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FACÇÕES ELEITORAIS

Fonte: piaui.uol.com.br | Data: 06/08/2026 00:28:31

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Durante toda a campanha eleitoral de 2024 em Santa Quitéria, município de 40 mil habitantes no sertão do Ceará, declarar apoio ao candidato a prefeito Tomás Figueiredo (MDB) tornou-se uma atitude arriscada, quase uma sentença de morte. Isso porque o Comando Vermelho (CV), facção criminosa que monopoliza o crime na região, apoiava o candidato rival, José Braga Barrozo, o Braguinha (PSB), que buscava a reeleição. Para fazer valer sua vontade, o CV implantou o terror na cidade. Um empresário que alugava carros de som para a campanha do emedebista foi encontrado morto três dias antes do pleito. Veículos com adesivos do candidato rival foram destruídos a pauladas. Cem cabos eleitorais foram expulsos à força da cidade, apenas com a roupa do corpo – muitos nunca mais voltaram. Espalhadas pela cidade, pichações ameaçavam: “Quem apoia o Tomás vai arrumar problema com a tropa, vai entrar na bala.” Era assinada por Paulinho Maluco, um dos apelidos de Anastácio Paiva Pereira, o temido líder do CV no Ceará, réu em catorze ações penais por homicídios, furto qualificado, tráfico de drogas e associação criminosa.

Também chamado de Doze, Anastácio Pereira nasceu e cresceu em Santa Quitéria. Em meados da última década, para escapar de dez mandados de prisão, refugiou-se na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, controlada pelo CV. De lá, comanda até hoje todo tipo de ação criminosa no interior do Ceará, incluindo as de objetivo político-eleitoral, como relata uma apoiadora de Figueiredo, sob anonimato, por medo de represálias: “Um dia, o Doze me ligou e disse para eu tomar cuidado, porque sabia o endereço dos meus filhos.”

Em julho de 2024, pouco antes do começo da campanha eleitoral, Braguinha, o candidato do CV, decidiu retribuir o apoio político de Doze com um presente. Comprou um SUV Mitsubishi Eclipse Cross zero km em uma concessionária de Fortaleza e ordenou que dois servidores da prefeitura levassem o veículo até a Rocinha, onde o traficante se escondia. Dois meses mais tarde, Doze enviou um aliado, Daniel Claudino dos Santos, o DA30, do Rio de Janeiro para Santa Quitéria, com a missão de intensificar a violência contra os aliados do rival.

Uma jovem de 21 anos que atuava como cabo eleitoral de Figueiredo escapou por pouco. Na tarde de 19 de agosto, DA30 ordenou que fossem atrás da moça: “Pode descer a ripa, parceiro”, disse. Por sorte, ela já havia deixado a cidade. “Rapaz, eu liguei pra um bocado de gente. Viu, mano? O chefe [Doze] só mandava, e eu ligando. As que eu liguei saiu fora [da cidade], mandei conferir”, disse DA30 a outro membro do CV, via WhatsApp, sobre os cabos eleitorais. O diálogo foi capturado pelo Ministério Público no celular de da30, que acabou preso em 5 de outubro, um dia antes da eleição.

Para tentar conter a selvageria durante as eleições em Santa Quitéria, a Justiça Eleitoral ordenou o reforço do policiamento na cidade. Mas o Comando Vermelho dobrou a aposta no medo. Na tarde de 18 de setembro, um jovem que se dizia membro da facção telefonou para o cartório eleitoral do município e ameaçou invadir o prédio e matar os servidores. O titular do cartório ouviu a ameaça e, logo depois de desligar o telefone, o aparelho voltou a tocar. “Tu duvida?”, gritou o jovem. “Sai aí na calçada pra tu ver, bota a tua cara na rua!” Desde então, até o dia das eleições, em 6 de outubro, o cartório funcionou com as portas fechadas e sob proteção policial. Os funcionários se deslocavam também com a proteção de policiais militares.

Já o candidato Tomás Figueiredo só andava pela cidade com escolta armada. Por segurança, não pisou nos dois bairros mais populosos de Santa Quitéria: Piracicaba e Pereiros, controlados pelo CV. A facção chegou a distribuir drogas gratuitamente para os dependentes químicos da cidade em troca de votos para Braguinha. “Vou mandar separar umas drogas só pra dar pros viciados. Vamos comprar todos”, disse um integrante do CV por WhatsApp. Com tudo isso, Figueiredo não teve a menor chance: Braguinha, o candidato da facção, foi reeleito para mais um mandato com 41% dos votos válidos, contra 29,4% do emedebista.

Fazendeiro de 72 anos, com cabelos grisalhos, olhos muito azuis e bigode bem aparado, Figueiredo foi prefeito de Santa Quitéria por quatro mandatos, o último deles entre 2016 e 2020 – gestão que não foi nada tranquila. Ele chegou a ter os bens bloqueados pela Justiça e terminou o mandato ancorado em uma liminar judicial. Foi nesse período que ele viu o Comando Vermelho dar os seus primeiros passos em Santa Quitéria. “No começo eles assaltavam as fazendas, depois foram se instalando na cidade”, contou à piauí.

Em 2020, Braguinha, vice-prefeito na época, rompeu com Figueiredo e decidiu enfrentar o antigo aliado nas urnas. Reuniu seis partidos em uma coligação pilotada pelo PSB, mas sua maior força política foi a aliança com o CV, que àquela altura já dominava toda a atividade criminosa na região. Naquele mesmo ano dezenas de muros foram pichados com ameaças aos apoiadores de Figueiredo, a Polícia Militar conseguiu impedir um atentado ao então prefeito e a casa de um dos seguranças dele foi alvo de centenas de tiros. Em novembro de 2020, Braguinha venceu a eleição. Por causa das ameaças, Figueiredo ingressou com uma ação judicial contra Braguinha pedindo a cassação do mandato, mas o pedido foi julgado improcedente.

Depois da posse, Braguinha tratou de retribuir o apoio do CV. Nomeou pessoas ligadas à facção para cargos comissionados, entre eles Francisco Leandro Farias de Mesquita, a quem cabia transportar drogas do grupo criminoso pela região. Na prefeitura, era comum encontrar servidores públicos com tornozeleira eletrônica, contaram à piauí dois moradores de Santa Quitéria, ambos ouvidos sob anonimato. Na eleição de 2024, Braguinha repetiu a dose com o CV e voltou a ganhar, mas foi preso pela Polícia Federal no dia da posse, por determinação da Justiça Eleitoral, sob a acusação de abuso de poder político e econômico. Mais tarde, ele e seu vice tiveram seus mandados cassados pelo Tribunal Regional Eleitoral do Ceará.

