Juros, inflação e endividamento altos freiam efeitos do pacote de ‘bondades’ do governo
Fonte: estadao.com.br | Data: 05/08/2026 05:45:05
Juros x Inflação: Entenda a relação entre eles
Crédito: Larissa Burchard/Laís Nagayama
As medidas lançadas pelo governo para estimular a economia neste ano ampliaram a renda disponível das famílias, facilitaram o acesso ao crédito e reforçaram programas de investimento, mas encontraram um ambiente macroeconômico mais adverso do que o observado em períodos anteriores.
Em meio à manutenção da política de valorização do salário mínimo, ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e ao lançamento de uma série de programas de crédito e incentivo — como Gás do Povo, Brasil Soberano 2.0, reforço ao Minha Casa, Minha Vida, linhas para máquinas agrícolas, Move Brasil e novas etapas do Desenrola —, economistas avaliam que o impulso à demanda existe, mas perdeu potência diante dos juros elevados, do endividamento recorde e do repique recente da inflação.
A leitura predominante no mercado é que os estímulos não fracassaram. Eles continuam sustentando parte do consumo e da atividade, mas passaram a desempenhar um papel mais defensivo: impedir uma acomodação mais intensa da economia, e não provocar uma nova aceleração do crescimento. “O efeito mais provável é evitar uma desaceleração ainda mais pronunciada”, resume o economista Henrique Danyi, do Santander.
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De acordo com dados do Banco Central (BC), o comprometimento da renda das famílias, que representa, a grosso modo, a porcentagem de rendimento gasta com o serviço da dívida, bateu recorde neste ano, atingindo 28,5% em maio. Já o endividamento, embora estável nas últimas leituras, segue oscilando próximo do pico da série histórica, entre 49,8% e 49,9%, também segundo o BC.
Assim, após o Produto Interno Bruto (PIB) crescer 1,1% no primeiro trimestre de 2026, a expectativa do mercado é que a atividade tenha desempenhos bem mais modestos até o final do ano, com altas trimestrais seguintes projetadas entre 0,1% e 0,5%, consolidando a perda de tração da economia. Com isso, o País, que colecionou elevações do PIB acima de 3% entre 2022 e 2024, e viu o ritmo desacelerar para 2,3% no ano passado, deve encerrar 2026 com alta ainda menor, mais perto de 2%, ou abaixo disso, mesmo com a bateria de estímulos lançada em ano eleitoral.
O quadro deve romper com padrões recentes, em que o ritmo de crescimento da economia no ano da eleição presidencial é maior do que a média dos três anos anteriores, já que, costumeiramente, há um esforço do candidato incumbente em aquecer a economia e aumentar a popularidade do governo.

Economistas avaliam que medidas de estímulo à economia perderam potência diante dos juros elevados, do endividamento recorde e do repique recente da inflação
Foto: Fabio Motta/Estadão
Para o economista da XP Investimentos, Rodolfo Margato, os estímulos lançados neste ano contribuíram para sustentar o consumo e os investimentos, principalmente no primeiro trimestre, mas ele concorda que o impacto positivo poderia ser ainda maior, não fosse o cenário macro adverso. “Não são resultados muito fortes porque existem outros fatores em direção contrária: incertezas econômicas lá fora e aqui, juros e endividamento”, avalia ele.
Danyi, do Santander, acrescenta que, por mais que as linhas de crédito recentemente lançadas ajudem a sustentar a atividade, o caráter mais direcionado das iniciativas faz com que o impacto seja localizado e gradual. “Em um ambiente de juros básicos elevados, parte do estímulo concedido pelo crédito direcionado é compensada pelo encarecimento das demais modalidades de financiamento”, frisa. Com mais dívidas, as famílias passaram a sentir mais o impacto dos juros altos, complementa ele.
Matheus Pizzani, economista do PicPay, vai na mesma linha e ressalta que, por mais que os recentes programas de estímulo sejam direcionados a segmentos da população com alta propensão a consumir, esses consumidores veem sua demanda ser limitada por fatores conjunturais.
“Mesmo que o impulso fiscal estimado seja positivo e maior que o do ano passado, é necessário considerar o efeito deletério proveniente da parcela cada vez maior do endividamento sobre a renda das famílias, além da inflação concentrada em itens essenciais, como combustíveis e alimentação”, frisa.
Para Margato, da XP, o repique inflacionário é outro vetor que explica, em partes, os dados recentes mais fracos da atividade doméstica, sobretudo no comércio. Conforme apontou o IBGE, as vendas no varejo ampliado acumulam três quedas consecutivas entre março e maio.
“Houve surpresa negativa em categorias como supermercados e alimentos. Tivemos o chamado ‘efeito deflator’: o aumento da inflação, em virtude do choque global de energia, acabou corroendo o poder de compra”, detalha o economista.
Outro exemplo foi verificado no mercado de trabalho, na avaliação de Margato. Ele cita que os rendimentos reais do trabalho vinham crescendo de forma consistente há bastante tempo, depois entraram em estabilização e, em maio, enfraqueceram bastante. “Na nossa avaliação, aquela disparada da inflação, em reação à guerra, explica em grande medida essa certa estabilização ou até queda na renda”, detalha.
Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, faz coro à análise e afirma que a perda de força da economia parece ter chegado ao mercado de trabalho mais recentemente, o que marca uma mudança em relação a períodos anteriores.
Para ele, o impulso relacionado à ampliação da isenção do IR parece, de fato, ter perdido força, ao passo que outros programas, como o Move Brasil e o Desenrola, ainda não influenciaram de maneira clara os dados de atividade, o que dificulta mensurar o impacto dessas medidas.