Admirável mundo híbrido: as telas nos anestesiaram, e a Geração Z é o antídoto.
Fonte: jornalvisaodenegocios.com.br | Data: 03/08/2026 03:01:32
No último sábado, no Adapta Summit, ouvi Lucas Rizzotto (@_lucasrizzotto) descrever uma coisa que me fez pensar em Aldous Huxley na mesma hora. Rizzotto, um inventor e diretor brasileiro que hoje vive em Nova York, está transformando salas de cinema em jogos. Em vez de assistir a uma história em silêncio, a plateia inteira joga junta, no mesmo espaço, ao mesmo tempo. Um cinema que você não apenas vê, mas participa com o corpo.

Quem leu “Admirável Mundo Novo” talvez tenha sentido o mesmo arrepio que eu senti ali. Em 1932, Huxley imaginou os “feelies”, que as traduções brasileiras chamam de “sensíveis”: filmes que o público não assistia, sentia. Uma experiência que tocava todos os sentidos ao mesmo tempo. No livro, isso era parte de um pesadelo, uma civilização anestesiada pelo próprio prazer. Rizzotto pegou quase a mesma ideia e virou do avesso. É essa inversão que eu quero explorar aqui, porque ela diz muito sobre onde a relação entre empresas, marcas e pessoas está indo.

Pra chegar lá, vale recuar e olhar o caminho que a gente percorreu.
Durante quase toda a história, o mundo foi intensamente físico. Experiência era o corpo num lugar. Comprar era ir até a loja. Conversar era estar na frente do outro. Aprender era ocupar a mesma sala que alguém. A presença era a única forma disponível, com todo o peso e todo o limite que isso trazia. Escalava mal, mas tinha densidade. Você sentia o peso das coisas. Aí veio a migração para as telas, e ela foi radical. Em poucas décadas, transferimos trabalho, afeto, consumo, política e lazer para dentro de um retângulo iluminado. E aqui o Huxley fica quase profético.
Ele imaginou uma sociedade organizada em torno do conforto e do estímulo, onde as pessoas eram mantidas felizes e dóceis por doses constantes de prazer. O soma, a droga que dissolvia qualquer desconforto. Os sensíveis, o entretenimento que preenchia todos os sentidos para que ninguém precisasse pensar. O que assustava em Huxley era sutil: a possibilidade de a humanidade aprender a amar aquilo que a diminui, sem nunca precisar de um tirano batendo à porta.
Neil Postman resumiu isso melhor que ninguém quando comparou Huxley e Orwell. Orwell temia quem fosse nos proibir das coisas. Huxley temia que não sobrasse nada que valesse a pena proibir, porque estaríamos entretidos demais para notar. O feed infinito, o scroll que não termina, a próxima notificação. A gente construiu o próprio soma, e ele cabe no bolso.
E é aqui que entra a virada que eu observo todos os dias trabalhando com gerações. A geração mais nativa das telas é justamente a que está puxando o freio. A Geração Z, que cresceu dentro do digital, ficou nostálgica de um mundo que mal chegou a viver. Câmeras de filme, telefones burros que só ligam e mandam mensagem, clubes de corrida, clubes de leitura, festas que recolhem o celular na entrada, fins de semana em modo avião. Um movimento inteiro de gente jovem tentando, de propósito, ficar sem tela.

Se você olhar de perto, essa geração está fazendo o papel do Selvagem de Huxley. No livro, John é o personagem que rejeita o conforto anestesiante e reivindica o direito ao desconforto, à intensidade, à experiência real, mesmo que doa. Durante décadas, isso soou como loucura romântica. Hoje é o comportamento de consumo de milhões de jovens que sentiram, no próprio corpo, o custo de viver só na tela.
Só que a resposta dessa geração raramente é largar a tecnologia e voltar para a caverna. É outra coisa, mais interessante: recombinar. Pegar o melhor do físico, o corpo, a presença, o encontro, e o melhor do digital, a escala, a interação, a mágica, e fundir os dois. É o que hoje a gente chama de figital, ou híbrido.
E é exatamente aqui que o trabalho do Rizzotto ilumina o caminho. Ele pega os sensíveis de Huxley, aquele cinema total que no livro servia para sedar, e usa para fazer o oposto: reunir estranhos numa mesma sala, com o celular virando instrumento de conexão em vez de isolamento, todo mundo presente, jogando junto, vivendo uma história com o próprio corpo. A ferramenta é quase a mesma que Huxley temia. A intenção é o avesso.
Para empresas e marcas, essa é a parte que interessa de verdade.
Já escrevi aqui que o offline virou o novo online (LER ARTIGO). O figital é o passo seguinte dessa ideia, o modo de operação. O híbrido, bem feito, devolve a densidade sem abrir mão da escala. Uma loja que também é experiência. Uma comunidade digital que se encontra offline. Um evento presencial que ganha uma camada digital e vira memória compartilhada. Marcas que entendem isso deixam de disputar apenas a atenção no feed e passam a disputar algo muito mais difícil de copiar: a lembrança de um momento vivido.
Porque é isso que o híbrido faz de melhor. Ele reintroduz o corpo, a sala, o coletivo, tudo aquilo que a tela sozinha não entrega, e ainda amplifica com o que a tecnologia tem de bom. A relação entre marca e pessoa fica mais forte porque volta a ser sentida no corpo.
Huxley escreveu um alerta sobre uma civilização que trocou o real pelo confortável e nem percebeu a troca. Quase um século depois, a gente está diante da chance de escrever um final diferente. A pergunta que fica para cada empresa, cada marca e cada um de nós é simples de fazer e difícil de responder: você está usando o digital para afastar as pessoas da experiência real, ou para devolvê-las a ela?
O admirável mundo híbrido ainda está sendo escrito, e dessa vez o roteiro depende de uma escolha nossa. Pela primeira vez em muito tempo, as novas gerações parecem estar apontando para o lado mais humano da história. Cabe às empresas decidir se vão junto.

Palestrante, comunicador e entusiasta das gerações. Estuda recursos humanos e empreende nas áreas de Comunicação e Marketing. Criou a primeira agência de marketing do Brasil focada em comunicação geracional (Pós Z Company), sediada em Bragança Paulista, onde atualmente só contrata colaboradores da Geração Z e Geração Alpha. Dedica-se a construir um ecossistema de comunicação geracional para preparar jovens para o mercado de trabalho futuro e conscientizar as empresas para receberem esses jovens com sua nova agenda e visão de mundo.