A Justiça determinou novas eleições no município. Concorreram o filho de Braguinha, Joel Barroso (PSB), Ligia Protásio (PT) e Cândida de Paula Pessoa (União Brasil), mulher do ex-prefeito Tomás Figueiredo. Dessa vez, não houve pichações nos muros, nem cabos eleitorais expulsos, nem assassinatos. Mas o medo estava instalado em Santa Quitéria. “Muitas famílias que sempre nos apoiaram simplesmente pediam para que eu não as visitasse na casa delas. Tinham pavor de demonstrar apoio a mim e vir alguma retaliação”, disse Paula Pessoa à piauí.

Em 26 de outubro de 2025, dia da nova eleição, 220 policiais militares, em cinquenta veículos, se espalharam pelas ruas do município para garantir a segurança da votação. Ainda assim, 6,7 mil eleitores (20,59% do total) não votaram, um percentual bem maior do que nos dois pleitos anteriores (em torno de 14%). Presume-se que o medo os impediu de ir à cabine de votação. Dos que votaram, a maioria (53%) optou por Joel Barroso. Assim, o clã aliado ao CV permaneceu no comando da prefeitura. “Vai demorar para Santa Quitéria voltar a ter uma eleição legítima”, diz um servidor do cartório eleitoral da cidade. “O medo ainda impera.”

Desde o fim da década passada, organizações criminosas se espalharam por quase todas as cidades do Ceará seguindo as rotas do narcotráfico. Um mapa interativo criado pelo coletivo Central Mapa aponta que atualmente apenas 3 dos 184 municípios cearenses não registram a presença dessas facções. Há algumas explicações para essa infiltração nociva no estado. Para o promotor Adriano Saraiva, do Ministério Público do Ceará, a forte presença do crime organizado no estado está diretamente relacionada à proximidade com a Europa, o que facilita a exportação de cocaína, aliada à baixa fiscalização dos portos cearenses e aos negócios turísticos do litoral, um prato cheio para a lavagem de dinheiro. “Depois do Rio de Janeiro e São Paulo, hoje o Ceará é o estado mais importante para as facções”, diz Saraiva.

Em Morada Nova, município de 61 mil habitantes no Leste cearense, 6 dos 15 vereadores foram presos pela Polícia Federal em março e abril deste ano, acusados de terem suas campanhas eleitorais financiadas pela facção Guardiões do Estado (GDE). O crime organizado é tão presente na cidade que, em julho do ano passado, integrantes do braço cearense da facção Terceiro Comando Puro (TCP) expulsaram todas as trezentas famílias do distrito de Uiraponga, depois que um homem ligado ao grupo foi assassinado a mando do GDE.

Cada vez mais tentacular, a estratégia criminal de dominar a ordem política não ocorre apenas no Ceará, mas espalha-se por outros estados do país, de Norte a Sul. É uma nova ameaça à democracia e pode representar um risco de grande alcance para as eleições deste ano. Agora, nos estados do Nordeste, a violência não vem mais dos antigos “coronéis”, cujo papel foi descrito em Coronelismo, enxada e voto, de Victor Nunes Leal, de 1948. Desde a publicação deste clássico, o país conhece bem como os latifundiários da Primeira República (1889-1930) se aferravam ao poder na base do voto de cabresto. Agora, porém, esse papel está sendo tomado por facções, com métodos ainda mais violentos, que misturam corrupção, agressões explícitas e o terror de ameaças e assassinatos.

As atividades das organizações criminosas se expandiram a ponto de alcançar a política institucional, promovendo a eleição de pessoas relacionadas às facções para os cargos de prefeitos, deputados e vereadores. Esses postulantes se dividem em três grupos. Um deles é formado pelos próprios faccionados, normalmente ex-presidiários que se arriscam na política. Outro grupo é dos “embaixadores”, homens e mulheres sem vínculos diretos com facções nem antecedentes criminais, escolhidos como representantes políticos dos criminosos. E, por fim, há os políticos tradicionais, que vão atrás do apoio eleitoral das facções, às quais retribuem oferecendo “mensalinhos” (pagamentos periódicos e ilícitos), cargos e contratos com o poder público. Dessa maneira, os criminosos acabam se infiltrando na máquina administrativa das cidades e influindo em negócios públicos, naturalmente em benefício das próprias facções.

 Um levantamento feito pela piauí a partir de relatórios de inteligência policial e de processos judiciais indica que, nas cinco últimas eleições no Brasil, 80 candidatos a deputado, prefeito e vereador estavam formalmente sendo investigados sob a suspeita de manter ligação direta com o crime organizado – sejam facções criminosas, sejam milícias, no caso do Rio de Janeiro. Dos 80 candidatos únicos (vários disputaram mais de uma eleição no período), 49 foram eleitos. Embora seja um número ínfimo comparado ao total de candidatos entre 2016 e 2024 (cerca de 1 milhão ao todo), há um forte crescimento de candidaturas do crime organizado.

Em pleitos municipais, houve 40 candidatos em 2016. Quatro anos depois, o número subiu para 51. E, na eleição de 2024, já eram 62. Nas eleições estaduais e federal, foram 8 candidaturas em 2018 e 14 no pleito seguinte. Entre as múltiplas facções criminosas existentes no país, o CV e o Primeiro Comando da Capital (PCC) lideram a lista dos 80 candidatos, com 17 e 15, respectivamente.

A julgar pela escolha dos partidos políticos, os criminosos têm preferência ideológica pela direita. Nas eleições de 2016, 2018, 2020, 2022 e 2024, 59% dos candidatos ligados ao crime concorreram por partidos de direita, com destaque para o PP (11 candidatos), seguido do Republicanos (8) e União Brasil (7) e do PL (6). Outros 23% eram de partidos de esquerda (incluindo 7 do PSB e 6 do PT). As siglas de centro-direita atraíram 19%, com destaque para o psd, com 7 candidatos.

A quantidade de candidatos do crime fez com que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) criasse em 2024 um núcleo de policiais federais e promotores para identificar as candidaturas ligadas ao crime organizado. A ministra Cármen Lúcia, então presidente do TSE, chegou a declarar ao jornal O Globo: “[É um cenário] Bastante grave, especialmente considerando a ousadia do crime de querer ser o formulador de leis. Há um risco real de que esse comportamento se estenda às instâncias estaduais e até nacionais.” Até agora, não se tem notícia de alguma lei – municipal, estadual ou federal – que tenha sido aprovada por influência do crime organizado.

O cientista político José Maria Pereira da Nóbrega Júnior, da Universidade Federal de Campina Grande (ufcg), que há três anos estuda a infiltração do crime nas estruturas do Estado, é ainda mais enfático: “Estamos vendo o início de um fenômeno muito grave, que vai mudar para pior a qualidade da atividade política no país”, diz. Segundo ele, as facções criminosas estão aproveitando a fragilidade da democracia brasileira e a persistente corrupção no poder público para se infiltrar cada vez mais na política partidária. “A política é lucrativa, corrupta e permeada de impunidade, o que é muito tentador para as facções.”

Até os anos 2000, dispor de representantes políticos não era algo que constava entre as metas das facções criminosas. Na época, esses grupos estavam constituídos como uma espécie de central sindical de presidiários, voltada essencialmente para a defesa dos interesses da massa carcerária, financiando-se com mensalidades pagas por seus membros, rifas e compra e venda de drogas no varejo. Foi o PCC que, na década passada, inaugurou uma nova fase das facções ao adotar uma gestão empresarial com investimentos maciços no tráfico internacional de cocaína, via Porto de Santos, a partir de acordos diretos com as grandes máfias europeias. As estimativas mais recentes do Ministério Público de São Paulo indicam que a facção paulista tem um faturamento bruto anual de 10 bilhões de reais.

Para lavar essa bolada de dinheiro, o PCC infiltrou-se no setor de combustíveis e no mercado financeiro – outros setores que, além da política, estão cada vez mais expostos à penetração do crime. A Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto do ano passado pelo Ministério Público paulista e a Receita Federal, revelou ligações da facção com mais de mil postos de combustível no país, além de distribuidoras e usinas de etanol no interior paulista. O dinheiro ilícito do tráfico de drogas chegava então à Faria Lima, o coração financeiro do país, onde era lavado em uma complexa engrenagem financeira, que passava por várias fintechs e 41 fundos de investimento.

Ao mesmo tempo, o PCC e demais facções reforçaram o domínio sobre seus territórios originais, nas periferias das metrópoles. Ao longo da década passada, esses grupos criminosos, sobretudo o CV e o TCP, outra organização que cresce no país, copiaram das milícias fluminenses o conceito de “governança criminal”: diversificar as mercadorias oferecidas nas áreas onde estão presentes (não somente drogas, mas gás de cozinha, transporte coletivo, internet), extorquir empresas e moradores com “taxas de segurança” e reforçar o controle armado do território diante da ameaça de invasão por grupos rivais.

Desde que começaram a se espalhar pela Região Metropolitana do Rio de Janeiro, os grupos milicianos procuraram transformar o controle territorial armado em curral eleitoral, vendendo apoio político ou elegendo seus próprios representantes (já em 2008 a CPI das Milícias, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro – Alerj, identificou oito vereadores e deputados ligados a grupos milicianos). Dos 80 candidatos a cargos eletivos ligados a grupos criminosos entre 2016 e 2024 identificados pela piauí, 19 têm relação direta com a milícia fluminense. Desses, 13 foram eleitos.

Quando as facções passaram a copiar o modelo de atuação das milícias, o problema deixou de ser apenas do Rio para se tornar nacional. De acordo com estudo da Universidade de Chicago, ao menos 50 milhões de brasileiros vivem em territórios controlados por grupos criminosos – ou seja, cerca de 25% da população. “É um modelo de governança criminal muito competente e enraizado que surgiu no Rio de Janeiro e nos últimos anos tem se alastrado pelo país. Não há paralelo no mundo, considerando os países democráticos”, diz o cientista político Benjamin Lessing, um dos autores da pesquisa.

As ramificações do crime nas estruturas oficiais do Rio de Janeiro chegaram ao ponto de abalar as perspectivas eleitorais de um candidato à Presidência da República. Flávio Bolsonaro, candidato do PL, está com dificuldade com seus aliados no estado em razão de prisões e batidas policiais. O primeiro aliado a ser preso foi Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj que estava escalado para concorrer pelo União Brasil à sucessão de Cláudio Castro (PL), cassado por abuso de poder econômico e inelegível até 2030. Agora, no início de julho, o ex-deputado Márcio Canella, também do União Brasil, foi preso depois de ser flagrado com um fuzil dentro do carro, durante uma batida policial no âmbito de uma investigação sobre uma rede de corrupção que inclui lavagem de dinheiro por meio de postos de combustível. Canella é próximo dos milicianos da Baixada Fluminense e era pré-candidato ao Senado na chapa de Flávio Bolsonaro. A mãe do presidenciável, Rogéria Bolsonaro, aparecia como sua primeira suplente. Todo arranjo está sob ameaça de ruir em razão da prisão e a suspeita das relações com o crime organizado. A ironia é que Flavio Bolsonaro gabou-se de ter convencido Donald Trump a declarar o PCC e o CV como “organizações terroristas”.

Não é um cenário surpreendente. No Rio de Janeiro, as facções e as milícias vêm se firmando ao longo do tempo no meio político, com desdobramentos trágicos, como se viu no caso do assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, em 2018, a mando do ex-deputado federal Chiquinho Brazão e seu irmão, Domingos Brazão, ex-deputado estadual. Os irmãos Brazão tinham relações estreitas com a milícia.

Em Campos dos Goytacazes, no estado do Rio, o acerto eleitoral entre um vereador e uma facção foi selado também com um assassinato. Em 18 de julho de 2024, o vereador Bruno Fernando Santos de Azevedo Nascimento, o Pezão (PP), candidato à reeleição na cidade, firmou um acordo com o traficante José Ricardo Rangel de Oliveira, o Ricardinho, chefe da facção TCP no município: por 40 mil reais, Ricardinho franqueava acesso exclusivo de Pezão ao distrito de Campo Novo, dominado pelo grupo criminoso. No dia seguinte, o traficante ordenou a morte de um aposentado, de 69 anos, um cabo eleitoral de outro candidato que fazia campanha no distrito. O aposentado morreu com oito tiros.

A parceria ficou explícita quando Pezão fez um pequeno comício no distrito no qual exibiu a foto do traficante em um telão. O próprio traficante, preso havia mais de dez anos em Bangu 4, no Rio, participou do comício, falando no viva-voz de um celular. “Nosso amigo Ricardinho aqui está acompanhando ao vivo, só tenho a agradecer”, disse ao microfone um assessor de Pezão. “Eu perguntei ao Ricardinho: ‘Ricardinho, pode filmar esse povo bonito?’ ‘Pode filmar tudo isso aí, que vai rodar os quatro cantos de Campos.” Pezão acabou eleito para mais um mandato, com 4 880 votos. Foi o quinto vereador mais votado de Campos dos Goytacazes. A defesa do vereador nega seu envolvimento no assassinato. Em nota, afirmou: “Lamentavelmente, no cenário político, é sabido que figuras públicas estão sujeitas a especulações e questionamentos. Com serenidade, porém, Bruno Fernando [Pezão] colabora integralmente com as investigações e aguarda a sua conclusão.”

Nas eleições de 2022, o Comando Vermelho investiu em pelo menos três candidatos no Rio: Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Joias (MDB), para uma vaga na Assembleia Legislativa, e as advogadas Flávia Fróes (União Brasil) e Alexandra Menezes (PP) para deputadas federais. Alexandra Menezes foi namorada de uma liderança do CV. Flavia Fróes, autointitulada “advogada do tráfico”, notabilizou-se por exercer o papel de “pombo-correio” entre os líderes presos do CV e os soldados da facção nas ruas. Flávia Fróes, segundo diálogos gravados com autorização judicial, teve apoio financeiro de um traficante notório, Marcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho vp. Nem ela, nem Alexandra Menezes foram eleitas.

