governo, seu programa e suas realizações.

Frente ampla não pode significar a autossupressão da principal força política do campo progressista. Uma candidatura própria pode ser o núcleo de uma aliança ampla, e não necessariamente a negação dela. O PT tem o dever de conversar com PSB, PDT, MDB, PCdoB, PV, Rede, PSol e demais forças democráticas, mas deve fazê-lo com um projeto para Minas, uma interpretação da crise estadual e uma candidatura capaz de defender a reconstrução dos serviços públicos, o desenvolvimento regional, a reindustrialização, o enfrentamento das desigualdades e a proteção do patrimônio mineiro, incluído aqui a renegociação da dívida de Minas com a Federação. Desistir antes da disputa, tomando o governo Pimentel como sentença irrecorrível, é converter prudência em paralisia.

Lamenta-se, nesse contexto, que Marília Campos tenha acolhido a premissa de uma rejeição estrutural ao PT. Sua própria trajetória é a melhor refutação desse sofisma. Em 2024, ela foi reeleita prefeita de Contagem em primeiro turno, com 60,68% dos votos válidos, derrotando um candidato do PL. Na pesquisa Genial/Quaest para o Senado, aparecia na liderança, com índices entre 17% e 19%; apenas 15% diziam conhecê-la e não votar nela, enquanto 23% declaravam potencial de voto e 62% ainda não a conheciam. Trata-se mais de um campo de expansão do que de um teto eleitoral. O próprio Camilo Santana reconheceu que Marília seria o nome mais competitivo do PT para o governo mineiro. Ela não era apenas a mais conhecida ou “balizada” internamente: era a candidatura mais balizada pela experiência administrativa, pela densidade eleitoral e pela capacidade de dialogar para além da militância partidária.

A Carta Aberta de José Prata parece ter dado forma teórica à reflexão que sustenta a recusa de Marília. Isso não significa, porém, que sua vontade pessoal possa ser atropelada. Marília descartou a candidatura ao governo em outubro de 2025 e voltou a reafirmar, em junho de 2026, que sua única disponibilidade era disputar o Senado. Depois dessas duas manifestações inequívocas, sua decisão precisa ser respeitada. Uma candidatura majoritária não se constrói pela imposição, muito menos contra a vontade reiterada de quem deveria encarná-la. Lula já aceitou sua negativa e decidiu apoiar sua candidatura senatorial. Cabe ao PT, portanto, abraçar Marília para o Senado, protegê-la como um dos seus principais patrimônios políticos em Minas e procurar outro nome para o governo. Mas, Marília precisa ter por lembrança a história recente de outra candidata que iniciou muito bem cotada e depois derreteu: a ex-presidenta Dilma Roussef. A ausência de uma candidatura forte ao governo mineiro pode vir fazer crescer exponencialmente a candidatura de Cleitinho e esta candidatura trazer junto consigo seus candidatos ao Senado e fazer Marília sucumbir, como Dilma.

Respeitar a decisão de Marília, contudo, não obriga o PT a aceitar a teoria que a acompanhou. A candidatura própria não é, por definição, aventura, temeridade ou desastre. A verdadeira aventura seria acreditar que um candidato de centro, sem identidade popular consolidada, sem compromisso orgânico com o governo federal e sem capilaridade própria, surgirá para salvar simultaneamente Lula, o PT e Minas Gerais. Os levantamentos mostram que o cenário estadual permanece profundamente aberto, que a rejeição ao PT não é homogênea e que a vinculação a Lula pode acrescentar competitividade, em vez de retirá-la.

A realidade é praticamente inversa àquela descrita por Camilo Santana e José Prata. O candidato ao governo dificilmente será capaz de carregar Lula em Minas Gerais. Será Lula, com sua história, seu governo, sua base popular, seu reconhecimento no interior e sua capacidade de mobilização, quem terá de carregar o candidato escolhido. O desafio não está em esconder o PT atrás de uma sigla de centro, mas em encontrar alguém que tenha humildade para receber a força eleitoral de Lula e coragem para defendê-lo publicamente.

Em Minas, Lula terá muito mais a missão de impulsionar e carregar o candidato ao governo do que a expectativa de ser impulsionado por ele. Essa é a equação política real. O restante é um sofisma construído sobre a memória de Pimentel para justificar uma retirada antes mesmo de a disputa começar.

Mas refutar o sofisma de Camilo Santana e José Prata não significa defender que o PT apresente qualquer candidatura apenas para ocupar um espaço na cédula eleitoral. O partido não precisa de um candidato para cumprir tabela, afirmar sua existência ou preservar formalmente uma posição partidária. Minas Gerais também não precisa apenas de um candidato. Precisa de alguém capaz de governá-la.

Esse é o ponto central que deve qualificar o debate.

A atual crise de Minas fundada da dívida com a União não é uma simples fatalidade contábil. Trata-se de uma crise federativa, econômica, produtiva e política. A dívida mineira com a União, as perdas históricas provocadas pela Lei Kandir, a redução da capacidade estadual de investimento e a permanência de um modelo econômico predominantemente extrativo e exportador submeteram o Estado a uma política quase permanente de contenção, privatização e resignação administrativa.

Por isso, a pergunta do PT não pode ser apenas: “teremos ou não teremos candidato próprio?”. A pergunta correta é outra: “quem tem condições de estabelecer com Lula um pacto político e federativo para reconstruir Minas Gerais?”.

A candidatura própria somente adquirirá sentido histórico se estiver sustentada por esse pacto.

