Sem luz, comunidades amazônicas apostam em energia solar para fornecer internet
Fonte: exame.com | Data: 08/08/2026 07:54:58
Cerca de 1 milhão de pessoas ainda vivem sem acesso adequado à energia elétrica na Amazônia Legal, segundo o Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA). Em parte dessas áreas, não existe fornecimento regular de eletricidade. Em outras, comunidades dependem de geradores a diesel, que têm custo elevado, provocam emissões e não garantem o funcionamento contínuo de equipamentos e serviços.
A falta de energia elétrica também limita o acesso à internet em comunidades indígenas, quilombolas, extrativistas e ribeirinhas da Amazônia. Sem eletricidade durante todo o dia, equipamentos de conectividade podem deixar de funcionar justamente em territórios onde a internet é usada para acessar serviços de saúde, educação, digitalização e monitoramento ambiental.
Para enfrentar esse problema, a Rede Conexão Povos da Floresta passou a combinar conectividade com sistemas de energia solar off-grid na Amazônia, ou seja, estruturas fotovoltaicas que funcionam de maneira independente da rede convencional de distribuição de eletricidade.
A energia gerada pelos sistemas fotovoltaicos é utilizada para alimentar os equipamentos responsáveis pela conexão à internet. Além da instalação dos equipamentos, o programa Agentes Comunitários de Energia forma moradores dos próprios territórios para operar, acompanhar e fazer a manutenção dos sistemas solares.
Atualmente, os kits de internet da Rede Conexão Povos da Floresta estão presentes em 2.689 comunidades nos nove estados da Amazônia Legal, com 68.538 usuários cadastrados e mais de 205 mil pessoas beneficiadas. Os números foram extraídos do painel de controle da organização.
Como a energia solar mantém a internet na Amazônia
Ao longo de 2025, a Rede Conexão Povos da Floresta consolidou cerca de 350 kits de energia solar em operação e formou 32 moradores na primeira turma do curso de Agentes Comunitários de Energia.
A turma piloto foi realizada na região do Tapajós, no Pará, com atividades presenciais e online. A formação busca enfrentar um desafio frequente da infraestrutura instalada em áreas remotas da Amazônia: quem faz a manutenção dos equipamentos depois que eles chegam às comunidades.
Ao formar moradores dos próprios territórios, o programa tenta reduzir a dependência exclusiva do deslocamento de técnicos de outras regiões para tarefas como acompanhamento dos sistemas, identificação de problemas e intervenções básicas.
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Na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, no Pará, o fornecimento contínuo de eletricidade ainda não chegou a todas as comunidades. Na região, sistemas de energia solar convivem com geradores movidos a diesel.
“Participar do curso é muito importante para nós, mulheres, que estamos à frente dos territórios. Na Reserva Tapajós-Arapiuns, ainda não temos energia 24 horas. O que temos é energia solar, por iniciativa das pessoas ou por projetos, ou então o motor a diesel, que é caro”, afirma Reginalva Alves, da comunidade Anarrio-Arapiuns, no Pará.
Segundo Reginalva, o aprendizado técnico também tem impacto sobre a atuação das lideranças locais. “Ter esse conhecimento é fundamental, especialmente para lideranças femininas.”
Marcelo Rodrigues, da comunidade Samaúma, também no Pará, afirma que pretende utilizar o conhecimento adquirido para melhorar a gestão do consumo de energia em sua comunidade. “Vou levar para minha comunidade o que aprendi sobre uso correto da energia, para evitar desperdícios.”
Curso de energia solar chega a comunidades do Amapá
Depois da experiência no Pará, o programa Agentes Comunitários de Energia iniciou uma segunda etapa em 2026. A nova turma começou em 16 de junho de 2026 e reúne 48 participantes de comunidades tradicionais do Amapá.
A formação passou a ser reconhecida pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) como curso de Qualificação Profissional, com carga horária e titulação alinhadas à Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). O curso foi estruturado em uma parceria entre SENAI, Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e Rede Conexão Povos da Floresta.
A formação soma 160 horas, divididas em três módulos que combinam atividades presenciais e a distância. O segundo módulo ocorreu entre 27 de julho e 1º de agosto de 2026, na Escola Agroextrativista do Carvão, em Mazagão, no Amapá.
Segundo a Rede Conexão Povos da Floresta, também está em fase final a formalização de um Acordo de Cooperação Técnica entre as instituições envolvidas. A expansão para o Amapá ocorre após a experiência da primeira turma realizada no Tapajós em 2025.
Sabrina Costa, coordenadora do Núcleo de Operações da Rede Conexão Povos da Floresta, explica que o curso Agentes Comunitários de Energia vem sendo desenvolvido e planejado pelas organizações-membro da Rede Conexão Povos da Floresta que atuam especificamente na frente de energia. “A primeira fase, que é a formação técnica com módulos online e presencial, foi concretizada em uma turma piloto na região do Tapajós em 2025. Agora, em 2026, avançamos para levar a formação para outros territórios da Amazônia”, afirma.
Formação conecta comunidades e a política energética
A formação de moradores também passou a funcionar como um ponto de contato entre comunidades da Amazônia e instituições responsáveis pela política e pela regulação do setor elétrico.
A ANEEL, Agência Nacional de Energia Elétrica, participa da estruturação da nova fase do curso e considera os agentes comunitários possíveis interlocutores entre os territórios e os órgãos responsáveis pelo fornecimento e pela fiscalização dos serviços de energia.
