Ariana Grande, magreza “extrema” e saúde mental na indústria do entretenimento
Fonte: opovo.com.br | Data: 09/08/2026 08:34:49
Resumo
O corpo de Ariana Grande é alvo de comentários e especulações, ofuscando seu trabalho artístico.
A indústria do entretenimento há décadas transforma corpos femininos em pauta.
A cantora anunciou uma pausa na carreira após meses de escrutínio público.
Internautas comparam sua aparência atual com fases anteriores de sua vida.
Ariana Grande já revelou que seu corpo considerado ‘saudável’ por muitos correspondia a um período difícil de sua vida.
Profissionais alertam que não é possível avaliar a saúde de alguém apenas pela aparência, e que a objetificação do corpo feminino pode levar a transtornos.
Aviso: O presente texto aborda transtornos alimentares e pressão estética, temas que podem ser sensíveis para algumas pessoas.
Há décadas, a indústria do entretenimento transforma corpos femininos em pauta. No cinema, na música, nas passarelas e nas redes sociais, atrizes e cantoras vivem sob escrutínio permanente. Mudanças físicas costumam gerar mais comentários do que o próprio trabalho artístico. Entre elogios, críticas e especulações, a aparência frequentemente ocupa um espaço maior do que a obra.
Poucos dias depois de lançar Petal, seu novo álbum de estúdio, Ariana Grande voltou aos assuntos mais comentados das redes sociais.
Desta vez, porém, o foco não estava nas novas músicas, nos vocais ou na turnê Eternal Sunshine, que percorre atualmente Europa e Estados Unidos após marcar seu retorno aos palcos. Em vez disso, milhares de comentários passaram, mais uma vez, a analisar seu corpo.
No último domingo, 2 de julho, a equipe da artista confirmou à revista People que Ariana dará um “passo atrás” após o encerramento da turnê, previsto para setembro. Segundo seus representantes, a cantora pretende fazer uma pausa em trabalhos e aparições públicas depois de meses de “escrutínio público interminável e constante”.
O comunicado, entretanto, não relaciona essa decisão ao estado de saúde da artista nem aos comentários sobre sua aparência, e qualquer associação nesse sentido permanece especulativa.
Para o estudante de Jornalismo Leví Lima, de 19 anos, que acompanha Ariana Grande desde a adolescência, é difícil separar os acontecimentos recentes: “Apesar de ela mesma ter dito que não é uma resposta aos acontecimentos, acredito que é inevitável um distanciamento da vida pública depois dessa onda de ódio e de ‘preocupação’, entre muitas aspas”.
O anúncio reacendeu uma discussão que há anos acompanha a cantora. Desde a divulgação do filme Wicked, internautas passaram a comentar de forma recorrente sua aparência física, alternando entre mensagens de preocupação, teorias sobre sua saúde e ataques abertamente ofensivos. Ariana respondeu mais de uma vez ao tema.
Em 2023, revelou que a aparência considerada “saudável” pelo público correspondia, na realidade, a um dos períodos mais difíceis de sua vida, quando fazia uso de antidepressivos, bebia com frequência e não se alimentava adequadamente.
A fala expõe uma contradição que vai além da trajetória da artista: a facilidade com que a sociedade acredita ser capaz de diagnosticar a saúde de alguém apenas pela aparência.
Nos anos 1990 e 2000, a chamada “heroína chique” (“heroin chic”) consolidou a extrema magreza como sinônimo de sofisticação. Nas telas, personagens femininas pareciam naturalmente bonitas, comiam sem culpa e permaneciam dentro de um padrão corporal praticamente inalcançável. Revistas estampavam dietas milagrosas, enquanto tabloides classificavam pequenas variações de peso como escândalos.
Anos depois, parecia haver uma mudança. O discurso da diversidade corporal ganhou força, movimentos de aceitação do corpo conquistaram espaço e marcas passaram a incluir modelos de diferentes tamanhos em campanhas publicitárias.
Mas o avanço talvez tenha sido menos sólido do que parecia.
Hoje, impulsionada pelas redes sociais, pelos algoritmos e pela popularização das chamadas canetas emagrecedoras, a valorização da magreza extrema volta a ocupar espaço no imaginário coletivo.
O padrão mudou de roupa, mas continua impondo a mesma lógica: corpos são tratados como projetos permanentes de aperfeiçoamento.
Nesse cenário, celebridades acabam funcionando como vitrines involuntárias de uma discussão muito maior.