O candidato precisa assumir publicamente que a dívida mineira não será tratada como desculpa permanente para cortar serviços, comprimir servidores, reduzir investimentos e alienar patrimônio. Deve sustentar que Minas não pode cortar seu futuro para pagar seu passado; precisa crescer para que a dívida caiba dentro de um novo projeto de Estado.

Esse compromisso não pode ser apenas mineiro. Precisa ser pactuado com Lula.

O apoio presidencial não deve se resumir a fotografias, comícios, jingles e declarações protocolares. Lula e o candidato ao governo precisam apresentar ao eleitorado um compromisso conjunto para enfrentar a relação financeira entre Minas e a União, reconstruir a capacidade de investimento do Estado e converter a riqueza mineira em desenvolvimento interno.

A primeira dimensão desse pacto deve ser federativa. Minas deve reconhecer suas obrigações financeiras, mas a União também precisa reconhecer que o Estado acumulou perdas históricas com a desoneração das exportações promovida pela Lei Kandir. Se Minas deve à União, existe também uma dívida federativa da União com Minas. Esse encontro de contas não pode permanecer restrito a relatórios técnicos, processos judiciais e negociações burocráticas. Precisa ocupar o centro da campanha política.

O candidato apoiado por Lula deverá ter autoridade para dizer aos mineiros que não fará uma campanha contra o governo federal, mas construirá com o presidente uma solução nacional para o estrangulamento do Estado. Não se trata de hostilidade, confronto vazio ou moratória irresponsável. Trata-se de estabelecer uma negociação política em que Minas aceite pagar, mas exija justiça; aceite equilíbrio fiscal, mas recuse o sufocamento; reconheça a dívida financeira, mas também reivindique o reconhecimento das perdas federativas.

A segunda dimensão do pacto deve transformar o regime de pagamento da dívida numa plataforma de desenvolvimento. A adesão ao Propag não pode funcionar apenas como um mecanismo de disciplina fiscal ou administração prolongada da escassez. Os recursos, contrapartidas e investimentos previstos precisam ser direcionados a projetos que aumentem a capacidade produtiva e arrecadatória de Minas: ferrovias regionais, infraestrutura logística, educação profissional, inovação tecnológica, saneamento, transição energética, segurança pública inteligente e reindustrialização.

O pacto entre Lula e o candidato deve demonstrar que responsabilidade fiscal e desenvolvimento não são conceitos incompatíveis. O verdadeiro equilíbrio das contas públicas não será alcançado apenas pela redução das despesas. Será alcançado quando Minas ampliar sua produção, agregar valor, gerar empregos, recuperar receitas e aumentar sua capacidade de investimento.

A terceira dimensão deve enfrentar a estrutura colonial da economia mineira. Minas exporta minério, café, aço, energia, produtos agroindustriais e conhecimento, mas parte significativa dessa riqueza deixa o território sem se transformar em arrecadação suficiente, industrialização, tecnologia ou renda interna.

O próximo governador deverá construir com Lula uma política de agregação de valor. Um fundo estadual de desenvolvimento produtivo poderia apoiar cadeias metalmecânicas, beneficiamento mineral, bioindústria, tecnologia agrícola, indústria farmacêutica, economia da saúde, energias renováveis e polos regionais de inovação. O princípio é elementar: não basta extrair riqueza de Minas; é necessário fazer com que essa riqueza permaneça, circule e produza desenvolvimento em Minas.

A quarta dimensão é uma nova política mineral. O Estado não pode continuar sendo visto apenas como buraco, barragem, trem e porto distante. A mineração continuará relevante, mas deverá produzir mais contrapartidas, mais beneficiamento local, maior proteção ambiental e mais investimentos nos municípios atingidos. Quem apenas extrai e exporta deve contribuir proporcionalmente mais. Quem agrega valor, industrializa e gera empregos no território mineiro deve ser estimulado.

Esse projeto exige articulação nacional. Minas não poderá reformular isoladamente a tributação, as compensações e os incentivos relacionados à mineração. Precisará de um presidente comprometido com a reconstrução federativa e com uma política industrial brasileira. Daí a centralidade do pacto com Lula.

A quinta dimensão deve ser uma reforma administrativa voltada para a produtividade pública, e não para a destruição do Estado. O PT não pode responder ao fiscalismo com a negação da eficiência. Deve propor compras públicas mais inteligentes, revisão das renúncias fiscais sem contrapartida, combate sofisticado à sonegação, digitalização dos processos, recuperação da dívida ativa e integração entre universidades, setor produtivo e poder público.

Eficiência não significa necessariamente cortar. Significa arrecadar melhor, comprar melhor, planejar melhor, fiscalizar melhor e vincular benefícios públicos a resultados econômicos e sociais mensuráveis.

É esse conjunto de compromissos que pode transformar uma candidatura ao governo numa candidatura histórica. O nome escolhido deverá ser capaz de reunir prefeitos, bancada federal, Assembleia Legislativa, universidades, trabalhadores, servidores públicos, municípios mineradores, movimentos sociais e setores produtivos em torno de uma agenda comum.

Frente ampla, nesse sentido, não significa esconder o PT nem dissolver seu programa. Significa ampliar social e politicamente um projeto de desenvolvimento. Uma candidatura petista pode construir uma frente ampla, assim como um candidato de outro partido pode fracassar completamente nessa tarefa. O que define a amplitude não é apenas a sigla do candidato, mas sua capacidade de pactuar interesses diversos em torno de um objetivo público reconhecível.

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.