O CV deu mais sorte com TH Joias, um joalheiro que, mesmo condenado em primeira instância por tráfico de drogas e associação criminosa, teve sua candidatura em 2022 autorizada pela Justiça Eleitoral, já que a Lei da Ficha Limpa só veda o registro de candidatos com condenação em segunda instância. Com 15 mil votos, conquistou a segunda suplência. Em julho de 2024, com a morte do titular da cadeira e desistência do primeiro suplente, TH Joias assumiu a vaga na Assembleia Legislativa. Uma investigação da Polícia Federal descobriu que ele era o braço parlamentar do Comando Vermelho na Alerj, seguindo as ordens de Luciano Martiniano da Silva, também apelidado de Pezão, um dos chefes do CV no Complexo do Alemão.

TH Joias trocava milhões de reais por dólares a mando de Pezão para a facção pagar fornecedores de drogas nos países vizinhos (a PF encontrou no celular de TH Joias uma foto dele posando deitado sobre uma pilha de 5 milhões de reais). Ele também vendia para os traficantes equipamentos para a derrubada de drones das forças de segurança e usava seus contatos com a banda podre da polícia para vazar operações policiais e interferir no policiamento dos bairros. Em janeiro de 2024, por exemplo, a mando de Pezão, pediu que a pm trocasse o batalhão de choque no bairro Gardênia Azul, na Zona Oeste, por “pm normal”. TH repassou o pedido a Alessandro Pitombeira Carracena, também ligado ao CV, que, em outra prova cabal de infiltração do crime, ocupava um cargo na Secretaria de Estado da Casa Civil.

A prisão de TH Joias e Carracena, em 3 de setembro passado, trouxe indícios para a PF de que a ligação da gestão de Cláudio Castro (PL) com o CV pode ser mais profunda. TH Joias soube da operação no dia anterior e tentou fugir, mas acabou preso. No celular dele, os policiais descobriram que TH foi avisado da operação por ninguém menos que Rodrigo Bacellar (União Brasil), então presidente da Alerj. Bacellar orientou TH Joias a fazer uma limpa em sua casa de tudo que pudesse incriminá-lo. E Bacellar foi avisado da operação por ninguém menos que o desembargador Macário Júdice Neto, que autorizou a prisão de TH.

Ainda em 3 de setembro, poucas horas depois da prisão de TH Joias, Cláudio Castro exonerou Rafael Picciani do cargo de secretário de Esporte e Lazer a fim de que ocupasse a vaga de TH na Alerj. Para a Polícia Federal, “tal articulação serve como forte indício de que o vazamento de informações pode ter tido como objetivo primário a proteção de agentes políticos aliados à organização criminosa”, e que “um possível objetivo subjacente da ação obstrutiva é a manutenção do vínculo desses agentes políticos com o Comando Vermelho”. Em outras palavras: TH Joias foi apenas o “boi de piranha” usado para proteger figuras centrais da infiltração do CV na administração pública.

A assessoria de Cláudio Castro informou por meio de nota que o retorno de Picciani à Alerj estava programado antes da operação da PF, para que ele participasse das votações do pacote de projetos do governo na área da segurança pública. Em seguida, a nota traz uma frase que, dado o contexto das suspeitas policiais, soa como uma ironia: “É importante lembrar que a gestão do governador Cláudio Castro teve como prioridade máxima o combate ao crime organizado.” Também em nota, a defesa de Bacellar negou que o deputado tenha atuado para impedir qualquer investigação e afirmou que sempre se colocou à disposição da PF para prestar esclarecimentos.

Carlos Alberto Queiroz Pereira, o Bebeto, de 46 anos, aproveitou a invasão das facções no Ceará para montar um esquema de corrupção envolvendo prefeitos e deputados. Ele mal sabe escrever (pelo WhatsApp, prefere se comunicar por áudio) e sempre recebe pagamentos em espécie, em notas de 100 reais, porque se confunde com cédulas de outros valores. Suas limitações não o impediram de galgar postos no PCC.

Bebeto ingressou na facção em meados da década de 2010, emprestando suas propriedades rurais em Canindé e Choró, no sertão cearense, para que assaltantes de banco do PCC se escondessem da polícia. Com o dinheiro da atividade criminosa, ele fundou uma empresa de locação de veículos em nome de um testa de ferro e passou a disputar licitações em prefeituras cearenses. Abriu ainda outras oito empresas – todas em nome de laranjas, nos setores de transporte escolar, coleta de lixo, iluminação pública e locação de maquinário – que assinavam contratos superfaturados com o poder público, segundo a PF. Um estudo da Controladoria-Geral da União (cgu) indicou que as empresas de Bebeto receberam 455 milhões de reais de órgãos públicos do Ceará entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025. A PF estima que Bebeto tenha desviado 12% desse valor, percentual sempre citado por ele em conversas via WhatsApp coletadas pela PF, o que equivale a 55 milhões de reais.

De acordo com a Polícia Federal, Bebeto cooptava prefeitos pelo estado financiando suas campanhas por meio de caixa dois. Em retribuição, as prefeituras deviam contratar suas empresas. Pelo menos 51 dos 184 municípios do Ceará integravam o esquema, na estimativa da PF. Bebeto também destinava 3% dos valores desviados nos contratos com o poder público para a facção dominante em cada município, mesmo que fosse uma rival do PCC, para que ela apoiasse o candidato escolhido por ele e impedisse a campanha dos rivais.

O esquema ganhou amplitude a partir de 2023, quando Bebeto se aproximou do deputado federal Antônio Luiz Rodrigues Mano Júnior, mais conhecido como Júnior Mano (PSB-CE). A dupla entrou de cabeça no submundo do orçamento secreto no Congresso Nacional e passou a mirar no desvio de emendas parlamentares, não só de Mano, mas de outros deputados cearenses. Um áudio de setembro de 2024 mostra Bebeto, então candidato a prefeito de Choró, município de 12 mil habitantes, contando que pretendia desviar 12% de uma “emenda de comissão”. A emenda havia sido apadrinhada na surdina pelo então deputado federal José Guimarães (PT-­CE), na época líder do governo na Câmara e atualmente ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais. “O pessoal do Guimarães quer fazer um negócio de 1 milhão e meio de emenda de saúde, aí eu quero que meu filho veja aí. Vou mandar eles te ligar, viu? Que aí eu fico mais… no máximo 12%. Indicação pra Choró”, disse Bebeto.