E isso levanta uma pergunta delicada: quando falar sobre a imagem de figuras públicas deixa de ser uma preocupação legítima e passa a alimentar exatamente a cultura que diz combater?
Relações parassociais: como a internet transformou preocupação com artistas em vigilância
Em 2025, o Dicionário Cambridge elegeu “parassocial” como a palavra do ano. O termo define um tipo de relação emocional unilateral, na qual uma pessoa desenvolve um forte sentimento de proximidade com uma celebridade, personagem ou figura pública sem que exista uma relação recíproca.
A internet tornou cada vez mais tênue a linha entre acompanhar a carreira de um artista e sentir que conhece sua vida íntima.
Essa sensação de proximidade ajuda a explicar por que milhares de pessoas passaram a discutir, diariamente, o corpo de Ariana Grande como se observassem alguém da própria família. Ao mesmo tempo em que muitos afirmam estar preocupados com seu bem-estar, outros transformam fotos, vídeos e aparições públicas em perícias feitas por desconhecidos.
O debate, porém, divide até mesmo quem acompanha a cantora há anos.
Para o estudante Leví Lima, existe uma diferença clara entre preocupação e invasão. “A preocupação acaba quando essas suposições viram ataques à cantora ou à família, afirmando com uma ‘certeza’ que ela tem transtorno alimentar. Muitas vezes as pessoas deixam de lado a empatia e começam a diagnosticar alguém que elas simplesmente não conhecem.”
Segundo ele, abrir as redes sociais para acompanhar a turnê ou os lançamentos da cantora frequentemente significa encontrar uma enxurrada de comparações entre fotografias antigas e atuais.
A engenheira ambiental Rebeca de Alencar, de 22 anos, acompanha Ariana desde 2012, quando ainda assistia à série Brilhante Victoria. Ao longo de mais de uma década como fã, ela percebe que os comentários sobre o corpo da cantora nunca desapareceram, apenas ganharam novas formas.
“Ela sempre foi muito julgada”, afirma. Para Rebeca, a situação se intensificou durante a divulgação de Wicked, quando a transformação visual da artista passou a ocupar mais espaço do que seu trabalho.
“Hoje eu acredito que ela esteja mais magra do que o habitual para ela, mas também enxergo isso dentro de uma tendência maior da indústria. Não é só a Ariana. A magreza voltou a ser muito valorizada”, opina Rebeca.
Ao mesmo tempo, Rebeca de Alencar acredita que muitos fãs ultrapassam um limite delicado.
“A Ariana já se explicou mais de uma vez. Como fãs, nós nunca vamos saber 100% da vida de um artista. Acho que as pessoas se apegaram a uma versão dela que existiu anos atrás e passaram a exigir que ela continue sendo exatamente aquela pessoa.”
Esse sentimento aparece também no relato do estudante de Geografia Tobias Farias, de 25 anos. Para ele, a repercussão constante provoca uma sensação de impotência.
“As comparações só pioram a situação. Acho que a comunidade pode se preocupar, mas sem invadir pontos pessoais. Ela existe fora dos palcos“, declara o estudante e fã.
A discussão revela um fato curioso da cultura digital: a internet aproximou artistas e público como nunca antes e ela também ampliou a sensação de que fãs possuem algum tipo de responsabilidade — ou até autoridade — para comentar decisões, comportamentos e mudanças físicas de pessoas que, na prática, continuam sendo desconhecidas. A preocupação genuína frequentemente se mistura à vigilância permanente.
Para a psicóloga Karoline Oliveira, especialista em saúde mental de mulheres e neurodivergentes, existe uma diferença importante entre empatia e objetificação — e essa fronteira costuma ser confundida nas redes sociais.
“A empatia sempre respeita a autonomia da pessoa. Já a objetificação transforma aquele corpo em uma propriedade pública. Muitas vezes os comentários aparecem disfarçados de preocupação com a saúde, mas acabam exercendo um controle sobre o corpo daquela mulher.”
Karoline Oliveira, psicóloga
Não é raro encontrar publicações acompanhadas de frases como “estou apenas preocupado”, mas ilustradas por montagens comparativas, imagens editadas, especulações sobre transtornos alimentares ou comentários que reduzem a trajetória de uma artista ao tamanho de seu corpo.
A própria Ariana já criticou esse comportamento. Em novembro de 2025, ela resgatou nos stories uma entrevista concedida um ano antes, durante a divulgação de Wicked, reafirmando que sua opinião permanece a mesma.
