China pretende trazer parque industrial zero carbono com investimentos de US$ 1 bi ao Brasil
Fonte: brasil247.com | Data: 09/08/2026 07:06:32
247 – Um modelo industrial que combina energia renovável, armazenamento e gestão das emissões de carbono, desenvolvido pela China como parte de sua estratégia de transição energética, deverá ganhar uma versão brasileira. A Envision planeja investir US$ 1 bilhão — cerca de R$ 5,1 bilhões — em um complexo no Brasil destinado à produção de combustível sustentável de aviação, hidrogênio verde e amônia.
As informações são da Folha de São Paulo, que detalhou neste domingo (9) o funcionamento do primeiro parque industrial reconhecido como “net-zero”, instalado na Mongólia Interior, na China, e os planos da empresa chinesa para reproduzir a experiência no Brasil. Apesar do anúncio do investimento ter ocorrido há mais de um ano, ainda não há definição sobre localização, início das obras ou cronograma de implantação do empreendimento brasileiro.
Inaugurado em 2022, o complexo chinês abriga fábricas de baterias e turbinas eólicas e foi reconhecido pelo Fórum Econômico Mundial como o primeiro parque industrial do tipo no mundo. O projeto tornou-se uma vitrine da estratégia chinesa de integração entre indústria e energia renovável e um modelo que a Envision pretende levar a outros países.
A classificação de “zero carbono”, entretanto, não significa que as fábricas funcionem sem emitir dióxido de carbono.
Zero carbono não significa ausência de emissões
O conceito adotado é o de emissões líquidas zero, conhecido como “net-zero”. Nesse sistema, as emissões geradas pelas atividades industriais são contabilizadas em conjunto com geração renovável, armazenamento de energia e mecanismos de gestão de carbono ao longo de determinado período.
Gang He, professor de política energética e climática da Faculdade Baruch, nos Estados Unidos, considera relevante a capacidade de integrar esses diferentes elementos.
“Trata-se de uma inovação importante, porque a descarbonização industrial exige exatamente esse tipo de coordenação entre energia limpa, armazenamento e demanda flexível”, disse.
O especialista, porém, aponta ressalvas. Uma delas diz respeito ao período usado para calcular o equilíbrio das emissões.
Quando a contabilização ocorre anualmente, uma indústria pode recorrer a energia proveniente de combustíveis fósseis nos momentos em que fontes renováveis não estão disponíveis e compensar essas emissões, no cálculo final, com a energia limpa produzida em outros períodos.
É o que pode acontecer, por exemplo, com a energia solar durante a noite. Segundo Gang He, para que o conceito de zero carbono fosse aplicado de maneira integral, seria necessário contabilizar as emissões hora a hora.
Regra chinesa admite saldo acima de zero
A própria certificação chinesa de parques “net-zero” não exige que as emissões sejam literalmente zeradas.
Pelas regras estabelecidas pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, o cálculo considera as emissões de carbono por unidade de energia consumida. Para conquistar a certificação, o resultado deve ficar aproximadamente 90% abaixo da média nacional.
A norma inclui outros indicadores, mas eles têm caráter orientador e podem ser dispensados caso a empresa apresente justificativa.
Apesar dessas limitações, o governo chinês considera os parques industriais de baixa emissão uma peça importante de sua política climática. Pequim estabeleceu como objetivos atingir o pico das emissões de carbono até 2030 e alcançar a neutralidade de carbono até 2060.
Huang Wenchuan, vice-diretor da Comissão de Desenvolvimento e Reforma da Mongólia Interior, defende a participação conjunta de governos e empresas na expansão desses projetos.
“Apoiamos a participação de governos locais, empresas de parques, empresas de produção de energia, empresas de redes elétricas, empresas privadas e outros tipos de entidades na construção de parques de emissão zero, construindo uma comunidade de interesses”, afirmou.
Modelo chinês deverá chegar ao Brasil
Além da expansão para a Espanha, a Envision pretende levar o modelo ao Brasil. No caso brasileiro, o projeto terá foco na fabricação de combustível sustentável de aviação, conhecido pela sigla SAF, além de hidrogênio verde e amônia.
O investimento previsto chega a US$ 1 bilhão, equivalente a aproximadamente R$ 5,1 bilhões, segundo o Palácio do Planalto.
O projeto foi anunciado em maio de 2025, durante a visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a Pequim.
Na ocasião, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e o Planalto apresentaram o investimento como um dos resultados da viagem presidencial à China.
Segundo a Envision, Lula recebeu Zhang Lei, CEO da companhia, para discutir o desenvolvimento do parque, a produção de combustíveis e a transição energética brasileira.
Mais de um ano depois, no entanto, o projeto ainda não tem localização anunciada nem datas definidas para construção e início das operações.
Envision ainda avalia onde instalar complexo
A companhia afirma que a decisão sobre a localização dependerá de diferentes fatores, entre eles a disponibilidade de fontes renováveis, infraestrutura logística, ambiente industrial e mão de obra.
“Nossa avaliação considera recursos renováveis, logística, ecossistema industrial, disponibilidade de talentos e estabilidade política de longo prazo. Quaisquer decisões futuras de investimento serão baseadas em uma avaliação”, afirmou a Envision à Folha.
A empresa também informou que pretende anunciar novos detalhes somente quando etapas concretas do empreendimento forem alcançadas.
“Preferimos comunicar apenas após o alcance de marcos importantes, para garantir a precisão e a transparência das informações.”
Brasil tem vantagem energética, mas enfrenta desafios
A implantação brasileira não deverá ser uma reprodução automática da experiência chinesa. Segundo Gang He, as condições políticas, regulatórias, industriais e geográficas dos dois países são diferentes.
O professor destaca que o Brasil começa com uma vantagem importante: possui um sistema elétrico relativamente limpo e experiência consolidada na produção e utilização de biocombustíveis.
Por outro lado, o modelo desenvolvido na China depende de uma estrutura de política industrial, infraestrutura e produção em grande escala que pode ser mais difícil de reproduzir no Brasil.
“A vantagem do Brasil é já ter um sistema elétrico relativamente limpo e forte experiência em biocombustíveis. O desafio é que o modelo chinês se apoia fortemente em política industrial coordenada, construção rápida de infraestrutura, cadeias de manufatura em larga escala e execução por governos locais. Essas condições podem ser mais difíceis de reproduzir”, afirmou.
Caso o investimento avance, o Brasil passará a integrar a estratégia internacional da Envision para levar a outros mercados uma experiência desenvolvida a partir da expansão chinesa das energias renováveis.
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