CNT apresenta agenda aos presidenciáveis e defende investimentos de R$ 2,03 trilhões em transportes – Veja sistemas potenciais
Fonte: diariodotransporte.com.br | Data: 26/07/2026 20:01:14
Publicado em: 26 de julho de 2026

Corredores de ônibus, sistemas de trilhos e descarbonização estão entre os focos para melhorar a mobilidade em médias e grandes cidades e regiões metropolitanas
ADAMO BAZANI
A Confederação Nacional do Transporte (CNT) vai entregar aos candidatos à Presidência da República uma agenda com dez eixos considerados pela entidade estratégicos para o desenvolvimento da infraestrutura e da mobilidade no Brasil.
O principal destaque do documento é a defesa de investimentos de R$ 2,03 trilhões em obras e projetos de transporte, valor que, segundo CNT, seria necessário para reduzir gargalos históricos, aumentar a competitividade da economia e melhorar a qualidade dos serviços prestados à população.
O documento, denominado “O Transporte Move o Brasil”, começa a ser encaminhado aos presidenciáveis nesta segunda-feira (27) e também será apresentado durante o Fórum CNT de Debates, previsto para agosto, quando a entidade pretende reunir os candidatos mais bem posicionados nas pesquisas eleitorais.
BRTs, corredores de ônibus, sistemas de trilhos e descarbonização ganham força na agenda
Entre os exemplos estão a implantação e ampliação de corredores comuns exclusivos de ônibus e corredores de ônibus de alta capacidade e alta velocidade (BRTs – Bus Rapid Transit), faixas segregadas municipais e sistemas de ônibus de média e alta capacidade nas regiões metropolitanas, ligando municípios vizinhos dentro de uma mesma região.
randes cidades ainda possuem eixos viários saturados que poderiam receber infraestrutura exclusiva, reduzindo o tempo de viagem, aumentando a velocidade operacional e diminuindo custos para operadores e passageiros.
Outro ponto seria a renovação da frota.
Programas federais como o Novo PAC e linhas de financiamento do FGTS já preveem recursos para ônibus elétricos e de baixa emissão, mas representantes do setor afirmam que ainda há dificuldades para obtenção de crédito, principalmente em razão dos juros elevados e das garantias exigidas pelas instituições financeiras.
Uma política nacional permanente de financiamento poderia acelerar a substituição de milhares de ônibus a diesel por veículos elétricos ou movidos a combustíveis menos poluentes.
As vantagens não somente ambientais, mas econômicas, com a redução dos custos operacionais e de manutenção, dos gastos em saúde pública ligados a poluição e a maior atratividade que os ônibus elétricos têm, por oferecerem mais conforto, também devem ser considerados na pauta de investimentos.
No transporte metropolitano, os investimentos poderiam impulsionar a expansão das redes de metrô, trens metropolitanos e VLTs, além da modernização de sistemas já existentes. Há diversos projetos em diferentes estágios de planejamento ou execução que demandam recursos vultososProjetos de mobilidade urbana e metropolitana que poderiam ganhar impulso
Caso um programa nacional de investimentos da ordem de R$ 2,03 trilhões venha a ser implementado ao longo dos próximos anos, diversos projetos de transporte coletivo poderiam ser acelerados ou viabilizados em todo o país.
Redes de metrô e trens metropolitanos
Entre os empreendimentos de maior porte estão:
- Linha 19-Celeste do Metrô de São Paulo, ligando o centro da capital a Guarulhos;
- Conclusão da expansão da Linha 2-Verde, entre Vila Prudente, Penha e, futuramente, Guarulhos;
- Ampliação da Linha 5-Lilás, até Jardim Ângela;
- Expansão da Linha 4-Amarela, em direção a Taboão da Serra;
- Modernização e ampliação da CPTM, incluindo segregação de vias, novos sistemas de sinalização e estações;
- Trem Intercidades (TIC) São Paulo–Campinas e futuras ligações para Sorocaba e São José dos Campos;
- Ampliação do Metrô de Belo Horizonte, incluindo novas estações e extensão da Linha 1;
- Expansão do Metrofor, em Fortaleza, com novos trechos das Linhas Leste e Oeste;
- Ampliação do Metrô do Recife, modernização de material rodante e sinalização;
- Modernização dos trens urbanos de Porto Alegre (Trensurb);
- Projetos ferroviários metropolitanos em Curitiba, integrados à Rede Integrada de Transporte.