O deputado José Guimarães acabou enviando 2 milhões de reais em emendas para Choró, segundo Bebeto, em uma conversa com sua irmã, Cleidiane Queiroz Pereira. No mesmo diálogo, ele disse que o deputado federal Eunício Oliveira (MDB-CE), chamado por ele de “nosso senador” (cargo já ocupado pelo emedebista), se comprometeu a enviar emenda de 1 milhão para Canindé, cidade que também integrava o esquema de Bebeto. “O Eunício disse que mandava mais um [milhão], não ia deixar de contribuir com Canindé. Eu ouvi uns áudios do Eunício dizendo.” O Portal da Transparência do governo federal não especifica os municípios beneficiados com as emendas de Eunício. Nem ele, nem o deputado José Guimarães chegaram a ser investigados.

Ouvido pela piauí, Eunício disse, por meio de uma nota, que “a referida emenda”, solicitada “pela administração municipal para a área da saúde”, chegou a ser indicada mas acabou sendo cancelada depois de um pedido que ele próprio fez ao Ministério da Saúde assim que surgiram suspeitas de mau uso. “O deputado Eunício Oliveira”, encerra a nota, “nunca manteve relação política ou de qualquer natureza com o então prefeito de Choró.” José Guimarães, por sua vez, disse que o PT disputou eleições em diversos municípios do Ceará, inclusive em Choró, mas nunca fez “indicativo de que emendas do [seu] gabinete [fossem] liberadas para qualquer prática escusa de desvio de verba”.

De acordo com a PF, o dinheiro desviado por Bebeto nos contratos com as prefeituras cearenses era lavado de várias maneiras. O deputado Júnior Mano recebeu 490 mil reais de uma empresa contratada por prefeituras do estado, enquanto 180 mil reais depositados em espécie em uma única agência bancária acabaram na conta de Giordanna Silva Braga, mulher de Mano e ex-prefeita de Nova Russas, no Ceará. Mas a PF descobriu que havia formas mais esdrú­xulas de legalizar o dinheiro: Mano chegou a pagar 26 vezes a mesma fatura do cartão de crédito, em um total de 55 mil reais, o que gerou um saldo no cartão à disposição do parlamentar – para a polícia, foi uma maneira de “esquentar” dinheiro de origem espúria.

Júnior Mano é investigado em inquérito da PF que tramita em sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF). A sua assessoria negou em nota que ele esteja envolvido em desvio de dinheiro público ou com facções criminosas. “A tentativa de vincular o deputado Júnior Mano a grupos criminosos é fake news que vem sendo produzida por adversários políticos desde o início do ano [de 2025] com vistas às próximas eleições. A mentira tem sido requentada repetidas vezes para alimentar blogs, redes sociais de grupos políticos e, claro, para influenciar decisões judiciais contra o deputado.”

Bebeto, eleito prefeito de Choró com 61% dos votos, chegou a ser detido, foi solto, teve prisão preventiva decretada e está foragido até hoje. Em abril do ano passado, o TRE do Ceará cassou o seu mandato por abuso de poder político e econômico. Em março, um aliado seu, Paulo George de Sousa Saraiva (PSB-CE), o Paulinho, elegeu-se prefeito de Choró.

As eleições municipais de 2024 também foram tensas em outro município cearense, Sobral, por causa da atuação do crime organizado. Dividida entre várias facções, a cidade viu o CV estabelecer um “pedágio” entre 30 mil e 60 mil reais para que os candidatos a prefeito e vereador pudessem fazer campanha no Centro e nos sete principais bairros sob seu domínio.

Como a candidata à prefeitura Izolda Cela (PSB) recusou a chantagem, a facção reagiu com violência. Cela fazia uma carreata no Centro de Sobral na tarde de 2 de setembro de 2024 quando membros do CV começaram a soltar rojões na direção dos apoiadores dela – alguns tiveram ferimentos sem gravidade. No mesmo dia, um integrante da facção publicou no Instagram uma foto de uma de suas mãos segurando uma pistola com a frase “Bala na Izolda na próxima”. Preso em flagrante, disse em depoimento que a ordem para atacar Cela viera de uma liderança do CV, cujo nome ele não soube dizer, e que apenas o candidato rival, Oscar Rodrigues (União Brasil), poderia circular nos bairros controlados pela facção. Rodrigues, que não foi investigado no caso, se elegeu com 52% dos votos.

A política do medo propagada pelo CV chegou também a Varjota, no noroeste cearense, onde integrantes da facção ameaçaram usar a violência para fechar acordos com os candidatos a prefeito. “Se ele [Elmo Monte, candidato à reeleição] der a força, todo mundo aí sabe que nós faz ele se eleger novamente […] Todos que nós quer, nós bota”, disse um integrante do CV a uma apoiadora de Monte. Em Potiretama,  cidade de pouco mais de 6 mil habitantes também no interior do Ceará, o prefeito Luan Dantas Felix (PP), um membro do PCC, resolveu calar seus críticos e desafetos a bala. Foi eleito com 54% dos votos. Assim como os políticos trocam de partido, Felix, depois de eleito, trocou o PCC pelo TCP – e assim deu início a uma matança.  A primeira vítima foi assassinada a tiros em janeiro de 2024 por tentar convencer aliados de Felix a migrar para a facção Guardiões do Estado.  Pelos assassinatos, de acordo com mensagens apreendidas pela polícia, o prefeito fazia pagamentos em dinheiro ou nomeava os homicidas para cargos comissionados na prefeitura.

Na manhã de 30 de abril de 2024, Felix foi alvo de buscas em uma operação do Ministério Público do Ceará que investigava compras superfaturadas de combustível pela prefeitura, justamente no posto do qual o prefeito era dono – os gastos entre 2021 e 2024 chegaram a 8 milhões de reais, o dobro em relação ao mesmo período de quatro anos na gestão anterior. Desconfiado de que fora denunciado por um advogado desafeto, mandou tocar fogo na fazenda da vítima. A propriedade ficou parcialmente destruída. Ninguém se feriu. Deu-se o seguinte diálogo:

– Queimou tudo, foi? – perguntou Felix ao seu cunhado que participara do crime.

– Sim – disse o cunhado.

– Show.

Luan Felix foi reeleito em outubro de 2024 com 71% dos votos válidos, mas seu segundo mandato durou pouco: em 3 de abril de 2025, o prefeito foi preso preventivamente no inquérito que apurou o atentado à fazenda. Nesse caso, Felix e seu cunhado foram condenados a seis e cinco anos de prisão, respectivamente, pelo crime de incêndio. O prefeito também é réu em ação penal por homicídio e, na Justiça Eleitoral, teve o mandato cassado por abuso de poder econômico no último pleito. Até o fim de julho, ele permanecia atrás das grades.

O domínio do Comando Vermelho se espalhou para outros estados do Nordeste, recorrendo às estratégias de infiltração na máquina pública desenvolvidas no Ceará. Mas o CV não é o único grupo criminoso com pretensões políticas nessa região do Brasil, subordinando populações inteiras às suas ambições. O promotor Octávio Celso Gondim Paulo Neto, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) da Paraíba, diz que, “se antes o candidato pedia votos para os líderes comunitários, agora ficou refém do líder da facção que controla o bairro”.

