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Cinema Virou TikTok de Conteúdo e Powerpoint de Fuzil, em Santa Catarina

Fonte: conectasc.com.br | Data: 07/08/2026 23:13:03

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Desde 2024, o Prêmio Catarinense de Cinema não tem verba. Em 2025, o governo gastou R$ 216 milhões em publicidade. A Sala Gilberto Gerlach, com projetor DCP de última geração para cinema, está sendo usada pela Polícia Militar para passar PowerPoint. O Maria Joana Festival de Cinema e o Anima Queer foram censurados. PowerPoint pode.

O dinheiro público continua circulando em grande escala em Santa Catarina. Sua distribuição revela uma mudança de prioridade. Editais estruturantes para cinema sofrem interrupções, atrasos ou redução de alcance. Ao mesmo tempo, governos ampliam investimentos em comunicação institucional, publicidade digital e produção de conteúdo para plataformas.

Desde 2024, o Prêmio Catarinense de Cinema não tem verba. O edital 2025 foi lançado para 2026 com R$ 9 milhões anunciados. Chegamos ao segundo semestre de 2026 e não há previsão de pagamento.

Em 2025, o governo de Jorginho Mello registrou gasto recorde com publicidade e propaganda: R$ 163,5 milhões pagos, ou R$ 216 milhões se considerados os empenhos, um aumento de 136% em relação a 2023.

O cinema trabalha com processos longos, autoria, pesquisa, dramaturgia, experimentação, formação profissional e circulação. Um filme pode levar anos entre desenvolvimento, produção, montagem, festivais e distribuição. Essa temporalidade entra em conflito com uma política de comunicação baseada na velocidade das plataformas, na produção cotidiana de conteúdo e na necessidade permanente de alimentar redes sociais.

Essa mudança cria uma espécie de audiovisual governamental de plataforma. O vídeo curto, a campanha institucional, o registro de inauguração, o conteúdo para TikTok e Instagram passam a ocupar uma posição estratégica na comunicação pública. A obra cinematográfica autoral, por sua vez, exige investimento continuado e concede aos artistas uma autonomia discursiva muito maior.

O Estado que controla sua própria comunicação consegue controlar a narrativa que produz sobre si mesmo. O Estado que financia cinema autoral financia também a possibilidade de ser questionado pelo cinema.

A tara do bolsonarismo pelo audiovisual

O bolsonarismo tem uma tara antiga pelo audiovisual. Não é por acaso. O cinema produz memória, constrói narrativa, fixa imagem no imaginário popular.

O filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, foi alvo de denúncia na Ancine por gravação irregular no Brasil. A produtora não comunicou a agência sobre a produção de obra audiovisual estrangeira em território nacional. O filme foi lançado em junho de 2026 no Fraud Fighter Summit e tem estreia prevista para 11 de setembro de 2026 nos cinemas brasileiros.

A Paris Filmes, uma das maiores distribuidoras do país, recusou a proposta de distribuir o filme. O grupo Prerrogativas acionou o TSE para impedir a exibição até o fim das eleições, alegando propaganda eleitoral antecipada e dissimulada.

A ânsia de produzir um filme sobre Bolsonaro revela a compreensão de que o cinema é ferramenta de construção de legado. O bolsonarismo sabe que o cinema autoral produz uma memória que permanece depois do governo que o financiou. A diferença é que o bolsonarismo quer produzir o próprio filme, controlar a narrativa, evitar o cinema que questiona.

Essa dimensão ajuda a entender por que determinados governos podem considerar mais confortável investir milhões em publicidade e comunicação digital enquanto mantêm uma política cinematográfica fragilizada.

Santa Catarina tem seus próprios astros do audiovisual

Santa Catarina não fica atrás. O estado produziu seus próprios astros do audiovisual bolsonarista.

