China desenvolve novas indústrias estratégicas
Fonte: brasil247.com | Data: 26/07/2026 06:25:34
247 – Pequim prepara uma nova etapa de sua estratégia industrial. Segundo o Global Times, a China aposta em IA, robótica e novos medicamentos para crescer e ampliar exportações de serviços intensivos em tecnologia, reduzindo a dependência da venda de mercadorias tradicionais.
O movimento reúne setores que o governo chinês passou a chamar de “próximos três novos”. A expressão foi utilizada pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Yin Hejun, durante uma reunião sobre políticas públicas voltadas ao desenvolvimento de alta qualidade e ao bem-estar da população, conforme informou o Global Times.
A classificação engloba a inteligência artificial, a robótica e os medicamentos inovadores. As três áreas são tratadas por Pequim como potenciais motores de crescimento econômico, avanço científico e expansão internacional das empresas chinesas.
A estratégia representa uma mudança em relação aos ciclos anteriores da industrialização do país. Durante décadas, a China ampliou sua presença no comércio mundial com produtos de menor custo, como roupas, móveis e eletrodomésticos — conjunto conhecido como os “três antigos”.
Mais recentemente, veículos elétricos, baterias de lítio e equipamentos fotovoltaicos assumiram protagonismo nas vendas externas. Apelidados de “novos três”, esses produtos simbolizaram a transição da pauta exportadora chinesa para segmentos tecnológicos, de maior valor agregado e relacionados à economia de baixo carbono.
Em 2025, as exportações dos “novos três” aproximaram-se de 1,3 trilhão de yuans, o equivalente a cerca de US$ 192 bilhões. O montante foi 3,5 vezes superior ao registrado em 2020.
Inteligência artificial amplia participação internacional
A nova fase pretende avançar da exportação de equipamentos físicos para a oferta de tecnologia, conhecimento especializado e serviços integrados. Na inteligência artificial, a expansão inclui desenvolvimento de algoritmos, criação de grandes modelos de linguagem e implantação de agentes inteligentes.
Dados da plataforma OpenRouter indicam que os grandes modelos chineses processaram 36,11 trilhões de tokens entre 13 e 19 de julho. O volume cresceu 30,93% em relação ao mês anterior e manteve uma sequência de oito semanas de expansão.
Parte dessa atividade, no entanto, não aparece integralmente nas estatísticas convencionais de comércio exterior. Serviços digitais, licenças de tecnologia e desenvolvimento de sistemas são mais difíceis de contabilizar do que automóveis, baterias ou painéis solares embarcados nos portos.
A internacionalização também envolve projetos de infraestrutura. No Oriente Médio, empresas chinesas estabeleceram parcerias com grupos locais para instalar estruturas de inteligência artificial equipadas com sistemas de resfriamento líquido de alta densidade. O objetivo é atender à expansão dos centros de dados e apoiar a diversificação digital de economias historicamente ligadas ao setor energético.
Na Europa, companhias chinesas trabalharam com equipes da Sérvia para incorporar idiomas locais a sistemas inteligentes de tradução e prestação de serviços. A iniciativa busca ampliar o alcance dessas tecnologias para além das línguas predominantes nas grandes plataformas digitais.
Exportações de robôs chegam a 141 mercados
A robótica aparece como o braço mais diretamente associado à capacidade industrial acumulada pela China. No primeiro semestre de 2026, as exportações chinesas do setor alcançaram 6,29 bilhões de yuans e chegaram a 141 países e regiões.
Os robôs cirúrgicos de alta tecnologia tiveram um dos desempenhos mais expressivos. O volume exportado foi 3,3 vezes maior do que no mesmo período do ano anterior.
A oferta internacional não se limita às máquinas. Segundo o texto publicado pelo Global Times, as soluções chinesas combinam equipamentos, dados, algoritmos, sistemas operacionais e aplicações adaptadas às atividades dos compradores.
Esse modelo permite que as empresas comercializem projetos completos, incluindo instalação, programação e suporte tecnológico. A mudança eleva o valor dos contratos e cria relações comerciais mais duradouras do que a simples venda de componentes.
Medicamentos inovadores movimentam US$ 110 bilhões
A indústria farmacêutica é o terceiro eixo da estratégia. As transações de licenciamento internacional de tecnologias desenvolvidas por empresas chinesas alcançaram US$ 110 bilhões no primeiro semestre de 2026.
Companhias do país participaram de oito dos dez maiores acordos mundiais de licenciamento farmacêutico no período, de acordo com os dados reproduzidos pela publicação.
A atuação internacional do setor passou a abranger diferentes etapas da cadeia de desenvolvimento. Além dos medicamentos concluídos, as empresas negociam tecnologias relacionadas à identificação de alvos terapêuticos, aos testes clínicos e ao registro dos produtos em mercados estrangeiros.
O licenciamento permite que uma farmacêutica estrangeira desenvolva ou comercialize determinada terapia mediante pagamento e cumprimento de condições contratuais. Para a China, esses acordos representam uma forma de converter pesquisa científica em receitas internacionais sem depender exclusivamente da exportação de remédios acabados.
Serviços tecnológicos ganham espaço no comércio chinês
A expansão das três áreas ocorre paralelamente ao crescimento do comércio de serviços. Entre janeiro e maio de 2026, o fluxo total desse segmento aumentou 6% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
No intervalo, o déficit chinês no comércio de serviços caiu aproximadamente 20%. As exportações de atividades intensivas em conhecimento avançaram 12,2%, indicando maior participação de soluções tecnológicas e profissionais na pauta externa do país.
Na América do Sul, plataformas chinesas de mobilidade ajudaram a expandir serviços como transporte de passageiros por motocicleta e entregas solicitadas pela internet. A atuação ilustra como modelos de negócios criados ou desenvolvidos por companhias chinesas estão sendo adaptados às características dos mercados locais.
O avanço da inteligência artificial, da robótica e da indústria farmacêutica ocorre em meio a tensões comerciais, restrições tecnológicas e disputas geopolíticas. Nesse cenário, Pequim tenta fortalecer sua autonomia científica, ampliar a presença de suas empresas no exterior e deslocar parte de sua economia para atividades de maior valor agregado.
A consolidação dos “próximos três novos”, porém, dependerá da capacidade chinesa de transformar investimentos em pesquisa em produtos competitivos, obter aprovações regulatórias internacionais e manter acesso aos mercados estrangeiros. O resultado dessa estratégia indicará até que ponto o país conseguirá repetir, nos serviços tecnológicos, a projeção global anteriormente conquistada na indústria de bens físicos.
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