Na Paraíba, o município de Cabedelo, com 66 mil habitantes e vizinho à capital João Pessoa, é uma grande península espremida entre o Oceano Atlântico e a Foz do Rio Paraíba. A BR-230, a Transamazônica, corta a península ao meio, dividindo os 24 bairros da cidade em duas partes. A Leste, à beira-mar, estão os moradores mais abastados; a Oeste, os mais pobres. Esta segunda metade de Cabedelo é controlada pelo traficante Flávio de Lima Monteiro, o Fatoka, que até 2023 era um dos líderes da Nova Okaida, maior grupo criminoso da Paraíba, dissidência da Okaida (corruptela de Al Qaeda, o grupo terrorista islâmico).

Em 2020, enquanto estava escondido no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, Fatoka decidiu colocar em ação sua máquina criminal em Cabedelo para ajudar a eleger o seu cunhado, Joedson Ferreira da Silva, o Dinho, como vereador pelo Avante. Dinho é irmão da mulher de Fatoka. O plano funcionou, mas os dois acabaram se desentendendo sobre a prática da “rachadinha”, segundo a qual Dinho tinha que dividir o salário de seis servidores do seu gabinete com o traficante. Fatoka jurou Dinho e sua mulher de morte. O casal teve de fugir às pressas da cidade e sua residência foi completamente destruída. Dinho não voltou a pisar na cidade. Cumpriu seu mandato de vereador participando das sessões apenas remotamente.

Segundo a Polícia Federal, Fatoka estava infiltrado também na prefeitura. Tinha um acordo com o então prefeito de Cabedelo, Vitor Hugo Castelliano (União Brasil), que nomeou doze pessoas ligadas ao traficante para cargos comissionados (entre elas, a filha adotiva de Fatoka, Marcela Pereira da Silva, que se tornou secretária adjunta de ação governamental) e assinou quatro contratos somando 79,6 milhões de reais com uma empresa de fornecimento de mão de obra controlada por Fatoka, a Lemon Terceirização e Serviços. O prefeito também pagava uma espécie de mensalinho de 30 mil reais para o traficante. Em 2024, ainda segundo a PF, Castelliano pediu o apoio do traficante para a candidatura do então vereador André Coutinho (Avante-PB), que concorreu a prefeito. (Em entrevista a uma tevê de João Pessoa, Castelliano tratou da relação entre políticos e faccionados: “Eles agora só deixam político entrar no bairro se pagar. É o famoso ‘paga pra você ter voto’”, disse.)

Na sucessão de Castelliano em 2024, havia outros cinco candidatos ao cargo, mas só Coutinho pôde fazer campanha na metade ocidental de Cabedelo, graças ao apoio de Fatoka. “Boa tarde meu querido! Passando para parabenizar pelas reuniões que têm sido feitas nas comunidades e para enfatizar meu compromisso e apoio à sua candidatura! Estamos juntos e vamos à vitória”, escreveu Marcela da Silva, a filha de Fatoka, para Coutinho, numa mensagem de WhatsApp em julho de 2024. Em agosto, o apoiador do maior rival de Coutinho foi morto a tiros dentro de uma pizzaria de Cabedelo. O Ministério Público da Paraíba suspeita que Fatoka seja o mandante do crime.

André Coutinho foi eleito com dois terços dos votos, mas em novembro do ano passado teve o mandato cassado pelo TRE da Paraíba por abuso de poder político e econômico – sentença que foi confirmada pelo TSE em abril. Quem assumiu o comando da cidade foi o então presidente da Câmara de Vereadores, Edvaldo Manoel de Lima Neto (Avante-PB), que não demorou a tomar uma providência: decidiu manter a aliança com Fatoka fraudando procedimentos licitatórios para favorecer a Lemon, empresa do traficante do CV, segundo o Ministério Público. Em abril, dois dias depois de ser efetivado no posto de prefeito, Edvaldo Neto foi afastado do cargo pela Justiça. Era o terceiro prefeito seguido investigado por ligações com Fatoka – que até o fim de julho seguia foragido. Atualmente a Prefeitura de Cabedelo é comandada pelo vice-prefeito eleito na chapa de Edvaldo Neto, Evilásio Cavalcanti (Avante). A defesa de Edvaldo Neto não foi localizada.

Em 2024, Dinho não disputou nenhum cargo eletivo, nem voltou a Cabedelo. Procurado pela reportagem, não quis se manifestar. À piauí, Castelliano negou ter mantido relacionamento com o traficante. “Não sei quem é Fatoka, não tem uma mensagem sequer de celular ou telefônica dele ou qualquer pessoa ligada a ele para mim ou de mim para ele. Sou acusado exclusivamente por ter assinado digitalmente oito nomeações que foram indicações de vereadores na época, e todas essas pessoas têm ficha limpa. Prefeito nenhum desse Brasil sabe quem são todas as pessoas nomeadas, principalmente indicações de vereadores aliados.”  Em julho, Castelliano teve uma excelente notícia. Mesmo condenado à perda de seus direitos políticos pelo TSE, ele ganhou uma liminar autorizando sua candidatura a deputado estadual neste ano. Quem lhe presenteou com a decisão foi o ministro Kassio Nunes Marques, atual presidente do TSE.

O braço do crime também chegou à capital da Paraíba, João Pessoa. No pleito de 2024, Maria Lauremília Assis de Lucena, mulher do prefeito Cícero Lucena (eleito pelo PP e hoje do MDB), pactuou um acordo com a Nova Okaida. A organização criminosa impediria a campanha de candidatos rivais de Cícero Lucena no bairro São José, uma comunidade com 2 km de extensão e 6 mil moradores, às margens do Rio Jaguaribe. Em troca, o casal Lucena fez duas promessas, de acordo com a investigação da PF. Ofereceu nomear aliados do líder do grupo, Keny Rogeus Gomes da Silva, o Poeta, para cargos na prefeitura e dar verbas para a ONG Ateliê da Vida, gerenciada pela esposa de Keny.

Keny da Silva cumpriu sua parte no acordo, mas a primeira-dama vacilou. Em um áudio gravado dentro da penitenciária de segurança máxima de João Pessoa, Keny da Silva cobra Lauremília Lucena: “Doutora, eu venho pedindo isso à senhora há meses e não fui atendido. Aí vem uma pessoa que se passa por mim e a senhora atende esse pedido. Como eu vou falar novamente para a senhora. Eu não quero saber, doutora, quem é o político ou quem deixa de ser, e pediram por eles. […] Então, que a senhora atenda a esse pedido, doutora, pois é uma determinação minha. Já chega, já se alastrou demais essa situação.”