“É super importante uma formação como essa, porque ela aproxima dois mundos, o mundo das comunidades e o mundo institucional do governo. E também aproxima as comunidades do acesso à energia elétrica”, afirma Letícia Lengruber, especialista em regulação da ANEEL.
Durante o curso, os participantes aprendem, entre outros conteúdos, a realizar levantamento de carga, instalações e diagnósticos das necessidades energéticas de suas comunidades.
Para Lengruber, a aproximação também fornece informações à agência sobre as condições encontradas nos territórios. “Nós da ANEEL aprendemos com eles como prestar um melhor serviço para as comunidades.”
A experiência começou ainda a influenciar a discussão sobre a presença da agência em regiões isoladas da Amazônia.
“Através da experiência do curso Agentes Comunitários de Energia, a ANEEL entendeu que precisa estar mais presente. A agência vai poder contar com os agentes comunitários de energia para serem atores importantes para colaborar com a ANEEL na implementação, na fiscalização do serviço energético”, afirma Alessandra Mathyas, analista de conservação do WWF-Brasil.
Sistemas solares entram no debate
A Rede Conexão Povos da Floresta também busca aproximar os sistemas solares já instalados das políticas públicas de universalização do acesso à energia elétrica, entre elas o Programa Luz para Todos.
O grupo atua ainda para apoiar a priorização de comunidades atendidas por distribuidoras como a Energisa.
A estratégia é fazer com que os sistemas fotovoltaicos já existentes sejam considerados no planejamento da expansão da eletrificação, reduzindo possíveis sobreposições de investimentos e utilizando informações coletadas nos territórios para contribuir com políticas destinadas a áreas isoladas.
Os sistemas solares instalados pela iniciativa, no entanto, não substituem necessariamente a obrigação de universalização do fornecimento de energia elétrica. Na prática, eles funcionam como uma infraestrutura capaz de manter equipamentos essenciais em operação enquanto a rede convencional ainda não oferece fornecimento contínuo em determinadas localidades.
Energia solar e saúde em comunidades isoladas
A relação entre energia solar e internet na Amazônia aparece de forma mais direta nos serviços que dependem de conexão contínua. Na saúde, a Rede Conexão Povos da Floresta mantém o programa Conexão Saúde.
Em maio de 2026, 710 comunidades estavam conectadas à plataforma de telessaúde, com 4.585 pessoas cadastradas e 5.123 usos acumulados. Os serviços incluem teleconsultas, telelaudos e monitoramento de sinais vitais.
Em comunidades onde uma viagem até o centro urbano mais próximo pode levar horas ou dias, a internet permite realizar consultas médicas a distância e acessar resultados de exames sem parte desses deslocamentos.
A conexão, porém, depende diretamente da disponibilidade de energia. Para realizar uma teleconsulta em tempo real, não basta instalar uma antena ou oferecer banda larga: os equipamentos também precisam de fornecimento elétrico estável.
A dependência da energia elétrica aparece também na educação e em outras atividades digitais realizadas nos territórios. O programa Sabedoria Digital já formou 724 facilitadores comunitários em letramento e segurança digital. A primeira formação presencial realizada em Manaus reuniu mais de 250 participantes dos nove estados da Amazônia Legal. A conectividade é utilizada ainda em iniciativas relacionadas à proteção territorial, ao empreendedorismo, à cultura, à ancestralidade e às mulheres.
Entre as atividades realizadas com apoio da internet estão o monitoramento de desmatamento e queimadas, o registro de denúncias, o acesso a mercados e a articulação de redes de apoio.
“Na prática, a combinação entre conectividade significativa e energia solar se traduz em teleconsultas médicas em tempo real, acesso a plataformas de governo digital, atividades educativas online, monitoramento ambiental com geotecnologias e fortalecimento de iniciativas econômicas locais, mesmo em comunidades onde o deslocamento até a cidade mais próxima pode levar horas ou dias”, afirma Mária Soares, gerente de Amazônia e Parcerias do Fundo Vale, uma das organizações financiadoras do programa.
Segundo ela, “a energia deixa de ser apenas um insumo técnico e passa a ser um meio essencial para que a internet cumpra seu papel de infraestrutura de direitos”.
Rede quer conectar 9 mil comunidades até 2030
A Rede Conexão Povos da Floresta foi criada para ampliar a inclusão digital e o acesso a políticas públicas em comunidades em situação de isolamento digital.
A meta declarada pela iniciativa é chegar, até o final da década, a 1 milhão de pessoas em 9 mil comunidades, começando pela Amazônia e avançando posteriormente para outras regiões.
A rede é liderada pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).
Mais de 50 organizações fazem parte da iniciativa, estruturada em três frentes: infraestrutura, controle comunitário e inclusão digital. O suporte operacional é realizado pelo Instituto Conexão Povos da Floresta, responsável pela gestão dos kits de conectividade e energia e pela coordenação dos grupos de trabalho temáticos.
Entre os financiadores nacionais e internacionais citados pela rede estão Fundo Vale, Instituto Arapyaú, Funbio, Fundação Roberto Marinho, Fundação Getulio Vargas, Itaú, Itaúsa, Movimento Bem Maior, Waverley Street Foundation, Instituto Umbu e Transnorte Energia. A iniciativa também recebe apoio logístico de instituições como ICMBio, Funai, NIC.br e Distritos Sanitários Especiais Indígenas.