O clima também é hostil à saúde mental
Fonte: gauchazh.clicrbs.com.br | Data: 29/07/2026 18:25:51
Os vídeos dos tornados no final da tarde de terça-feira no noroeste do Estado impressionam não apenas pelas imagens. Os áudios da reação das pessoas que testemunharam e filmaram o fenômeno se aproximando de suas casas, pedindo que uma intervenção divina desviasse a rota da coluna escura de vento que girava em fúria destruidora, potencializam a dramaticidade das cenas. Nesta quarta-feira (29) foi possível ver o rastro de devastação, com casas e galpões reduzidos a escombros, grandes árvores arrancadas pela raiz, máquinas agrícolas retorcidas e animais mortos.
Apesar da desolação e dos prejuízos significativos, nenhuma vida humana foi perdida. Mas o abalo emocional de quem se viu na mira de uma das manifestações mais violentas da natureza por certo não pode ser subestimado. O episódio reforça a importância de uma atenção especial também para a saúde mental dos atingidos por tragédias climáticas. Muitos, pela condição social e por habitarem áreas de risco, são vítimas recorrentes do tempo severo e de suas consequências. Não há como passar incólume por uma rotina com tanta incerteza. O apoio psicológico após tamanhos traumas é tão relevante quanto a solidariedade material e o apoio financeiro para a reconstrução e a reposição de bens perdidos.
Pouco mais de dois anos após a enchente histórica de 2024, o Estado volta a ser atingido por uma onda de eventos climáticos extremos, influenciada por um novo El Niño, que pode ser um dos mais potentes já registrados. Desde a semana passada, diversas regiões gaúchas passaram por cheias, chuvas torrenciais, precipitações de granizo, ventanias de 100 km/h e, agora, tornados. Em regiões como as dos vales do Taquari, do Caí, do Paranhana e do Sinos, os rios voltaram a transbordar e residências tornaram a ser invadidas pelas águas. Coberturas e telhados foram pelos ares com rajadas de vento. Pedras de gelo causaram perdas na produção. São situações que se repetem, com grande possibilidade de continuarem a ocorrer, em especial nesta primavera, quando o El Niño costuma mostrar mais a sua força.
Uma pesquisa publicada neste ano pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) constatou as marcas na saúde mental dos atingidos pela tragédia de 2024. No público acompanhado, as enchentes tiveram relação com um excesso de 77% em casos de ansiedade e de 129% nos sintomas de depressão. Os mais afetados por sofrimentos psicológicos foram de grupos vulneráveis, como os que se viram forçados a sair de casa. Como são pessoas com menos recursos financeiros, necessitam do apoio do poder público, como o oferecido pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), vinculados ao SUS, ou por projetos de extensão de universidades. Ainda tornou-se mais conhecido nos últimos anos o termo ecoansiedade, que define também o sentimento de angústia relatado por muitos gaúchos pelos traumas das chuvas.
Está em tramitação na Câmara um projeto de lei que cria uma política nacional para cuidar da saúde mental de afetados por desastres ambientais e climáticos. Faz sentido que, diante da perspectiva de maior recorrência de eventos extremos, o apoio psicossocial também integre o planejamento de adaptação ao novo normal do planeta.