Na Régia, 6% da carteira tem exposição média ou alta ao El Niño
Fonte: capitalreset.uol.com.br | Data: 05/08/2026 18:51:43
A gestora Régia Capital, joint venture da JGP e do Banco do Brasil, identificou que 5,8% dos R$ 20 bilhões em ativos em carteira tem exposição média ou alta ao “Super El Niño”, fenômeno climático que teve início em junho e tem deixado o mundo em alerta.
A gestora publicou nesta segunda-feira (3) um relatório que mapeia os riscos do fenômeno para a população brasileira, setores econômicos e para a sua própria carteira de investimentos.
O El Niño costuma trazer chuvas acima da média para o Sul do país e clima seco às outras regiões. Alguns dos riscos mais comuns são perdas de safras e na geração de energia. O fenômeno mais recente foi entre 2023 e 2024, período em que uma seca intensa atingiu 60% do território brasileiro e o Rio Grande do Sul sofreu enchentes históricas.
O Brasil deve sofrer os efeitos pelo menos até o início de 2027, de acordo com a projeção mais recente do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Globalmente, meteorologistas consideram grande a probabilidade de o fenômeno atual ter efeitos muito mais intensos do que em anos anteriores — por isso o apelido de “Super El Niño”.
A Régia identificou que 1,8% dos ativos de sua carteira estão sob risco alto por causa do fenômeno, enquanto 4% enfrentam risco médio. A maioria (94,2%) tem risco baixo ou neutro.
Os investimentos com maior exposição são fundos estruturados das cadeias de agricultura sustentável e bioeconomia, incluindo negócios com receita dependente do regime de chuvas.
Na carteira de crédito líquido, que concentra a maioria dos ativos da gestora, os setores abarcados têm menor exposição a eventos climáticos, como saúde, educação e geração descentralizada de energia. Nesta carteira, apenas 2% dos ativos têm risco alto (ativos com florestas em regiões sujeitas à seca), enquanto 4,7% são de risco médio (bancos expostos ao crédito rural e o setor de saneamento em regiões vulneráveis).
Nas carteiras de ações, a gestora não encontrou exposição relevante ao risco climático nos setores investidos. Ela destaca que o método para mapear a exposição ao risco não considera os caixas dos fundos ou proteções e garantias de fundos de crédito.
Para a gestora, o exercício de análise vai permitir fazer um acompanhamento mais próximo das empresas expostas aos maiores riscos e contribuir para reduzir os impactos quando possível, além de informar a estratégia de novos investimentos.
“Esse diálogo nos ajuda a calibrar novas alocações diante de um clima cujos extremos tendem a se tornar mais frequentes e intensos, além de buscar teses que financiem mitigação e adaptação”, escreve a equipe da Régia no relatório.
Riscos e soluções
A Régia também mapeou os principais riscos econômicos e sociais do Super El Niño no Brasil, e soluções de adaptação de curto e longo prazo.
Entre os riscos estão a intensificação de queimadas na Amazônia, como ocorreu em 2023 e 2024, e os impactos do aumento de chuvas no Sul, que já afetam estados da região. Na geração de energia, por exemplo, a gestora destaca o aumento da demanda decorrente do calor intenso e o risco de secas prejudicarem a produção hidrelétrica. Já no agronegócio, há temor de perda de produtividade em culturas como soja e milho, enquanto para a cana-de-açúcar o efeito do fenômeno costuma ser positivo.
O cacau é destacado como um exemplo de cultura agrícola de alto risco climático com forte impacto social. O El Niño de 2015 e 2016, também de intensidade mais alta, foi devastador para o setor em regiões com tradição cacaueira como Bahia e Espírito Santo. Como o setor é concentrado em agricultura familiar, a crise derrubou o PIB de municípios com grande produção.
Entre soluções de curto prazo mapeadas para a adaptação, estão a instalação e expansão de sistemas de monitoramento e alertas de evacuação. Desde os deslizamentos na Região Serrana do Rio de Janeiro que deixaram mais de 900 mortos em 2011, o Brasil avançou nessa área, com a ampliação da atuação da Defesa Civil e instalação de sistemas de alerta, mas ainda há falhas e lacunas de implementação.
Cerca de 60% dos municípios brasileiros apresentam níveis baixos de preparação para a gestão de riscos e desastres, segundo Indicador de Capacidade Municipal (ICM) do governo federal.
A gestora também afirma que contatou as Defesas Civis de municípios gaúchos identificados pelo ICM como de baixa preparação, para entender se houve melhora nas condições desde o desastre de 2024 e mapear possíveis soluções financeiras para mitigar os riscos, mas ainda não obteve respostas suficientes para avaliar o quadro.
Entre medidas de longo prazo estão soluções baseadas na natureza para aumentar a resiliência de cidades e do campo. É o caso do conceito de cidade-esponja, nas quais as áreas urbanas são pensadas para absorver a chuva e impedir a sobrecarga durante eventos extremos. A técnica usa tecnologias como jardins de chuva, parques alagáveis e telhados verdes — algumas das quais já têm iniciativas em cidades brasileiras como Recife e Curitiba.
Para a adaptação para o risco de secas são destacadas medidas que já têm tradição no Brasil, como a instalação de cisternas e os sistemas agroflorestais, e outras que ainda ainda não estão muito difundidas, como a irrigação por gotejamento. A técnica molha diretamente a raiz da planta e é amplamente usada em Israel.