Veículos Leves sobre Trilhos (VLTs)
Também poderiam ser contemplados projetos como:
- VLT de Salvador, que reutiliza parte da antiga ferrovia do Subúrbio Ferroviário;
- Ampliação do VLT da Baixada Santista, conectando novos municípios da Região Metropolitana;
- Expansões do VLT do Rio de Janeiro, integrando novas áreas do Centro e da Região Portuária;
- Modernização do VLT de Cuiabá, caso o projeto volte à pauta;
- Estudos para implantação de novos VLTs em capitais como Goiânia, Brasília, Joinville e Florianópolis.
Corredores exclusivos de ônibus e BRTs
Na infraestrutura para ônibus, os investimentos poderiam acelerar:
- BRT ABC Paulista, ligando São Bernardo do Campo, Santo André, São Caetano do Sul e a Capital;
- Novos corredores estruturais em São Paulo, previstos no Plano de Mobilidade, como BRT Aricanduva e o BRT Radial Leste;
- Corredores Norte e Leste de Manaus, atualmente em fase de projetos;
- Expansão do sistema MOVE, em Belo Horizonte;
- Ampliação do BRT TransOeste, TransBrasil e TransCarioca, no Rio de Janeiro;
- Novos corredores metropolitanos da EMTU, na Grande São Paulo;
- Expansão dos corredores de Campinas, integrando cidades da Região Metropolitana;
- Corredores metropolitanos de Goiânia, com integração aos municípios vizinhos;
- Ampliação do BRT de Brasília, incluindo novas ligações para cidades do Entorno;
- Novos corredores em Curitiba, complementando a tradicional Rede Integrada de Transporte;
- Expansão do BRT de Belém, associada às obras de mobilidade da COP30;
- Corredores estruturantes em Fortaleza, Recife, Salvador, João Pessoa, Natal e Aracaju, muitos já previstos nos respectivos planos diretores de mobilidade.
Eletrificação da frota
Outro segmento que poderia absorver parte significativa dos investimentos é a transição energética do transporte coletivo. Diversas capitais possuem programas em andamento ou em planejamento para aquisição de ônibus elétricos, construção de eletroterminais, reforço das redes de distribuição de energia e implantação de sistemas inteligentes de recarga.
São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte, Salvador, Brasília, Porto Alegre, Campinas, São José dos Campos, Goiânia, Vitória e outras cidades já possuem projetos em diferentes fases para ampliar a participação de ônibus de emissão zero.
O Diário do Transporte mostrou que o ENMU (Estudo Nacional de Mobilidade Urbana), que levantou as condições de transportes das 21 maiores regiões metropolitanas do Brasil com uma milhão ou mais de moradores revelou que ônibus elétricos podem trazer diversos benefícios econômicos para estes conglomerados urbanos.
O trabalho, desenvolvido pelo Ministério das Cidades e BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) ainda mostra que, apesar de a eletrificação se mostrar promissora no Brasil, a necessidade de importação de baterias para alguns modelos e a infraestrutura limitada ainda são desafios a serem superados. A dependência externa no setor ferroviário também preocupa.
Obras também incluem terminais e integração
Especialistas destacam que a modernização da mobilidade urbana não depende apenas da compra de veículos ou da construção de corredores. Também seriam necessários investimentos em terminais urbanos e metropolitanos, estações de integração, passarelas, acessibilidade, centros de controle operacional (CCOs), sistemas de prioridade semafórica para ônibus, bilhetagem eletrônica interoperável, infraestrutura para recarga elétrica e sistemas de informação ao passageiro em tempo real.
Esse conjunto de intervenções tende a aumentar a velocidade comercial dos ônibus, reduzir tempos de viagem, integrar diferentes modais e tornar o transporte coletivo mais competitivo em relação ao automóvel particular, um dos objetivos defendidos pela CNT ao propor uma política nacional de investimentos em infraestrutura.
