Crise Brasil-EUA rompe 200 anos de tradição diplomática, diz ex-embaixador Rubens Barbosa
Fonte: brasil247.com | Data: 05/08/2026 20:53:44
247 – A decisão do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de revogar o visto da embaixadora do Brasil nos EUA, Maria Luiza Viotti, foi classificada por especialistas em relações internacionais como uma medida sem fundamento diplomático e que rompe tradições consolidadas entre os dois países.
Segundo diplomatas e especialistas ouvidos pela Folha de São Paulo, a resposta do governo brasileiro ao negar vistos a funcionários do Departamento de Estado dos EUA — que viajariam ao Brasil em missão contestada por Brasília e negada por Washington — seguiu parâmetros considerados legítimos. Para eles, a decisão estadunidense de cancelar o visto da embaixadora representa uma escalada desnecessária do conflito.
Diplomata ressalta quebra de mais de dois séculos de protocolos
Ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos e no Reino Unido, Rubens Barbosa afirmou que a condução do governo estadunidense no processo de indicação do novo embaixador em Brasília rompeu práticas diplomáticas consolidadas. “Deixaram de lado 200 anos de regras diplomáticas, inverteram tudo e agora pressionam para que o Brasil acelere a nomeação”, disse o diplomata.
Segundo Barbosa, a revogação do visto de Viotti “não faz nenhum sentido” e os Estados Unidos “fizeram tudo errado” durante o processo do agrément, autorização diplomática necessária para a nomeação de embaixadores.
Ele lembrou que esse procedimento tradicionalmente ocorre de forma reservada, antes mesmo do anúncio oficial do indicado, e destacou que atrasos superiores a um mês não são incomuns. “Meu próprio agrément demorou mais de 30 dias, assim como o do meu sucessor. Os EUA estão errados”, ressaltou.
Entre o pedido formal de agrément para Daniel Perez, enviado em 30 de junho, e a revogação do visto da embaixadora brasileira, anunciada na terça-feira (4), passaram-se 35 dias. Perez já havia sido anunciado publicamente pelo governo Trump em 1º de junho e ainda aguarda aprovação pelo plenário do Senado dos EUA.
Interferência eleitoral é apontada como pano de fundo
Para Rubens Barbosa, a crise está relacionada às preocupações do governo brasileiro com uma possível interferência dos Estados Unidos nas eleições de 2026. “Tudo isso tem a ver com a interferência nas eleições”, ponderou
O diplomata afirmou que Washington já atuou em processos eleitorais em outros países latino-americanos e considera natural que Brasília reaja para preservar a narrativa de defesa da soberania nacional.
“O governo brasileiro, cujo líder é candidato, vai reagir para não perder a narrativa da soberania nacional, mas é importante que a crise não saia do controle”, observou o ex-embaixador fazendo referência ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Ao mesmo tempo, Barbosa avaliou que o momento atual difere de outras divergências históricas entre os dois países porque fatores ideológicos passaram a influenciar mais diretamente a relação bilateral. “A crise se agrava por considerações ideológicas, tanto em Washington quanto em Brasília, e essa é a novidade”, disse.
José Pio Borges chama medida de “absurda”
O presidente do Conselho Curador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), José Pio Borges, também criticou duramente a decisão do governo americano. “Ela é a primeira mulher a ser embaixadora em Washington e uma diplomata competentíssima”, afirmou.
Borges destacou a trajetória de Maria Luiza Viotti, que ocupou cargos de destaque nas Nações Unidas ao lado do secretário-geral António Guterres. “Quanto à competência dela, não há a menor questão”, destacou
Segundo ele, o governo brasileiro ainda analisava o pedido de agrément do indicado americano quando Washington decidiu tornar pública a indicação e posteriormente cancelar o visto da embaixadora brasileira. “Foi uma deselegância. O governo brasileiro ainda estava examinando o pedido, não havia negado o agrément”, resumiu.
Diplomacia brasileira tentou manter diálogo
José Pio Borges afirmou que o Itamaraty buscou diferentes canais de negociação com o governo americano, inclusive durante as discussões envolvendo as tarifas impostas pelos Estados Unidos. “Não foi uma falta de vontade nem de esforço da diplomacia brasileira. A embaixadora e o vice-presidente Geraldo Alckmin tentaram todo tipo de diálogo formal com o Departamento de Estado”, afirmou.
Na avaliação dele, o principal obstáculo esteve na postura adotada pelo Departamento de Estado dos EUA. “Quem conseguiu resultado foram empresas como Embraer, JBS e representantes dos setores de café. Não foi uma falta de diálogo do Brasil, foi uma falta de diálogo do Departamento de Estado americano”, avaliou Pio Borges.
Borges também afirmou que não descarta novas medidas por parte de Washington, considerando o perfil da política externa do governo Trump, marcada, segundo ele, pela imprevisibilidade.
Apesar disso, defendeu a preservação da relação bilateral ao afirmar que “existe uma relação de Estado histórica e de grande afeição entre os dois países. É lastimável que o governo americano venha a comprometer uma relação de tantos séculos.”
Contexto da crise
A revogação do visto de Maria Luiza Viotti ocorreu em meio ao aumento das tensões diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. O episódio foi precedido pela recusa brasileira em conceder vistos a funcionários do Departamento de Estado que pretendiam viajar ao país para tratar de temas relacionados ao sistema eleitoral — versão contestada pelo governo brasileiro e negada por Washington — e pelo impasse envolvendo o agrément do deputado estadual da Flórida Daniel Perez, indicado por Donald Trump para chefiar a embaixada estadunidense em Brasília.
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