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Herdeiros da Ray-Ban: briga entre irmãos ameaça império de US$ 46 bilhões

Fonte: investnews.com.br | Data: 30/07/2026 17:40:39

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“Um conflito elevado entre os herdeiros dentro da Delfin pode colocar em risco o patrimônio de Leonardo Del Vecchio e seu legado industrial”, afirmou Roberta Crivellaro, sócia-gerente do escritório de advocacia Withers na Itália, especializada em planejamento sucessório e compra de participações familiares. Segundo ela, olhando em retrospectiva, colocar todos os herdeiros em igualdade de condições, apesar de interesses diferentes e grande diferença de idade, “foi um erro”.

Menos patrimônio para dividir

No início deste ano, o emaranhado de disputas parecia caminhar para uma solução. Leonardo Maria, quarto dos seis filhos do magnata dos óculos, ofereceu comprar as participações de dois irmãos, Luca e Paola.

O plano de € 10 bilhões daria a Leonardo Maria uma fatia de 37,5% da empresa familiar e abriria caminho para concluir a sucessão do pai. A proposta foi aprovada em uma votação da família em abril, mas depois perdeu força.

A queda das ações da EssilorLuxottica, dona da Ray-Ban e parceira da Meta Platforms no desenvolvimento de óculos inteligentes com inteligência artificial, complicou o financiamento da operação ao reduzir o valor dos ativos da Delfin.

Leonardo Maria, de 31 anos, também tentou incluir cerca de € 1 bilhão de sua dívida existente no pacote, e o conselho dividido da Delfin não se comprometeu a garantir a operação caso ele não conseguisse cumprir o acordo.

As ações da EssilorLuxottica, que caíram 2,1% na quarta-feira após a companhia divulgar vendas do segundo trimestre abaixo das expectativas dos analistas, estão 49% abaixo do pico registrado em novembro, quando o otimismo dos investidores com a parceria de óculos de IA estava no auge. A queda no valor de mercado representa uma redução de € 23,4 bilhões no maior ativo individual do portfólio da família Del Vecchio.

Depois de demonstrar insatisfação com o conselho da Delfin, Leonardo Maria reorganizou sua estratégia. Ele reformulou a administração da sua holding LMDV Capital e trabalha em um refinanciamento de € 1,1 bilhão com a Apollo Global Management. Pelos termos em discussão, a linha poderia ser ampliada futuramente para € 10 bilhões, dando liquidez para eventuais alternativas, segundo pessoas próximas às negociações.

As conversas continuam em torno de uma alternativa: separar a participação principal em óculos dos investimentos em bancos e seguradoras, que poderiam ser vendidos para levantar recursos para os familiares ou reorganizar a Delfin.

A proposta foi apresentada pelo meio-irmão de Leonardo Maria, Rocco Basilico, mas enfrenta resistência interna, já que alguns membros da família não querem vender investimentos financeiros da Delfin enquanto o setor bancário italiano passa por uma onda de consolidação. A família busca contratar um consultor externo experiente para mediar o conflito e encontrar um acordo.

O império construído por Del Vecchio

Leonardo Del Vecchio fundou a Luxottica em 1961 e transformou a companhia na maior fabricante mundial de óculos e armações. Em 2018, ele fundiu a empresa italiana com a francesa Essilor, criando um grupo verticalizado que reúne desenvolvimento, design, fabricação e lojas de varejo como a LensCrafters.

Seu testamento tinha como objetivo manter a união entre os herdeiros: seis filhos de três mães diferentes, atualmente com idades entre 22 e 69 anos; sua viúva Nicoletta Zampillo, de 68 anos; e Basilico, filho dela de outro casamento.

Cada um recebeu uma participação de 12,5% na Delfin, mas nenhum deles ficou no comando. Francesco Milleri, braço direito de Del Vecchio, tornou-se presidente e CEO da EssilorLuxottica e presidente da Delfin, enquanto Romolo Bardin permaneceu como CEO da holding familiar.

