Aumento expressivo de buscas online por ‘canetas emagrecedoras’ ilegais ou sem registro pode representar ameaça à saúde pública
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 08/08/2026 04:14:57
Substâncias destinadas a tratamentos para a diabetes e emagrecimento ainda não autorizadas – como a Retatrutida – viralizam na internet e indicam que pode estar havendo um comércio perigoso de remédios ilegais ou mesmo falsificados, o que representa sério risco à saúde dos consumidores
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O desenvolvimento de medicamentos à base de semaglutida (como Ozempic®, Rybelsus® e Wegovy®) e de tirzepatida (Mounjaro®) transformou o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. A elevada eficácia desses medicamentos – todos os acima citados aprovados no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – despertou grande interesse da população. Ao mesmo tempo, intensificou a busca por informações sobre produtos ainda sem autorização sanitária, que vêm sendo comercializados ilegalmente no mercado paralelo da internet, gerando riscos à saúde de quem se arrisca a usá-los.
É o que mostra o estudo “Saúde em risco na era digital: desinformação, automedicação e busca por canetas emagrecedoras não autorizadas no Brasil”. Entre maio de 2025 e maio de 2026, analisamos, com base em dados do Google Trends, o comportamento de busca relacionado a cinco produtos vendidos como canetas emagrecedoras sem registro sanitário no país: T.G., Tirzec, Lipoless, Lipoland e Retatrutida. Sem o aval da Anvisa, não há garantia de que a composição informada no rótulo corresponda ao conteúdo dos produtos. Também não há garantia de que eles atendam aos padrões de qualidade, concentração e segurança exigidos.
No caso da Retatrutida, a Anvisa alertou que a substância está em fase de pesquisa clínica e ainda não foi aprovada para uso terapêutico em nenhum país.
Expansão acelerada e diferenças regionais
Os resultados da pesquisa apontaram um aumento expressivo do interesse por esses medicamentos ao longo do período analisado. Após um intervalo inicial de estabilidade, as buscas passaram a crescer continuamente entre junho de 2025 e janeiro de 2026, com aumento médio de 6,29% por semana. Depois disso, a tendência foi de estabilização, mas em um patamar elevado.
Esse aumento expressivo e sustentado de interesse evidencia a crescente influência do ambiente digital na procura por tratamentos para emagrecimento. Nesse contexto, redes sociais, aplicativos de mensagens e mecanismos de busca tiveram papel central tanto na circulação de informações quanto na disseminação de desinformação sobre o tema. Os dados não permitem saber quantas dessas buscas foram convertidas efetivamente em compras.
Nossa análise revelou também diferenças regionais. Mato Grosso do Sul registrou o maior volume proporcional de buscas, com 88,9 pesquisas por milhão de habitantes, seguido por Mato Grosso (48,8), Distrito Federal (39,0), Alagoas (33,2) e Acre (29,4). Na outra extremidade, Amapá (1,2), São Paulo (2,5), Rio de Janeiro (3,6) e Minas Gerais (4,0) apresentaram os menores índices de interesse.
A explosão das buscas online por informações sobre canetas emagrecedoras ocorreu em paralelo ao crescimento das apreensões realizadas por autoridades brasileiras. Segundo a Polícia Federal, Mato Grosso do Sul se destaca como uma das principais rotas de entrada e distribuição de medicamentos sem autorização sanitária, concentrando cerca de 60% das apreensões no país.
Famosos que aderiram à caneta emagrecedora falam dos efeitos
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Lucas Buda aliou o uso do mounjaro com uma rotina de exercícios físicos intensa e alimentação audável com acompanhamento médico. Ele disse já ter perdido 32 quilos e o objetivo é perder mais dez — Foto: Reprodução/Instagram
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A ex-panicat Juju Salimeni disse em uma entrevista que faz uso de uma baixa dosagem de mounjaro para controlar a fome: “Eu não quero emagrecer. Uma vez por mês, para mim, está ótimo” — Foto: Reprodução/Instagram
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A apresentadora Oprah Winfrey afirmou ter perdido 23 quilos com o auxílio da caneta emagrecedora, porém, relatou ter tido um efeito rebote após interromper o uso. Ela recuperou 9 quilos. — Foto: Reprodução/Instagram
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Jojo Todynho utilizou o medicamento mounjaro para ajudar a manter o resultado após perder mais de 80 quilos com uma cirurgia bariátrica e mudanças no estilo de vida — Foto: Reprodução/Instagram
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O jornalista Luiz Bacci revelou ter perdido cerca de 15 quilos após utilizar a medicação nos EUA — Foto: Reprodução/Instagram
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Silvia Abravanel perdeu cerca de 35 quilos com o mounjaro. Ela conta que mantém o uso do medicamento mais de um ano depois para evitar o reganho de peso: ‘Se eu parar eu sei que vou engordar” — Foto: Reprodução/TV Globo
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A ex-“BBB” Viih Tube admitiu ter tentado usar canetas emagrecedoras após o nascimento de seu segundo filho: “Tentei tomar Mounjaro e Ozempic, com acompanhamento médico, porém passei muito mal. Muita náusea, enjoo, vômitos” — Foto: Reprodução/Instagram
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Em 2024, a Receita Federal apreendeu cerca de 2,7 mil unidades identificadas como “canetas emagrecedoras”. Em 2025, esse número saltou para aproximadamente 32 mil unidades e, apenas nos dois primeiros meses de 2026, alcançou 25 mil. No acumulado desde 2024, as apreensões representam cerca de R$ 51 milhões em produtos retidos pelas autoridades.
Algoritmos e desinformação
A venda de medicamentos falsificados ou sem aprovação sanitária para emagrecimento representa uma ameaça crescente à saúde pública. No Reino Unido, já foram registradas notificações de pancreatite e óbitos associados ao uso de alguns dos produtos oferecidos em redes sociais e sem autorização para venda no país. No Brasil, a Anvisa investiga eventos adversos e mortes associadas ao uso de produtos sem aprovação.
Em julho de 2025, a Eli Lilly alertou para a circulação de versões falsificadas ou não aprovadas de medicamentos à base de tirzepatida, como Lipoless, T.G. e Tirzec. A farmacêutica destacou que não são equivalentes ao Mounjaro®, não possuem aprovação sanitária e podem conter dosagens incorretas, impurezas ou até ausência do princípio ativo.
O termo “canetas emagrecedoras” consolidou-se no discurso público e passou a ser amplamente utilizado pela mídia e pela população para designar medicamentos destinados ao emagrecimento. A expressão, no entanto, não retrata toda a complexidade desse mercado, que inclui produtos comercializados ilegalmente em diferentes apresentações além das canetas, como frascos e ampolas.
Pistas digitais fortalecem a vigilância sanitária
As buscas na internet constituem pistas digitais capazes de revelar mudanças no comportamento da população antes mesmo que elas apareçam nos sistemas tradicionais de vigilância. Essas evidências reforçam o potencial da epidemiologia digital e da infodemiologia como ferramentas complementares à vigilância sanitária. Em um ambiente digital cada vez mais mediado por algoritmos, compreender como essas dinâmicas influenciam o comportamento informacional tornou-se um desafio estratégico para a saúde pública.
Mais do que registrar tendências, as buscas na internet podem funcionar como um sistema complementar de vigilância, contribuindo para identificar riscos emergentes, orientar ações regulatórias e subsidiar políticas públicas. Também fortalecem estratégias de comunicação capazes de reduzir os danos associados à desinformação e ao mercado clandestino de medicamentos.
Durante a elaboração deste artigo, realizamos uma busca exploratória no Instagram utilizando os termos T.G., Lipoless, Lipoland, Tirzec e Retatrutida, citados nos alertas da Anvisa. Em poucos segundos, a plataforma passou a exibir anúncios relacionados aos produtos pesquisados.
Embora essa observação não integre os resultados da pesquisa, ela exemplifica o funcionamento da curadoria algorítmica, que personaliza o conteúdo exibido aos usuários com base em seus interesses e interações. Isso reforça a necessidade de estudos sistemáticos e longitudinais para compreender como os sistemas de recomendação influenciam a circulação, a visibilidade e a promoção de produtos comercializados ilegalmente nas plataformas digitais.
A continuidade e a ampliação dessas investigações digitais são fundamentais para subsidiar políticas públicas mais eficazes e aprimorar a regulação das plataformas, promovendo a segurança da sociedade e fortalecendo a confiabilidade das informações disponíveis sobre saúde.
*Claudia Pereira Galhardi é pesquisadora do Núcleo de Estudos em Comunicação, História e Saúde (NECHS), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)
*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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