Pesquisa: 56% das brasileiras acima de 40 têm perda involuntária de urina
Fonte: em.com.br | Data: 05/08/2026 16:44:11
A perda involuntária ou os escapes de urina afetam 56% das mulheres brasileiras com mais de 40 anos, mas a busca por cuidado ainda é limitada: 87% das mulheres com incontinência urinária nunca realizaram nenhum tipo de tratamento para a condição.
É o que aponta a pesquisa inédita “Escape do tabu: retratos da incontinência urinária no Brasil”, realizada pela Ipsos a pedido da Apsen. O levantamento revela que, apesar da frequência da condição, muitas mulheres ainda enfrentam dificuldades para falar sobre o tema, buscar orientação e acessar informações sobre diagnóstico e tratamento.
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A incontinência urinária (IU) é caracterizada pela perda involuntária de urina e pode ocorrer em diferentes fases da vida, embora seja mais frequente com o avanço da idade. A condição pode impactar o bem-estar físico, emocional, psicológico e social das pessoas e, apesar de ser comum, ainda é pouco discutida, muitas vezes por vergonha ou desconhecimento sobre as possibilidades de cuidado e tratamento.
Realizada entre os dias 30 de junho e 8 de julho de 2026, a pesquisa ouviu 1,5 mil mulheres com 40 anos ou mais, das classes A, B e C, residentes em todas as regiões do Brasil, por meio de painel online com população conectada.
Incontinência urinária impacta rotina, autoestima e qualidade de vida
O estudo mostra que a perda urinária pode influenciar escolhas e hábitos do dia a dia. Entre as mulheres que apresentam incontinência urinária, 52% afirmam ter mudado algum hábito ou enfrentado impactos na rotina por medo de escapes de urina.
As principais adaptações relatadas são o uso preventivo de protetores diários, absorventes ou fraldas, a escolha de locais considerando a proximidade de banheiros, mudanças na forma de se vestir e a redução ou interrupção da prática de atividades físicas, esportes ou caminhadas.
Cerca de 33% das mulheres afirmam utilizar protetores diários, absorventes ou fraldas de forma preventiva, enquanto 11% relatam planejar seus deslocamentos considerando a localização de banheiros. Os dados mostram que, para muitas mulheres, a estratégia adotada para lidar com a condição ainda é adaptar a rotina e ocultar os sintomas, em vez de buscar avaliação e tratamento especializado.
O impacto também aparece na esfera emocional. Entre as mulheres com incontinência urinária mista, 29% relatam aumento de ansiedade, estresse, vergonha ou tristeza em decorrência da condição. Além disso, 33% das mulheres que convivem com perda urinária afirmam que já esconderam ou evitaram falar sobre o tema com pessoas próximas.
Para a psiquiatra e especialista em Sexologia Médica, livre-docente pela Faculdade de Medicina da USP, fundadora e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, Carmita, os dados da pesquisa demonstram que a condição ultrapassa os sintomas físicos.
“A incontinência urinária pode interferir na forma como a mulher se conduz com seu próprio corpo, com as atividades cotidianas e com seus relacionamentos. Quando uma condição de saúde limita momentos importantes da vida, como sair, trabalhar ou com conviver com tranquilidade, é fundamental criar espaços de acolhimento e conversa para que ela possa buscar ajuda sem constrangimento”, afirma.
Dificuldade de falar
Os dados apontam que a dificuldade de conversar sobre a condição permanece presente, inclusive nos espaços de cuidado. Entre as brasileiras com incontinência urinária acima de 50 anos entrevistadas, 64% relatam que ainda têm dificuldade de falar sobre o problema, inclusive com especialistas.
O levantamento também aponta uma lacuna no diálogo durante consultas de rotina: 54% das mulheres afirmam que nenhum ginecologista, clínico geral ou outro profissional de saúde perguntou sobre escapes de urina durante atendimentos médicos.
Segundo Rebeka Cavalcanti, coordenadora do setor de Urologia Feminina do Hospital Servidores do Estado, coordenadora do Departamento de Urologia Feminina da SBU-RJ e membro da Uroginecologia Feminina do HSVP, os dados reforçam a importância de ampliar a abordagem sobre a condição.
“Os resultados mostram uma realidade que observamos na prática clínica: muitas mulheres convivem com sintomas de incontinência urinária por longos períodos antes de buscar avaliação especializada. A condição pode apresentar diferentes causas e manifestações, e o diagnóstico adequado é fundamental para definir a melhor abordagem para cada paciente. Ampliar o conhecimento e desmistificar o tema ajuda a fortalecer a confiança para que mais mulheres procurem orientação e cuidado”, afirma.
Informação e diálogo: caminhos para transformar o cuidado
Embora parte das mulheres reconheça que a incontinência urinária tem tratamento especializado, essa informação ainda não se traduz em busca por cuidado. O estudo mostra que 58% sabem que a condição pode ser tratada, mas apenas 13% das mulheres que convivem com a perda urinária efetivamente realizam algum tratamento, evidenciando a distância entre conhecimento e ação.
Apesar da presença dos sintomas, a procura por tratamento ainda é baixa. Além das 87% que nunca realizaram tratamento, o estudo identificou que 19% das mulheres que apresentam perda urinária não sabiam que a condição possui tratamento especializado, que existem diferentes tipos de incontinência urinária ou que o urologista também atende mulheres.
A maioria das mulheres entrevistadas reconhece a importância: 79% consideram a incontinência urinária um problema de saúde que precisa de atenção. Apesar desse reconhecimento, ainda persistem barreiras para o diagnóstico e o tratamento, reforçando a necessidade de ampliar o acesso à informação para que mais mulheres reconheçam os sintomas e saibam que existem caminhos de cuidado.
A pesquisa faz parte da iniciativa Escape do Tabu, movimento da Apsen voltado à conscientização sobre a incontinência urinária e ao incentivo ao diagnóstico, tratamento e cuidado com a saúde urinária.
Para Renata Spallicci, vice-presidente executiva da Apsen, os dados reforçam a importância de transformar a forma como a sociedade conversa sobre a condição. “Os resultados mostram que muitas mulheres ainda deixam de buscar cuidado ou adaptam suas rotinas para lidar com a incontinência urinária. Levar informação de qualidade, estimular uma conversa mais aberta e contribuir para que mais pessoas tenham acesso ao diagnóstico e ao tratamento adequado fazem parte do compromisso da Apsen com a saúde e a qualidade de vida dos pacientes”, afirma.
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