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A superprodução e as novas fronteiras do mercado de etanol de milho

Fonte: resumomt.com.br | Data: 05/08/2026 18:09:28

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*Alessandro Salvador

A indústria de etanol de milho brasileira vive um momento de expansão invejável. Desde o início da década, quadruplicou de tamanho, para cerca de 10 bilhões de litros, na safra atual. E as perspectivas são de mais crescimento. Só em 2025, foram divulgados R$ 41 bilhões em projetos de produção de etanol de milho, segundo levantamento da consultoria FG/A. Com os novos investimentos, a capacidade instalada do País, que deve terminar 2026 acima dos 12,6 bilhões de litros, pode passar de 23 bilhões de litros, segundo estimativas do BTG.

São números expressivos de uma expansão que tem sido acompanhada pela demanda. Mas o ritmo de crescimento tem levado analistas a questionarem a sustentabilidade de novos projetos. O receio, avaliam, é de uma superoferta que comprometa margens e jogue por terra dezenas de bilhões de reais em investimentos já feitos ou em andamento.

É uma preocupação justa, dado o histórico brasileiro de voos de galinha. Mas, felizmente, há uma série de sinais que indicam a abertura de novas fronteiras de mercado, que enfraquecem a tese. O que temos visto, ao contrário, são novas demandas surgindo, tanto no transporte terrestre, quanto em navegação e aviação, com grandes empresas se posicionando para atendê-las. Demandas que tendem a se tornar estruturais e exigir investimentos ainda mais robustos que os previstos.

De imediato, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou a elevação da mistura de etanol na gasolina, de 30% para 32%, gerando necessidade extra de 1 bilhão de litros por ano, na estimativa da União da Indústria da Cana de Açúcar (Unica). Inicialmente, o aumento vale por 180 dias. Mas o ministro de Minas e Energia já admitiu que pode ser permanente. Além disso, a Lei Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024) permitirá que, no médio prazo, o percentual na mistura vá a 35%. Há estudos em curso para viabilizar a meta.

Reorganização da produção

Outra avenida de crescimento é o aumento do uso de etanol hidratado na frota flex. Historicamente, o consumo se concentra em regiões próximas de pólos canavieiros, no Sudeste e no Norte do Paraná. O custo do frete e a estrutura tributária do ICMS, cobrado na origem, desestimulavam estados não produtores a incentivar a adoção do biocombustível.

O cenário, no entanto, está mudando. Usinas de etanol de milho estão sendo construídas em fronteiras agrícolas e logísticas, aproximando fisicamente a oferta de grandes centros consumidores nos quais a participação de mercado do etanol é baixa. Potencial, Coamo, Be8 e Inpasa estão investindo no Paraná, no Rio Grande do Sul e na Bahia, onde a participação do etanol, em 2025, foi de 21,5%, 2,4% e 15,5%, respectivamente, de acordo com a ANP.

Nacionalmente, o etanol responde por cerca de 25% da demanda brasileira de veículos leves a combustão. Se a participação subir para 34%, patamar considerado viável com campanhas de marketing, o mercado interno sozinho absorverá o incremento de produção previsto.

No médio prazo, a Reforma Tributária ainda deve equalizar as distorções do ICMS, eliminando o desincentivo fiscal dos estados que hoje priorizam a gasolina.

Combo cana/milho

Em estados nos quais historicamente o etanol é competitivo, como São Paulo, Minas Gerais e Goiás, o motor do crescimento das vendas tende a ser a produção de etanol combinando diferentes matérias-primas. Usinas que trabalhavam só com cana-de-açúcar estão construindo unidades de produção de etanol de milho, ao lado, para diluir custos.

Quando se produz etanol a partir da cana, sobra o bagaço, que serve para alimentar caldeiras e gerar energia e vapor. O excedente costuma ser vendido como biomassa, frequentemente para plantas de etanol de milho. E essa biomassa é caríssima.

As usinas de cana-de-açúcar, que hoje respondem por três quartos da produção de etanol hidratado do País, só funcionam no período da safra, porque a cana precisa ser moída logo que é cortada. As de milho, matéria prima armazenável, rodam o ano inteiro, permitindo o melhor aproveitamento da estrutura administrativa, de laboratórios e armazenamento.

Para se construir uma planta de etanol do zero, o investimento médio é de R$ 1,3 bilhão. Para fazer uma de etanol de milho, ao lado de uma de cana-de-açúcar, são R$ 800 milhões.

Cerradinho, São Martinho e Coprodia são exemplos de empresas que já adotam o modelo. Uma dezena de outras, entre as quais Bioenergética Aroeira, Jalles, Uisa, Cofco, Tereos, Atvos e Pitangueiras, tem projetos ou estudam o investimento.

Mercado global

Mas se no mercado interno as perspectivas são positivas para o transporte terrestre, é o mercado global que oferece o horizonte mais amplo de oportunidades. Principalmente no longo prazo, com a produção voltada também ao transporte aéreo e marítimo.

A International Energy Agency (IEA) estima que a demanda mundial por biocombustíveis deve saltar de 180 bilhões de litros, em 2024, para mais de 215 bilhões de litros, até 2030. E o etanol reúne características importantes para liderar essa transição, como custo competitivo, escalabilidade e sustentabilidade, além de aumentar a segurança energética.

É o que tem levado à sua adoção como mistura à gasolina em número crescente de países, como Japão, Índia, China e Estados Unidos. E é também o que faz com que desponte como uma das principais matérias-primas para o SAF (Combustível Sustentável de Aviação, na sigla em inglês) e o transporte marítimo. Recentemente, a gigante Tereos anunciou uma sociedade com as aeroespaciais Airbus, Safran e Technip Energies, para a produção de SAF na França. No Brasil, a americana Summit Agricultural Group planeja uma planta de produção de SAF a partir de etanol de US$ 2 bilhões. Atenta a intensificação dessa transição, a brasileira Be8 estruturou sua expansão abrindo uma filial em Milão, na Itália, que servirá de base para a exportação de biocombustíveis e matérias-primas para o mercado europeu.

Assim, ainda que os questionamentos sobre a viabilidade de novos projetos de etanol de milho sejam importantes balizas para o mercado, a quantidade de novas fronteiras se abrindo sugere que a demanda estrutural em formação será maior que a capacidade produtiva brasileira prevista para o futuro. Longe de caminhar para a superoferta, a indústria está pavimentando o caminho para atender um mercado que se reinventa a cada dia.

*Alessandro Salvador é fundador e diretor comercial da Aplus, empresa de projetos de engenharia, líder no segmento de etanol de milho no Brasil.