“Existe um conforto que não deveríamos ter de forma alguma para comentar sobre a aparência, a saúde ou o que pensamos que está acontecendo na vida de outra pessoa”, criticou a cantora.
“Magreza não é diagnóstico”: o que a ciência diz sobre saúde e aparência
A insistência em transformar fotografias, vídeos de poucos segundos ou aparições públicas em diagnósticos improvisados esbarra em um consenso entre profissionais da saúde: não é possível avaliar o estado de saúde de uma pessoa apenas observando seu corpo.
Para a nutricionista Amanda Barbosa, especializada em endocrinologia, essa é uma das associações mais perigosas construídas ao longo das últimas décadas.
O diagnóstico nutricional depende de uma avaliação completa — histórico clínico, exames laboratoriais, composição corporal e hábitos alimentares. “A aparência isoladamente pode levar a interpretações equivocadas”, resume Amanda.
A observação parece simples, mas desmonta uma lógica profundamente enraizada na cultura popular. Aprendemos a associar corpos magros à saúde, disciplina e autocontrole, enquanto corpos maiores foram frequentemente relacionados ao descuido ou à falta de esforço. O problema é que a ciência nunca sustentou essa simplificação.
Como aponta a nutricionista, uma pessoa considerada magra pode apresentar deficiências nutricionais, alterações hormonais, perda de massa muscular, fadiga crônica e outros comprometimentos importantes.
O contrário também acontece. “Uma pessoa com maior peso corporal pode apresentar exames normais, boa aptidão física e hábitos saudáveis. A saúde é multifatorial e não pode ser resumida ao peso“, explica.
O retorno de um velho padrão
Se a discussão sobre o corpo de Ariana Grande encontra tanta repercussão, ela também acontece em um contexto cultural bastante específico. Nos últimos anos, a popularização das chamadas canetas emagrecedoras transformou profundamente o debate sobre emagrecimento.
Medicamentos desenvolvidos para tratar obesidade, diabetes e outras condições clínicas representam um avanço importante da Medicina quando utilizados sob indicação e acompanhamento profissional.
Ao mesmo tempo, sua crescente visibilidade coincidiu com a volta de uma estética que parecia ter perdido força: a valorização da extrema magreza.
Para Karoline Oliveira, esse movimento possui raízes culturais e econômicas. “Hoje a magreza passou a representar disciplina, sucesso e poder. Existe um interesse econômico da indústria da beleza e do emagrecimento em manter mulheres permanentemente insatisfeitas com seus corpos. Quanto maior essa insatisfação, maior o consumo de produtos e serviços.”
A mudança não acontece apenas entre celebridades. Vídeos que prometem perda rápida de peso acumulam milhões de visualizações nas redes sociais. Tendências passaram a reunir conteúdos que romantizam a restrição alimentar, ensinam maneiras de reduzir drasticamente a ingestão de comida ou transformam sinais de adoecimento em metas estéticas.
Acesse a cobertura completa do Coronavírus >
Embora diversas plataformas tenham começado a limitar esse tipo de conteúdo, especialistas alertam que ele continua circulando por meio de novos termos, hashtags e formatos.
Para Amanda Barbosa, essa cultura favorece comportamentos que ultrapassam os limites do autocuidado. “A exposição constante a padrões corporais irreais favorece a comparação social e a insatisfação com a própria imagem”, explica a nutricionista.
Quando a autoestima passa a depender da aparência, a pessoa entra em um ciclo de monitoramento constante do próprio corpo. “Existe uma vigilância corporal permanente, que aumenta ansiedade, vergonha e risco para transtornos alimentares”, resume Karoline.
A psicóloga explica que esses comportamentos podem evoluir para transtornos alimentares em pessoas que apresentam predisposição biológica e fatores psicológicos associados.
Mais do que incentivar dietas restritivas, o culto contemporâneo à magreza reforça uma ideia perigosa: a de que existe um único corpo capaz de representar sucesso, beleza e felicidade.
A ciência segue na direção oposta. “Não existe um peso ideal universal. Hoje trabalhamos com o conceito de saúde individualizada”, explica Amanda.
O peso de ser mulher sob os holofotes
Ariana Grande talvez seja o exemplo mais recente, mas certamente não é um caso isolado. Ao longo das últimas décadas, inúmeras artistas tiveram suas carreiras atravessadas por discussões sobre seus corpos.