Menor custo logístico também beneficia o transporte coletivo
Além das obras diretamente voltadas aos passageiros, investimentos em rodovias, pontes, viadutos e acessos urbanos também trazem ganhos indiretos ao transporte coletivo. Corredores menos congestionados reduzem o tempo de deslocamento dos ônibus, diminuem o consumo de combustível, reduzem os custos de manutenção da frota e aumentam a confiabilidade das viagens.
Especialistas do setor costumam destacar que infraestrutura viária de qualidade e transporte coletivo eficiente não são políticas concorrentes, mas complementares. Uma rede integrada entre ônibus urbanos, metropolitanos, BRTs, metrôs, trens metropolitanos e VLTs tende a ampliar a mobilidade da população, reduzir emissões de poluentes e aumentar a produtividade das cidades.
Esse enfoque aproxima a agenda da CNT de discussões que já vêm sendo conduzidas pelo Governo Federal por meio do Novo PAC, do FGTS para mobilidade urbana e de programas estaduais de expansão das redes metroferroviárias e de corredores de ônibus.
Transporte como pauta de Estado
A proposta da CNT procura colocar a infraestrutura de transportes no centro da agenda econômica do próximo governo. A avaliação da entidade é que o setor deixou de receber investimentos compatíveis com as necessidades do país ao longo das últimas décadas, comprometendo a produtividade da economia, elevando custos logísticos e reduzindo a competitividade brasileira.
Além do volume de investimentos, a CNT defende:
- recomposição do orçamento público destinado à infraestrutura de transportes;
- maior integração entre os modais rodoviário, ferroviário, hidroviário, portuário e aeroportuário;
- ampliação das fontes privadas de financiamento para concessões e parcerias público-privadas (PPPs);
- fortalecimento da segurança jurídica para atrair investidores;
- continuidade de políticas públicas de longo prazo, independentemente das mudanças de governo.
Reflexos para o transporte de passageiros
Embora a CNT represente diversos segmentos do transporte, incluindo cargas e logística, boa parte das propostas também afeta diretamente o transporte coletivo urbano e o transporte rodoviário interestadual de passageiros.
Nos últimos anos, operadores de ônibus têm apontado dificuldades para ampliar investimentos devido ao elevado custo do crédito, à insegurança regulatória em alguns mercados e à necessidade de renovação das frotas, especialmente diante das metas de descarbonização.
No transporte rodoviário interestadual, por exemplo, o setor ainda acompanha discussões regulatórias envolvendo a abertura de novos mercados pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), enquanto empresas também enfrentam desafios relacionados ao financiamento de veículos novos e à modernização operacional.
Já no transporte urbano, governos municipais e estaduais buscam recursos para acelerar programas de eletrificação das frotas, implantação de corredores exclusivos e renovação da infraestrutura de terminais e garagens.
Investimento privado ganha protagonismo
Outro eixo importante do documento é a ampliação da participação da iniciativa privada.
A CNT defende que o próximo governo fortaleça mecanismos capazes de ampliar os investimentos privados em infraestrutura, especialmente por meio de concessões e PPPs, reduzindo a dependência exclusiva dos recursos orçamentários da União.
Segundo a entidade, a previsibilidade regulatória e a estabilidade institucional são fatores fundamentais para aumentar o interesse dos investidores e permitir que grandes projetos saiam do papel com maior rapidez.
Plano amplia projeções anteriores
A defesa de R$ 2,03 trilhões representa uma atualização significativa das estimativas apresentadas pela CNT em estudos anteriores.
Há pouco mais de uma década, o Plano CNT de Transporte e Logística estimava necessidade de aproximadamente R$ 1 trilhão para obras prioritárias. Com a atualização dos estudos, a entidade praticamente dobra o volume considerado necessário, refletindo tanto o aumento dos custos das obras quanto a ampliação da carteira de projetos considerados estratégicos para o desenvolvimento nacional.
Para a CNT, o desafio do próximo presidente será transformar essas propostas em uma política permanente de investimentos, capaz de reduzir o déficit histórico da infraestrutura brasileira e elevar a eficiência do sistema nacional de transportes.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes