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“Eu não sinto dor, só sinto paz”: jovem trans de Araripina compartilha sua redesignação sexual

Fonte: diariodepernambuco.com.br | Data: 07/08/2026 12:08:32

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Agnes Carvalho, de 28 anos, diz ser a primeira jovem trans de Araripina a realizar cirurgia de redesignação sexual e compartilha o processo nas redes sociais/Foto: Cortesia

Agnes Carvalho, de 28 anos, diz ser a primeira jovem trans de Araripina a realizar cirurgia de redesignação sexual e compartilha o processo nas redes sociais (Foto: Cortesia)

“Leveza”. É essa a palavra que Agnes Alves de Carvalho, de 28 anos, escolhe para descrever o processo de redesignação sexual pelo qual tem passado. A jovem, natural de Araripina, no Sertão de Pernambuco, diz ser a primeira mulher trans da cidade a realizar o procedimento e tem compartilhado a jornada nas redes sociais.

“Quando acordei da anestesia, eu senti uma leveza, parece que alguém tirou um peso de toneladas de cima de mim”, conta ao Diario de PernambucoAgnes dividiu um pouco da própria história com a equipe de reportagem, relembrando este caminho de autoaceitação e superação.

Descoberta e coragem

A jovem conta que foi na pré-adolescência, aos 12 anos, que começou a questionar sua identidade e a buscar respostas para o que sentia. Naquele momento, a escassez de conhecimento e o medo do preconceito na região atrasaram o que ela chamou de “transição social”.

Aos 16 anos, mesmo já sabendo que era uma mulher trans, se assumiu como um homem gay por receio da violência e da falta de oportunidades. Na época, ouviu da mãe um pedido de cuidado que a marcou.

“Tentei preparar minha família para contar sobre ser trans. Minha mãe me cortou de imediato e falou: ‘Tudo bem, eu sei que você é gay, mas só não inventa de colocar roupa de mulher’. Aquilo machucou muito, mas entendi. Araripina é uma cidade do interior, tem muito preconceito, poucas oportunidades. Ela tinha medo de eu não conseguir um trabalho, virar chacota, ou apanhar na rua”, recorda.

Foram anos guardando a própria identidade, que sequer chegou a ser revelada para a mãe. Ela faleceu sem saber que tinha uma filha trans. A mudança definitiva na vida de Agnes aconteceu justamente após a perda da mãe.

Agnes decidiu se mudar para São Paulo há seis anos em busca de autonomia e trabalho. Foi lá que iniciou a transição social e, anos depois, deu início ao sonho da cirurgia.

“Durante esse tempo, fui entendendo que ninguém podia mudar a mulher que eu era por dentro. Eu precisei ter maturidade e resiliência para esperar o momento certo”.

A conquista da cirurgia

Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), é possível realizar o processo de redesignação sexual. No entanto, o tempo na fila pode passar de 10 anos, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Na rede privada, os custos do procedimento podem ultrapassar dezenas de milhares de reais.

Ao pesquisar sobre o processo, Agnes descobriu que as operadoras de saúde são legalmente obrigadas a cobrir as etapas da cirurgia do processo transexualizador.

Após cumprir todo o acompanhamento multidisciplinar exigido (com psicólogo, psiquiatra e endocrinologista), ela obteve a liberação e realizou a cirurgia no último dia 3 de julho, em São Paulo.

“O pós-operatório exige muitos cuidados e disciplina com as dilatações, mas a cirurgia foi um sucesso e ter um acompanhamento atencioso faz toda a diferença. Eu não sinto dor, só sinto paz”, relata.

Rede de apoio e inspiração

Mais do que uma realização pessoal, a conquista virou representatividade. Agnes diz que, desde que começou a postar sobre seu processo, tem recebido dezenas de mensagens no Instagram de garotas de Pernambuco, do Ceará e de outros estados do Nordeste.

No perfil, ela orienta sobre como solicitar laudos, lidar com a burocracia dos planos de saúde e acessar os direitos garantidos por lei.

“Se eu estivesse em Araripina sem informação, não teria feito um terço do que fiz hoje. Eu me sinto na obrigação de levar esse conhecimento para a minha cidade e mostrar que é possível, para que outras meninas trans consigam sonhar também”, destaca.

Agnes agora olha para o futuro com novos planos: quer fazer cursos na área da beleza, empreender e estruturar um negócio voltado para a geração de empregos exclusivamente para a comunidade trans.

“A cirurgia me permitiu sonhar. Quero montar o meu negócio e empregar pessoas trans, entrar em projetos sociais, contar a minha experiência e ajudar meninas a trilhar esse mesmo caminho, e ter conhecimento. Quero ter filhos, adotar duas crianças. Eu tenho um relacionamento que me faz sonhar muito. Antes, eu não via com tanta amplitude como vejo hoje”, finaliza.