Agricultura regenerativa ganha força e seguro desponta como acelerador da transição
Fonte: insurancecorp.com.br | Data: 28/07/2026 10:38:47
Produzir mais, preservando os recursos naturais e reduzindo a vulnerabilidade às mudanças climáticas, deixou de ser apenas uma agenda ambiental para se tornar uma estratégia de sobrevivência no agronegócio. Essa necessidade acelerou a busca por sistemas produtivos mais resilientes. Estudo internacional da Soil Capital mostra que propriedades conduzidas com práticas regenerativas sofreram perdas de produtividade de apenas 8% durante episódios severos de seca, enquanto lavouras convencionais registraram reduções de 22%, evidenciando maior capacidade de enfrentar o estresse hídrico.
No Brasil, pesquisas conduzidas pela Embrapa reforçam esse potencial. Durante a seca que atingiu o Centro-Sul na safra 2021/22, áreas classificadas com nível de manejo 1, que apresentam menor qualidade de manejo do solo, conforme nova classificação do Zarc NM – (Níveis de Manejo), registraram perdas de até 90% do potencial produtivo. Em propriedades vizinhas enquadradas no nível de manejo 4, caracterizadas por práticas mais conservacionistas e maior saúde do solo, as perdas ficaram em torno de 20%. Os resultados evidenciam como o investimento na qualidade do solo aumenta a resiliência das lavouras e reduz a exposição ao risco climático, um diferencial que começa a ser incorporado também na precificação do seguro rural.
Ao reconhecer tecnicamente que propriedades com boas práticas agrícolas apresentam menor exposição ao risco climático, o mercado segurador começa a transformar a sustentabilidade em vantagem econômica. Na BB Seguros, produtores que participam do projeto-piloto desenvolvido no âmbito do Consórcio Reg.IA já conseguem contratar seguro agrícola com redução média próxima de 50% no custo da apólice e coberturas entre 30% e 40% superiores às oferecidas em sistemas convencionais.
Na mesma linha, as políticas públicas vão nesta direção incentivando a transição e adaptação dos sistemas produtivos. O Ministério da Agricultura no âmbito do PSR – Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, regulamentou diferenciais de subvenção ao prêmio do seguro agrícola para produtores classificados entre níveis de manejo 2 a 4, dentro do Zarc NM. Para cada avanço no nível de manejo o produto se habilita a acessar 5 p.p adicionais de subvenção, reduzindo o custo de aquisição do seguro. Dessa forma, um produtor de soja, por exemplo, que após avaliação se classifique como ZARC nível de manejo 4, terá 40% de redução no custo de aquisição de um seguro agrícola.
“O seguro rural sempre foi um instrumento de proteção financeira. Agora, ele passa também a estimular a transição para modelos produtivos mais resilientes. Quanto maior a capacidade de mensurar práticas regenerativas e seus impactos na redução do risco, melhor conseguimos precificar o seguro e reconhecer essas propriedades”, afirma Paulo Hora, Superintendente de Agro e Resseguros da Brasilseg.
Segundo o executivo, a adoção de práticas como rotação de culturas, manutenção de plantas de cobertura, aumento da matéria orgânica do solo e melhoria da fertilidade reduzem a volatilidade da produção diante de eventos climáticos extremos, permitindo condições mais favoráveis de contratação do seguro. “Hoje já conseguimos observar propriedades que aplicam essas práticas apresentando menor frequência de perdas e maior estabilidade produtiva. Isso torna possível oferecer coberturas mais amplas e custos menores para quem investe na saúde do solo”, explica.
Essa visão também é compartilhada por quem está no campo. A produtora rural Dulce Turchi afirma que a agricultura regenerativa foi incorporada à propriedade do Mato Grosso muito antes de o tema ganhar espaço no debate público. Ao longo de quase quatro décadas de atuação, a fazenda passou a adotar gradualmente práticas como plantio direto, rotação de culturas, integração lavoura-pecuária-floresta, manejo integrado de pragas, agricultura de precisão e uso de bioinsumos.
“Não adotamos essas práticas porque eram tendência ou para conquistar certificações. Fizemos isso porque era a única maneira de garantir a continuidade do nosso negócio. Agricultura regenerativa, para nós, sempre foi uma estratégia inteligente de produção”, afirma.
Segundo Dulce, o maior benefício aparece justamente quando o clima deixa de colaborar. “O nosso maior patrimônio é o solo. Quando ele está saudável, consegue armazenar mais água, suporta melhor períodos de estiagem e reduz os impactos dos eventos extremos. Essa é a verdadeira segurança da produção”, destaca a produtora que reforça um dos principais desafios discutidos atualmente pelo setor: transformar os benefícios agronômicos das práticas regenerativas em benefícios econômicos para o produtor e cita as seguradoras, indústria, instituições financeiras, investidores e políticas públicas como agentes que podem atuar de forma integrada para reconhecer esse esforço e acelerar essa transição.
O avanço da agricultura regenerativa representa uma oportunidade para tornar o sistema de gestão de riscos do agronegócio mais eficiente. Além de proteger o fluxo de caixa do produtor diante de perdas causadas pelo clima, o seguro também contribui para manter investimentos, facilitar o acesso ao crédito e acelerar a recuperação da atividade após eventos extremos.
FSB Comunicação