Taylor Swift revelou, no documentário Miss Americana, que desenvolveu uma relação adoecida com a alimentação após anos ouvindo comentários sobre sua aparência. Ela contou que passou a interpretar manchetes de revistas e elogios sobre seu corpo como um sistema de recompensas e punições.
“Lembro que, aos 18 anos, vi minha primeira capa de revista. A manchete insinuava que eu estava grávida simplesmente porque uma roupa não deixava minha barriga completamente chapada”, recordou. “Quando você vive isso repetidamente, começa a associar tudo a elogios e punições, inclusive o próprio corpo.”
Selena Gomez também transformou diversas vezes sua saúde em assunto público. Diagnosticada com lúpus, a cantora convive com oscilações de peso provocadas pela própria doença e pelos medicamentos utilizados no tratamento. Ainda assim, continua sendo alvo frequente de comentários que reduzem essas mudanças a julgamentos estéticos.
Mais recentemente, artistas como Bebe Rexha, Nelly Furtado, Beyoncé e, no Brasil, a cantora Maiara, da dupla Maiara e Maraisa, também passaram a ocupar o centro de debates sobre aparência física — quase sempre acompanhados de especulações sobre saúde, envelhecimento ou estilo de vida.
Existe um padrão difícil de ignorar. Quando mulheres emagrecem, surgem teorias. Quando engordam, aparecem críticas. Quando mantêm o mesmo corpo, surgem cobranças para que mudem.
Independentemente da direção, seus corpos parecem nunca deixar de ser considerados assunto público.
Quando o sofrimento vira espetáculo?
Talvez nenhum caso ilustre essa lógica de forma tão dolorosa quanto o de Amy Winehouse. Durante anos, o mundo acompanhou publicamente o agravamento de seu estado de saúde.
Havia sinais visíveis de sofrimento. Havia relatos sobre abuso de álcool, dependência química, bulimia e adoecimento psicológico. Havia pedidos de ajuda que, muitas vezes, apareciam disfarçados em comportamentos classificados apenas como “polêmicos”.
Ainda assim, grande parte da cobertura da época transformou sua dor em entretenimento. Fotografias de momentos de extrema vulnerabilidade estampavam capas de revistas. Programas de televisão faziam piadas sobre seu estado físico. Comentários sobre seu corpo circulavam ao lado de especulações sobre sua vida pessoal.
Só depois de sua morte, em 2011, a pergunta passou a ecoar com mais força: quantas vezes confundimos sofrimento com espetáculo? O custo emocional desse tipo de exposição, expõe Karoline, costuma ser invisível para quem comenta.
“Quando uma mulher passa anos sendo reduzida à própria aparência, suas conquistas são apagadas. Ela deixa de ser vista pelo que faz e passa a existir apenas pelo corpo. Isso aumenta o risco de ansiedade, depressão e transtornos alimentares”, pontua a psicóloga.
Mais de uma década depois, a sociedade parece repetir parte desse comportamento, ainda que em outro formato. Não são mais apenas paparazzi ou tabloides. Agora são milhões de usuários capazes de ampliar uma fotografia, comparar imagens de anos diferentes, criar montagens, levantar hipóteses e compartilhar diagnósticos improvisados em poucos segundos.
Como construir uma cultura ética nas redes
Para Karoline, desenvolver uma cultura digital mais ética depende tanto das plataformas quanto dos próprios usuários.
“Cada pessoa pode escolher não comentar, não compartilhar e não consumir conteúdos que objetificam corpos”, defende a psicóloga. “O corpo do outro não é um objeto de estudo. Ele tem direito à dignidade, à privacidade e à autonomia.”
Essa mudança de postura diante da pressão estética reflete uma virada histórica na forma como as próprias mulheres enxergam seu papel e sua autonomia.
Em 1997, durante uma sessão de fotos frustrante para a revista Spin, a cantora Fiona Apple, então com apenas 20 anos, murmurou uma frase que atravessaria décadas: “não há esperança para as mulheres”.
Naquele momento, ela falava sobre a pressão para parecer mais sensual, mais bonita, mais desejável diante das câmeras.
Em 2018, numa entrevista em vídeo com a conta de fãs no Tumblr, a cantora voltou atrás. Respondendo a uma fã, escreveu uma nova versão da frase: “Sempre há esperança para as mulheres. Nós somos a esperança do mundo.”
Dúvidas, Críticas e Sugestões?
Fale com a gente
Tags