Acidente da Voepass: famílias veem ‘vitória’ em indiciamento da PF | G1
Fonte: g1.globo.com | Data: 06/08/2026 17:30:18
Nesta quinta-feira (6), após o indiciamento de 16 pessoas, integrantes da associação que representa as famílias afirmaram que a conclusão do inquérito representa um avanço, mas destacam que a responsabilização dos envolvidos ainda depende das próximas etapas da Justiça.
“Eu recebo um sentimento de vitória. A expectativa era de dois anos por esse momento. E é o início de uma longa caminhada que nós teremos pela frente, porque nós vamos até o fim da justiça por eles”, afirmou Adriana Ibba, mãe de Liz, de 3 anos, a vítima mais jovem do acidente.
Adriana Ibba, mãe de Liz de 3 anos, diz que recebe indiciamento da PF com ‘sentimento de vitória’ — Foto: Reprodução/EPTV
Em entrevista coletiva, Adriana afirmou ainda que a eventual punição dos indiciados não é capaz de reparar a perda das famílias, mas ressaltou que o caso deve servir de alerta para a segurança da aviação brasileira. “A gente vê de forma muito positiva o trabalho da Polícia Federal, que vai ser um marco para a história e para a segurança da aviação como um todo.”
Presidente da Associação dos Familiares das Vítimas do Voo 2283, Fátima Albuquerque afirmou que o indiciamento reforça o que os parentes defendiam desde os primeiros dias após o acidente. Para ela, a principal surpresa foi a quantidade de pessoas apontadas pela investigação. “Desde o primeiro momento, nós falamos na mídia que aquilo era um crime, era uma tragédia anunciada.”
“A nossa surpresa hoje é ter tanta gente envolvida, é ter sido aliciada tanta gente para viver uma cultura criminosa […] Eles eram profissionais, eles sabiam o que estavam fazendo. […] Todos sabiam que aquela aeronave uma hora ia cair. Todos sabiam, correram o risco, não se importavam.”
As famílias defendem que o processo judicial resulte na responsabilização dos envolvidos e afirmam que também continuarão cobrando medidas para fortalecer a fiscalização da aviação civil. “Estamos fechando um ciclo, estamos começando um outro de mais luta ainda. NCos sentimos, de certa forma, esperançosos. Mas é preciso não tirar o olho, porque agora começa o processo”, completou Fátima.
Quem são os indiciados
Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024 — Foto: Nelson Almeida/AFP
Profissionais com experiência e formação no setor da aviação e engenharia aeronáutica fazem parte dos 16 indiciados da Voepass indiciados pela Polícia Federal pelo desastre aéreo:
Entre os responsabilizados pelas investigações estão o dono da companhia de Ribeirão Preto (SP), José Luis Felicio e o diretor de manutenção Eric Cônsoli, apontado por ex-funcionários como uma figura de grande influência dentro da empresa antes da crise provocada pela queda do avião e do encerramento das atividades.
- Edson Serra Martins
- Luciano Alves de Macedo
- Oderlino de Campos Figueiredo
- John Major Viana
- Marcos Hiroyuki Sato
- Alex de Souza Leandro
- William Schmidt Agatz
- Juliano Flores Pacheco
- Raphael Limongi de Figueiredo
- Marcel Sarquis Moura
- Tiago Passucci Morani
- Carlos Alberto Costa
- Eric Consoli
- Rafael Gimenez Rodrigues
- David da Costa Faria Neto
- José Luiz Felício Filho
Em nota, a Voepass disse que aguarda a divulgação oficial do relatório da PF para conhecer integralmente seu conteúdo e se manifestar.
Depois do relatório da FAB, em julho, a companhia aérea afirmou que o acidente foi o episódio mais grave de sua história e destacou que prestou apoio às famílias das vítimas desde o primeiro momento — leia a nota na íntegra abaixo.