O Véio da Havan, Luciano Hang, tem documentário próprio sobre sua trajetória, disponível no YouTube, com centenas de milhares de visualizações. O documentário mostra a infância simples em Brusque, os desafios na escola, a construção do império Havan. Tudo com produção profissional, trilha sonora, depoimentos, narrativa de superação.

A moça germânica de Pomerode, professor de História com piscina decorada com suástica, virou caso nacional. O símbolo nazista no fundo da piscina foi flagrado por helicóptero da polícia em 2014. O Ministério Público de Santa Catarina reabriu procedimento para apurar responsabilidade civil e criminal em 2025. O caso rende imagens, vídeos, reportagens, conteúdo para redes sociais.

A deputada Júlia Zanatta, com sua tiara de flores associada ao nazismo, construiu uma imagem visual recognível. A tiara virou marca registrada, símbolo de identificação, elemento de branding político. A deputada nega as acusações de associação ao nazismo, entra com processo contra quem faz a associação, mas a imagem permanece, circula, é compartilhada.

Esses atores do audiovisual bolsonarista em Santa Catarina entendem o poder da imagem. Produzem seu próprio conteúdo, controlam a narrativa, ocupam as plataformas. O cinema autoral, que poderia questionar essas narrativas, fica sem verba, sem espaço, sem apoio.

A sociedade do espetáculo cultural catarinense

Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo (1967), definiu o espetáculo como o conjunto das relações sociais mediadas pelas imagens. O espetáculo não é apenas um conjunto de imagens postadas ou compartilhadas nas plataformas de mídias sociais, ele está inserido no contexto das relações sociais contemporâneas, mediando as relações entre as pessoas por imagens, narrativas e enquadramentos.

Debord argumenta que a sociedade moderna é dominada por um “espetáculo”, ou seja, um conjunto de imagens e mensagens que são veiculadas pela mídia e pelo mercado e que têm como objetivo promover o consumo e a conformidade.

Essa chave ajuda a entender por que a Camerata, a Maratona Cultural, o Santa Catarina Canta e Encanta e o Balé Bolshoi têm cada ano mais verba. São eventos de palco, com visibilidade imediata, com plateia presente, com foto para o release, com vídeo de 30 segundos para o Instagram do governo.

O cinema não tem visibilidade imediata. Um filme não rende foto de autoridade no palco. Não tem aplauso para cronometrar. Não tem plateia reunida para o release institucional. O cinema trabalha com tempo outro, com memória que permanece depois que o espetáculo acabou.

A distribuição de verbas culturais em Santa Catarina segue a lógica do espetáculo. O que rende imagem imediata, o que pode ser transformado em conteúdo para rede social, o que produz a foto da autoridade no palco recebe prioridade. O cinema, que exige investimento continuado e concede aos artistas uma autonomia discursiva muito maior, fica em segundo plano.

A janela fechada do Prêmio Catarinense de Cinema

O edital 2025 abriu inscrições entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026. R$ 9 milhões anunciados. Chegamos ao segundo semestre de 2026 e o dinheiro não tem previsão de sair.

Funciona como o golpe da janela fechada do PIC. O edital abre, os projetos são aprovados, os produtores culturais começam a planejar, e no meio do caminho a verba evapora. A diferença é que o PIC tem pelo menos a cara de pau de fechar a janela em três horas. Aqui a janela fica aberta no site, o edital está lá, bonito, com cronograma, categorias, valores. Só que o dinheiro não sai.

A chegada de recursos do Programa Nacional Aldir Blanc e da Lei Paulo Gustavo produz uma situação curiosa. O dinheiro destinado à cultura chega ao território por meio de uma política nacional, enquanto sua execução local frequentemente aparece no discurso público como resultado da própria administração estadual ou municipal.

Quem está financiando a cultura e quem está construindo a narrativa sobre quem financia a cultura?

Recursos federais podem ser decisivos para manter políticas culturais em funcionamento nos estados e municípios, enquanto a comunicação institucional local apresenta esses investimentos dentro de uma narrativa administrativa própria.