Lauremília Lucena foi presa pela Polícia Federal em 28 de setembro, a oito dias das eleições, e liberada dias depois graças a um habeas corpus. Ela é ré em ação penal, ainda não julgada, acusada de peculato, corrupção eleitoral e associação criminosa. A defesa da primeira-­dama negou qualquer ilegalidade. Seu marido, que não é acusado no caso, teve 62,6% votos válidos nas seções eleitorais onde votam os moradores do São José – e foi reeleito prefeito com um percentual geral ainda maior, 64%.

No Rio Grande do Norte, prevalece o PCC, que protagonizou um grave episódio de violência política em João Dias, cidade de apenas 2 mil moradores, na divisa com a Paraíba. Em 2020, Francisco Damião de Oliveira, conhecido como Marcelo Oliveira, disputou a prefeitura pelo União Brasil, tendo como vice na chapa Damaria Jácome (pelo PP), irmã do traficante Francisco Deusamor Jácome, membro do PCC. Mesmo foragido da Justiça, o traficante fez campanha para a dupla. Oliveira e Damaria Jácome venceram a disputa.

Assim que  Oliveira tomou posse do cargo, em janeiro de 2021, começou o seu calvário. O prefeito foi obrigado pelo traficante a renunciar para que Damaria Jácome assumisse o comando da prefeitura. Caso contrário, seria morto. Sem alternativas, Oliveira aquiesceu. Em mensagem de áudio encaminhada por aplicativo à tabeliã do cartório que registrou o documento de renúncia, o prefeito detalhou, aos prantos, as ameaças que vinha sofrendo.

O traficante Francisco Jácome foi morto poucos meses depois na Ba­hia, em confronto com a polícia. No ano seguinte, a Justiça devolveu o cargo a Oliveira. A vice-prefeita, que acusou Oliveira de ter informado a localização de seu irmão à polícia baiana, não deixou barato. Segundo investigações policiais, ela contratou dez homens para assassinar o prefeito, que acabou morto a tiros junto com seu pai em uma emboscada, em agosto de 2024, quando fazia campanha para a reeleição.

Em um dos celulares apreendidos nu­ma operação, a polícia encontrou um áudio em que o marido de Damaria Jácome e um dos assassinos do prefeito fala no esquartejamento da vítima, arrancando-lhe a cabeça e retirando o coração – ações comuns do PCC: “Se arrancasse o coração dele pra eu comer nos dente eu comia, de verdade. […] Eu vou pedir a ele pra comprar uma faca que é pra mim […] cortar o pescoço dele, tá ligado? E dar um chute com a cabeça dele.”

Damaria Jácome também disputou as eleições de 2024, agora pelo Republicanos. Em um comício, chegou a dizer que ganharia o pleito “no voto ou na bala”. Mas perdeu para Maria de Fátima Mesquita da Silva, a Fatinha de Marcelo (União Brasil), que se candidatara no lugar do marido assassinado. Pouco tempo depois, Damaria Jácome teve a prisão preventiva decretada, durante a investigação do assassinato de Oliveira, mas conseguiu fugir. Só foi capturada em agosto de 2025, no Paraguai – e denunciada pelo Ministério Público como mandante do crime. À piauí, sua defesa negou a participação dela no assassinato e disse que isso será demonstrado na ação penal.

Como fez a Nova Okaida na Paraíba, outros grupos criminosos copiaram a estratégia das duas maiores facções brasileiras, o PCC e o CV, para se infiltrar na política nordestina. O Bonde dos 40 fez o mesmo no Piauí. Um dos chefes do grupo, o traficante Alandilson Cardoso Passos, investiu mais de 1 milhão de reais na campanha da namorada, a advogada Tatiana Medeiros (PSB), para vereadora em Teresina. Parte desse valor, segundo a Polícia Federal, foi usada para comprar votos nos bairros da capital dominados pelo Bonde dos 40.

Tatiana Medeiros foi eleita com 2,9 mil votos. Com uma cadeira na Câmara de Vereadores da capital piauiense, o Bonde dos 40, segundo a PF, passou a articular a nomeação de membros da facção para o gabinete da vereadora e a fazer contratos com o poder público. “Agora tem a vereadora na Câmara para ajudar”, disse Alandilson Passos a um amigo, por meio do WhatsApp. O traficante, que estava foragido na época, foi preso em novembro de 2024, mês seguinte à eleição. Em seu celular, a PF encontrou as provas de ligação da facção com Tatiana Medeiros. Em abril de 2025, ela também foi presa e afastada da Câmara. Em maio passado, foi condenada pelo TRE do Piauí à perda do mandato e a 19 anos de prisão. Procurada pela reportagem, a defesa de Tatiana Medeiros não se manifestou.

Na região Norte, também já aparecem casos de flagrante infiltração do crime. No mais recente, a Polícia Civil do Amazonas prendeu catorze pessoas no dia 20 de fevereiro. Entre os presos, havia quatro integrantes do “núcleo político” do CV no estado, incluindo Anabela Cardoso Freitas, ex-chefe de gabinete do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante) e três ex-assessores de vereadores da capital, além de um servidor do Tribunal de Justiça. O grupo é acusado de comandar um esquema de tráfico de cocaína colombiana pelo Rio Solimões.

De Norte a Sul do Brasil, o crime organizado se mostra incansável nas tentativas de se inserir em instituições públicas e no sistema econômico. No Rio Grande do Sul, a facção regional Os Manos buscou infiltrar-se nas prefeituras da região de Palmeira das Missões, financiando campanhas de aliados com o dinheiro do tráfico de drogas em 2020. Na cidade de Cerro Grande, de apenas 2,3 mil habitantes, criminosos andavam ostensivamente armados pelas ruas durante a campanha para impedir que os apoiadores do então prefeito Eleedes Zardinello Pinheiro (pdt), candidato à reeleição, circulassem pela cidade. Apenas os aliados do rival, Valmor José Capeletti (PP) podiam transitar livremente. Esse toque de recolher informal, segundo o Ministério Público Eleitoral, prejudicou até os serviços públicos na cidade, pois equipes de assistência social evitaram circular pelas ruas para não serem confundidas com aliados do prefeito.

Em 18 de outubro de 2020, um mês antes das eleições, o carro de Elio Ferreira Brizolla, vice-prefeito em exercício e candidato ao mesmo cargo na chapa de Eleedes Pinheiro, foi fechado numa estrada por outro veículo, do qual saíram quatro homens, dois deles armados com revólveres. Brizolla contou à polícia que lhe disseram para não circular mais pela cidade, pois eles “queriam ganhar a eleição de qualquer maneira” (com o candidato Valmor Capeletti). Um dos criminosos disse ainda, segundo o vice-prefeito: “Vocês têm família, se bobearem matamos até a família de vocês. Vocês sabem que por trás de nós tem uma facção.”