A exigência de quase unanimidade para decisões importantes criou um obstáculo para uma família já dividida, e os próprios conselheiros também tiveram divergências. A Delfin recusou comentar o caso.

“A estrutura deixada por ele obriga os herdeiros a buscar consenso sem oferecer uma saída clara caso o consenso fracasse”, disse Alessandro Minichilli, professor de governança corporativa e empresas familiares da Universidade Bocconi, em Milão. “Poder de decisão igualitário em uma empresa pode facilmente se transformar em poder de veto.”

Os investimentos financeiros da Delfin somam cerca de € 16 bilhões e dão à família influência que vai além dos negócios, alcançando a economia e a política italiana. O principal ativo é a participação na Assicurazioni Generali, uma das maiores seguradoras da Europa, além de investimentos no UniCredit e no Monte dei Paschi, banco no centro da recente onda de negociações do setor financeiro italiano.

As participações financeiras aumentaram de valor desde a morte de Del Vecchio. A Delfin construiu uma posição no Monte dei Paschi, ampliou sua participação na Mediobanca e apoiou a tentativa de aquisição do banco no ano passado. Promotores de Milão investigam a suposta coordenação de Milleri na operação com outro investidor poderoso, o bilionário italiano Francesco Gaetano Caltagirone. Ambos negam irregularidades.

A Delfin possui 17,5% do Monte dei Paschi, participação que subiu 23% neste ano enquanto Intesa Sanpaolo e Banco BPM disputam planos para combinar operações com o banco de Siena.

Segundo Fabio Caldato, gestor de portfólio da italiana AcomeA, os investimentos financeiros criaram valor para a família Del Vecchio. Porém, ele acredita que as diferenças de opinião entre os herdeiros podem se intensificar justamente porque esses ativos podem ser complexos de vender no curto prazo.

Rivalidade entre os herdeiros

Os principais antagonistas dentro da família são Leonardo Maria e seu meio-irmão Rocco Basilico, de 36 anos. Leonardo Maria é diretor de estratégia da EssilorLuxottica, enquanto Basilico, que mora em Los Angeles, era diretor de wearables e responsável pela marca Oliver Peoples antes de deixar a empresa neste ano. Ele é creditado por aproximar Leonardo Del Vecchio de Mark Zuckerberg, CEO da Meta, levando à parceria dos óculos inteligentes com IA.

Leonardo Maria reuniu investimentos em luxo, tecnologia e mídia, incluindo a água mineral Acqua Fiuggi, a Leone Film Group e a rede de jornais QN Media.

Ele também é investigado por um acidente ocorrido em 2025 com sua Ferrari Purosangue em Milão. Os promotores analisam se outra pessoa se apresentou como motorista. Del Vecchio negou irregularidades e afirmou em entrevista que deixou o local apenas depois de verificar que ninguém havia se ferido e que a polícia estava a caminho.

Enquanto a disputa continua, qualquer mudança na estrutura da família dependerá de aprovação judicial em Luxemburgo, onde a Delfin está sediada. Pelo menos cinco dos oito herdeiros já solicitaram transferências de suas participações individuais para holdings pessoais, o que pode abrir caminho para operações familiares ou uma reestruturação.

A sucessão tornou-se um tema relevante para empresas familiares na Itália. Transições geracionais devem ocorrer em mais de um terço das empresas familiares do país na década até 2034, segundo a associação empresarial familiar Aidaf.

Leonardo Maria citou como exemplo de transição bem-sucedida o caso de Silvio Berlusconi, ex-primeiro-ministro italiano morto em 2023, que colocou seus dois filhos mais velhos, Marina e Pier Silvio, no comando dos negócios da família. Mas, sobre os Del Vecchio, afirmou: “a diferença de idade e os três grupos diferentes adicionam uma camada de complexidade”.