A sala de cinema virou sala de PowerPoint

A Sala de Cinema Gilberto Gerlach, no Centro Integrado de Cultura, foi equipada com projetor DCP de última geração. O DCP é um formato exclusivo para cinema digital, com qualidade de projeção cinematográfica.

A sala está sendo usada pela Polícia Militar para passar PowerPoint no projetor feito exclusivamente para cinema.

O equipamento que deveria exibir filmes catarinenses, que deveria dar vida ao Prêmio Catarinense de Cinema, está sendo usado para apresentação institucional.

Censura na sala de cinema

O Maria Joana Festival de Cinema, com filmes para debater ciência e sociedade, cannabis medicinal, saúde pública e direitos civis, foi barrado de acontecer na Sala Gilberto Gerlach.

O Anima Queer, festival de animação LGBTQIA+, também foi censurado para acontecer no mesmo espaço.

PowerPoint da Polícia Militar pode. Festival de cinema sobre cannabis não pode. Festival de animação queer não pode.

A política cultural deixa de operar somente pela seleção de projetos. Ela começa a operar pela definição prévia dos assuntos considerados legítimos.

Quando determinados temas passam a ser tratados como inconvenientes, o poder público estabelece limites políticos sobre aquilo que considera aceitável como conteúdo cultural. Um filme sobre cannabis medicinal pode envolver ciência, saúde pública, pesquisa, redução de danos, políticas de saúde e direitos civis. Um filme sobre uma personagem LGBTQIA+ pode investigar relações familiares, violência, identidade e transformação social. O valor cultural dessas obras existe independentemente da posição política do governo.

Florianópolis e a pedagogia da escassez

Florianópolis permite aprofundar a questão pela relação entre volume de recursos, capacidade de gestão e prioridade política.

Se os recursos federais destinados à cultura são dezenas de vezes superiores aos investimentos históricos locais em determinadas áreas, a questão passa a ser a capacidade de transformar dinheiro em política cultural consistente.

A crítica precisa distinguir três problemas: volume de recursos disponíveis, origem desses recursos e qualidade da gestão e dos resultados produzidos.

A dimensão LGBTQIA+, a cannabis medicinal, a ciência, questões raciais, gênero, sexualidade e outros temas contemporâneos podem aparecer como indicadores da disputa sobre autonomia cultural.

A conta do TikTok

Vale levantar os contratos efetivos de publicidade, comunicação, produção de conteúdo e mídia digital para construir uma comparação mais contundente: quanto custa ao poder público produzir a imagem de um governo durante um ano e quanto custa produzir cinema durante o mesmo período?

A comparação pode incluir publicidade institucional, campanhas em redes sociais, contratação de agências, impulsionamento, produção de vídeos, contratação de influenciadores, mídia digital, campanhas de turismo, produção audiovisual institucional, editais de cinema, desenvolvimento de roteiros, produção de longas e curtas, festivais, cineclubes e distribuição.

O Estado está deslocando o audiovisual de uma política cultural para uma política de comunicação.

Durante décadas, audiovisual significou cinema, televisão, documentário, animação, vídeo experimental e produção independente. Hoje o mesmo termo pode abranger um vídeo institucional de 30 segundos, uma campanha eleitoral, um TikTok produzido por uma agência contratada pelo Estado, uma publicidade turística, um longa-metragem de ficção, um documentário científico ou uma obra experimental.

Se todo vídeo passa a ser audiovisual, então precisamos perguntar qual audiovisual merece política pública, qual audiovisual produz conhecimento, qual audiovisual constrói memória e qual audiovisual apenas reproduz a comunicação oficial do poder.

O cinema autoral produz uma memória que permanece depois do governo que o financiou. A publicidade institucional desaparece junto com a campanha.

Talvez o debate mais urgente sobre o audiovisual catarinense não seja quanto dinheiro existe. Talvez seja decidir que tipo de imagem queremos deixar depois que o dinheiro público for gasto.