Apoiado pela facção Os Manos, Valmor Capeletti foi eleito com 53% dos votos em 2020. Em março do ano seguinte, Os Manos começou a selecionar os membros do grupo criminoso para serem nomeados para a prefeitura. “Tem lugar pra todo mundo”, disse um faccionado em conversa via WhatsApp encontrada em um celular apreendido pela polícia. Capeletti teve o mandato cassado por compra de votos.

No pleito de 2024, outra facção gaúcha, Os Tauras, impôs o terror em Bagé, no Sul do estado. Em 12 de setembro, a duas semanas das eleições, o então candidato a vereador pelo PT Lucas Borba de Mello publicou vídeos em suas redes sociais com críticas ao PL, a sigla rival. Horas depois, três homens encapuzados invadiram sua casa e o renderam junto com o irmão e o pai, que foram agredidos com chutes e uma barra de metal. “Grava agora, quero ver tu falar agora”, gritava um dos assaltantes – cinco celulares da família foram levados pelo trio. Dois dias depois, o carro de som do então candidato a prefeito Luiz Fernando Mainardi, também do PT, para quem Lucas Mello trabalhava como assessor, foi alvejado por tiros durante uma carreata. Não houve feridos. A Polícia Federal descobriu que Mello e Mainardi foram atacados porque a facção estava apoiando a candidata Manuela Jacques Souza, do PL. Neste caso, não funcionou. Ela perdeu a eleição. Os dois petistas foram eleitos.

Em São Paulo, terra natal do PCC, as investidas eleitorais também vão sendo descobertas, pouco a pouco. Claudinei Alves dos Santos, o Ney Santos, é considerado pelas autoridades como o primeiro faccionado do PCC a sentar-se em uma cadeira de prefeito. Em dezessete anos, sempre a serviço da organização criminosa, ele passou de assaltante de banco a empresário do setor de combustível, até se eleger prefeito de Embu das Artes, na Região Metropolitana de São Paulo, em 2016. Foi preso pela primeira vez em 1999, aos 19 anos de idade, por receptação e formação de quadrilha. Quatro anos depois, foi detido novamente, dessa vez por roubo a uma agência bancária. Ao deixar o cárcere, em 2005, depois de absolvido pelo Tribunal de Justiça, ele já havia se tornado um membro do PCC, de acordo com a polícia.

Entre 2005 e 2016, seu patrimônio cresceu quase 2.000%. Ney Santos formou uma rede de 29 postos de combustível e uma transportadora, todos em nomes de testas de ferro, de acordo com o Ministério Público. Em 2010, quando disputou (e perdeu) uma vaga de deputado federal, sua Ferrari, avaliada na época em 1,5 milhão de reais, foi apreendida. Durante a campanha, diz a polícia, ele distribuiu maconha nos seus comícios – em um deles foram apreendidos 35 kg da droga.

Em 2012, conseguiu ser eleito vereador em Embu das Artes. Quatro anos depois, tornou-se prefeito. Logo  no primeiro ano da gestão, seu subsecretário de comunicação e seu segurança emparedaram a moto do cartunista Gabriel Barbosa da Silva, do jornal Verbo Online, e dispararam três tiros. Todos erraram o alvo de propósito – horas depois, o cartunista recebeu uma mensagem no celular: “os próximos tiros serão na sua cara pra aprender a parar de ser falador.” O motivo do ataque, de acordo com o Ministério Público, foram os trabalhos publicados pelo cartunista com críticas à gestão municipal.

Tem mais. Em 2018, Ney Santos e seu segurança foram abordados pela Polícia Militar na região de Campinas, no interior paulista. No veículo, havia uma pistola com numeração raspada, um colete, 45 munições, um par de algemas e uma faca. Uma denúncia anônima feita na época informou à polícia que a dupla iria assassinar um desafeto de Ney Santos. Os dois foram condenados por porte ilegal de arma de fogo. Apesar dos malfeitos, o prefeito foi reeleito em 2020 pelo Republicanos.

Em nota à piauí, sua defesa qualificou de “mentirosas” as acusações da polícia e do Ministério Público. “Ao longo de mais de catorze anos de apurações contra o ex-prefeito, não foi juntada uma única prova capaz de demonstrar essa falaciosa ligação entre o ex-prefeito e o Primeiro Comando da Capital. […] Essa questão não é nova e já foi reiteradamente esclarecida e sempre ressurge, como de costume, às vésperas de ano eleitoral ou durante período de eleição. […] Aconselhamos a leitura atenta dos autos das ações e investigações envolvendo o ex-­prefeito, a fim de evitar a reprodução de narrativas construídas por determinados membros dos órgãos de investigação e pela oposição política, que se valem da imprensa para conferir aparência de verdade a fatos que não encontram respaldo nos processos judiciais.”

Especialistas em combate ao crime organizado e em processo eleitoral alertam que são necessárias mudanças legais drásticas para evitar o aprofundamento da infiltração das facções nas instituições públicas. A primeira medida é alterar a decisão do STF que, em 2019, determinou a competência da Justiça Eleitoral para julgar crimes comuns vinculados a delitos eleitorais. “A Justiça Eleitoral não tem vocação nem estrutura para julgar casos complexos envolvendo organizações criminosas”, defende Octávio Paulo Neto, promotor do Gaeco na Paraíba. “Não há nem juiz fixo em varas eleitorais. Lidar com a instrução e o julgamento de atos do crime organizado deve caber à Justiça criminal.” Apenas o TRE do Ceará possui duas varas eleitorais para julgar casos envolvendo o crime organizado.

Diante da penetração crescente das facções no processo eleitoral brasileiro, o jurista Márlon Reis, um dos autores da Lei da Ficha Limpa, defende uma atualização da norma, uma vez que a legislação barra apenas candidatos com condenação em segunda instância judicial, o que faz com que os ligados a facções e milícias consigam participar das eleições – como foi o caso do deputado estadual TH Joias no Rio de Janeiro. “Uma possibilidade seria barrar condenados por associação criminosa, ainda que apenas em primeiro grau. Mas isso não basta, uma vez que há candidatos desses grupos com a ficha limpa”, diz Reis.

Em 2025, o TSE barrou dois candidatos a vereador em Belford Roxo, no estado do Rio, ligados às milícias. A decisão, até então inédita, baseou-se no artigo 17 da Constituição Federal, que trata apenas lateralmente do problema, ao proibir o uso de grupos paramilitares pelos partidos políticos. De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, dos oito maiores partidos, apenas um, o MDB, tem norma específica para coibir a filiação de membros de facções.

Para o cientista político José Maria da Nóbrega Júnior, é questão de tempo para que as facções controlem partidos políticos e tenham representantes nos mais altos cargos públicos do país. Nesse cenário, a atividade política não será apenas corrupta, mas também feroz e autoritária. “A redemocratização do Brasil veio com a esperança de um país mais desenvolvido, justo e seguro. Salvo raros períodos, esse pacto falhou. Nunca chegamos perto de debelar a violência, que agora ameaça nos engolir.”