Conversas na cabine
No fim de junho, representantes das famílias tiveram acesso, pela primeira vez, à transcrição das conversas registradas na cabine da aeronave. O documento integra o laudo produzido pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC), que embasa o inquérito da PF.
Ao final de quase 200 páginas, a conclusão do laudo da Polícia Federal é: a tragédia foi resultado da combinação entre falhas recorrentes no sistema de degelo, operação em uma área de formação severa de gelo, falhas na execução dos procedimentos previstos pelo fabricante e sucessivas barreiras de segurança que deixaram de funcionar antes do voo que terminou com a morte de 62 pessoas.
Segundo a perícia, tripulações anteriores omitiram panes graves no diário de bordo técnico para evitar que a aeronave ficasse parada, enquanto o Despachante Operacional de Voo (DOV) liberou a decolagem mesmo com equipamentos obrigatórios inoperantes e previsão de gelo severo na rota.
A análise da PF mostrou que a tripulação convivia com falhas no sistema de degelo, e o áudio da caixa-preta revelou o piloto reclamando antes da queda: “Essa bosta não tá funcionando, né?”.
O relatório do Cenipa

Tragédia da Voepass: vídeo mostra como foi acidente de avião em Vinhedo
Paralela à investigação da PF, o Cenipa apurou fatores que contribuíram para o acidente aéreo e divulgou um relatório. O órgão da Força Aérea Brasileira (FAB) fez dezenas de perícias para reconstruir o voo e entender a sequência de eventos que levou à queda da aeronave.
🔎 Diferentemente do relatório final do Cenipa, que busca apontar fatores contribuintes e prevenir novos acidentes, o inquérito policial tem como objetivo apurar se houve crimes e eventuais responsáveis pela tragédia.
➡️ Entre os principais trabalhos realizados pelo Cenipa estão:
- análise das duas caixas-pretas (gravador de voz da cabine e gravador de dados de voo);
- reconstrução completa do voo, incluindo comandos feitos pelos pilotos e alertas emitidos pela aeronave;
- exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol;
- análise das condições meteorológicas registradas no dia do acidente;
- entrevistas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes;
- estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota da companhia;
- testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500;
- análise de registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e outros documentos técnicos.
Segundo o Cenipa, também foram analisados equipamentos responsáveis pelo controle de diferentes sistemas da aeronave e até as lâmpadas dos painéis do avião para verificar quais estavam acesas no momento da queda.
Caixa preta da aeronave que caiu em Vinhedo (SP). — Foto: Divulgação/FAB
Relembre o acidente
Protesto de familiares das vítimas da queda de avião em Vinhedo — Foto: Gabriella Ramos/g1
O acidente aconteceu em 9 de agosto de 2024.
O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, fazia o voo entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) quando caiu no quintal de uma casa em um condomínio de Vinhedo (SP).
Foi o acidente mais grave da aviação brasileira desde o desastre com o voo da TAM, em 2007.
O que diz a Voepass
A queda do voo 2283, em 9 de agosto de 2024, foi o episódio mais difícil da história da VOEPASS. Desde o momento do acidente, a empresa esteve solidária às famílias das vítimas, compartilhando uma dor que permanece presente em sua memória.
Em mais de 30 anos de operações na aviação brasileira, a companhia jamais havia enfrentado uma situação como essa. Ao longo de três décadas, sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação.
A atuação da empresa sempre esteve pautada em padrões de segurança internacionais, contando inclusive com a certificação IOSA desde 2012, um requisito de excelência operacional emitido apenas para empresas auditadas IATA.
A tripulação do voo 2283 era experiente, capacitada e devidamente certificada, acumulando mais de 5.000 horas de voo e com treinamentos técnicos e acompanhamentos de saúde rigorosamente atualizados, sem qualquer registro prévio ou fator que impedisse sua atuação.
Desde o início das apurações, a VOEPASS atua de forma transparente junto ao Cenipa e às autoridades públicas e segue à disposição de todas as instituições e agentes envolvidos para colaborar com o que for necessário.