Gabriel Klabin (designer): “Nenhum ponto de vista mostra o todo” | Lu Lacerda
Fonte: vejario.abril.com.br | Data: 08/08/2026 10:49:43
Desde pequeno eu sonhava em voar.
Imaginava que voar serviria para ir mais longe, atravessar montanhas, descobrir novidades, alcançar lugares onde os meus pés não alcançam.
Quando finalmente consegui, aconteceu o contrário: descobri que, lá de cima, o que mais me interessava era justamente o chão por onde eu pisava.
Em 2006, coloquei pela primeira vez uma câmera em um avião de controle remoto. A imagem era ruim, tremia, o alcance era curto. Mas, quando ela apareceu na tela, eu só queria ver tudo aquilo que já conhecia, só que de cima.
Minha casa. Minha rua. A praia. As montanhas.
E nada era como eu imaginava.
A rua da minha casa não tinha o formato que eu pensava, a casa do vizinho não era tão misteriosa, os muros intransponíveis viravam linhas quase invisíveis e percursos deixavam de ser trajetos e ganhavam lógica.
Nada tinha mudado lá embaixo. O que havia mudado era o meu ponto de vista.
Isso me faz pensar em Flatland, de Edwin Abbott, um livro do século XIX sobre habitantes de um mundo de duas dimensões. Um deles descobre a existência da terceira dimensão e, por um instante, consegue observar seu próprio mundo de cima.
Ele volta para o mesmo lugar, mas não consegue mais enxergá-lo da mesma maneira.
Descobri cedo que alguns metros na vertical podiam ser uma viagem tão grande quanto muitos quilômetros na horizontal.
Essa curiosidade acabou virando profissão.
Passei anos desenvolvendo drones para as Forças Armadas brasileiras. Construíamos máquinas que levavam câmeras e sensores cada vez mais longe, permitindo observar o território de uma maneira que não era possível do chão.
Mas o voo também me levou para um lugar completamente diferente: o Carnaval.
Concebi projetos como o tapete voador do Aladim, da Mocidade, e a Águia drone da Portela. Achei bonita essa inversão. A mesma tecnologia que servia para olhar do céu para a terra e compreender melhor a realidade podia levar nossos olhos da terra para o céu e nos transportar para fora da realidade.
Depois veio a agricultura.
Em 2017, comecei a usar drones para monitorar plantações no Mato Grosso. Do alto, eles nos mostravam diferenças que passavam despercebidas para quem caminhava entre as plantas.
Mas tinha um problema.
Do céu eu via as folhas. Não via as raízes.
E foi assim que, depois de tanto esforço para voar, acabei cavando buracos no chão.
Para entender o que as imagens mostravam, era preciso entrar na lavoura, sujar as mãos de terra e descobrir o que acontecia debaixo da superfície.
Foi uma lição simples: do chão eu não enxergava a plantação inteira; do céu, enxergava a plantação, mas não suas raízes. Nenhum ponto de vista mostrava o todo.
Mas ainda dava para subir mais.
Depois dos drones, comecei a trabalhar também com imagens de satélite para gerar diagnósticos ambientais em fazendas. De repente, a escala mudou completamente: podíamos olhar o Brasil inteiro e enxergar florestas, pastagens, lavouras, rios e cidades como partes de um mesmo sistema, em que cada parte afeta as outras.
Quanto mais alto eu olhava, menos claras pareciam as divisões e mais óbvias as correlações.
Existe uma imagem que, para mim, leva essa ideia ao limite.
Em 1968, três homens deixaram a órbita da Terra pela primeira vez e viajaram até a Lua. Foram mais longe de casa do que qualquer ser humano havia ido.
Ao contornarem a Lua, olharam para trás.
Sobre o horizonte da Lua surgiu uma pequena esfera azul. William Anders pegou uma câmera e fez a fotografia que ficou conhecida como Earthrise.
Gosto de pensar nela como um autorretrato.
Vimos com nossos olhos a nossa casa.
Fomos até outro mundo e a imagem mais extraordinária que encontramos foi justamente a do lugar de onde havíamos partido.
A fotografia se tornou um símbolo do nascimento do movimento ambiental. Talvez porque, em um momento em que já tínhamos desenvolvido armas capazes de destruir o planeta inteiro, finalmente tivéssemos uma imagem que mostrava sua dimensão e sua preciosidade.
Agora a humanidade podia olhar para sua casa de fora, inteira, finita, pequena e destrutível.
Numa escala infinitamente menor, vivi algo parecido no mar do Rio.
Comecei a filmar baleias da praia, no Arpoador e em São Conrado, fui convidado a acompanhar expedições de pesquisa do Instituto Vida Livre e passei a ir cada vez mais longe da costa.
Lá fora havia muito mais baleias. Para quem queria filmá-las, era o lugar perfeito.
Mas os vídeos que eu mais gostava continuavam sendo os feitos perto de casa.
Em alto-mar, uma baleia é extraordinária. Mas, quando ela aparece diante do Arpoador e atrás dela estão os prédios, as pedras e as montanhas que reconheço desde criança, acontece outra coisa.
Não estou vendo só uma baleia, estou vendo ela e a minha casa, a minha vida e a dela no mesmo quadro.
Talvez esse movimento de ir longe para enxergar o que estava perto também tenha acontecido dentro de casa.
Meus pais sempre fizeram questão de que os filhos encontrassem seus próprios caminhos. Meu pai dedicou boa parte da vida ao meio ambiente. Minha mãe, ao trabalho social com crianças no Borel. Meus irmãos e eu seguimos trajetórias muito diferentes.
Quando virei pai, ganhei mais um ponto de vista.
Passei a olhar para o mundo de outro lugar e, desse novo lugar, comecei também a enxergar meus próprios pais de outra maneira.
Talvez eu precisasse ter filhos para compreender melhor meus pais. Olhar o Brasil do espaço para entender a importância do que acontece no chão. E encontrar baleias na porta de casa para perceber que eu também faço parte da natureza.
Quando criança, eu queria voar para descobrir o que havia além do horizonte. Quando cheguei lá, descobri outro horizonte, e depois outro… Até perceber que, se continuasse, acabaria de volta em casa…
Talvez fosse isso que eu procurava do céu: o meu lugar na Terra.
Gabriel Klabin é designer, empreendedor e piloto de drones. Fundador da Santos Lab, atua há quase duas décadas no desenvolvimento e uso de tecnologias aéreas. É presidente do Conselho da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS).