A síndrome que acende alerta para mães quando crianças entram cada vez mais cedo no mundo do autocuidado
Fonte: correio24horas.com.br | Data: 09/08/2026 12:14:13
Vídeos de meninas mostrando rotinas de beleza viralizam nas redes sociais e levantam preocupações sobre o uso precoce de cosméticos
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Bianca Hirakawa
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Agência Correio
Publicado em 9 de agosto de 2026 às 12:12

Uma criança diante da câmera, mostrando um produto de cada vez. Cremes, máscaras e outros itens de beleza aparecem enquanto milhares de pessoas acompanham a rotina pelas redes sociais. O que pode parecer apenas uma brincadeira ou uma forma de imitar influenciadores adultos revela uma tendência que vem ganhando espaço: crianças cada vez mais novas estão entrando no universo do skincare e transformando esses cuidados em conteúdo.
No TikTok, perfis brasileiros como Clarinha Encantada e Lulu Jabur mostram a força desse movimento. Clarinha, que tinha 8 anos quando seu conteúdo foi analisado em uma pesquisa acadêmica, aparece em vídeos relacionados a produtos de beleza, com testes, avaliações e coleções. Já o perfil de Lulu também reúne uma audiência expressiva e publica conteúdos ligados ao universo da beleza.
Mas quando o interesse por cosméticos deixa de ser apenas uma brincadeira?
A pergunta ganhou força com a popularização do termo cosmeticorexia, utilizado para descrever uma preocupação excessiva com a aparência e com a busca por uma pele considerada perfeita. A expressão ainda não representa um diagnóstico médico formal, mas o fenômeno já é discutido por especialistas diante da exposição precoce de crianças aos padrões de beleza e ao consumo de cosméticos.
Um artigo publicado pelo The Guardian em abril de 2026 também abordou o tema e chamou atenção para o aumento de crianças e pré-adolescentes que reproduzem rotinas de skincare vistas na internet. A reportagem relaciona a tendência à busca por uma aparência sem imperfeições e ao uso inadequado de produtos desenvolvidos para peles adultas.
Especialistas defendem que crianças podem ter cuidados com a pele, desde que a rotina seja simples, segura e apropriada para a idade por Pexels
Quando o skincare pode virar um problema
O interesse por cosméticos não é, por si só, um problema. A preocupação aparece quando os cuidados passam a ocupar espaço excessivo na rotina ou quando a aparência se transforma em uma fonte constante de insegurança.
A Dra. Paula Rabelo, que também aborda o assunto nas redes sociais, chama atenção para os cuidados necessários com a pele infantil e para os riscos de reproduzir rotinas de skincare sem considerar a idade e as necessidades de cada pessoa.
A pele das crianças possui características diferentes da pele adulta. Por isso, produtos voltados ao tratamento de sinais de envelhecimento ou outras necessidades específicas podem ser desnecessários e inadequados para os mais novos. O uso de determinados ativos sem orientação também pode provocar irritações e outros problemas dermatológicos.
Em julho de 2025, a Sociedade Brasileira de Pediatria publicou orientações específicas sobre cosméticos para crianças e adolescentes. A entidade alerta para o uso cada vez mais precoce desses produtos e reforça a importância de considerar a faixa etária e a necessidade real de cada cosmético.
Existem cuidados seguros para crianças
Isso não significa que crianças e adolescentes não possam cuidar da pele. O problema está em reproduzir rotinas extensas ou utilizar produtos desenvolvidos para adultos sem necessidade.
Existem opções simples e seguras. Para adolescentes, por exemplo, a Sociedade Brasileira de Pediatria aponta uma rotina básica com limpeza suave, hidratação e proteção solar, usando produtos adequados à idade e ao tipo de pele. Em casos de acne ou outras condições dermatológicas, um profissional pode indicar tratamentos específicos.
Para crianças menores, os cuidados tendem a ser ainda mais simples. Produtos infantis devem ser escolhidos de acordo com a faixa etária e a sensibilidade da pele, sempre verificando se são regularizados pela Anvisa.
O que não é recomendado é antecipar tratamentos destinados à pele adulta. Produtos anti-idade e cosméticos com ativos como retinoides e ácidos em altas concentrações são desnecessários para crianças e podem causar irritações, alergias e outros danos.
A pressão por uma pele perfeita
A discussão, porém, vai além dos cosméticos.
Filtros, edição de imagens e padrões de beleza difundidos nas redes podem fazer com que poros, espinhas e marcas naturais sejam vistos como defeitos. Para crianças e adolescentes, que ainda estão construindo a própria identidade, essa comparação constante pode afetar a autoestima.
É nesse ponto que a cosmeticorexia ganha uma dimensão maior. A preocupação deixa de ser apenas sobre quais produtos usar e passa a envolver a maneira como os jovens enxergam o próprio corpo.
O que os pais podem fazer?
Acompanhar o conteúdo consumido pelas crianças é um dos primeiros passos. Se houver interesse por skincare, os responsáveis podem explicar que nem tudo o que aparece nas redes é necessário ou adequado para todas as idades.
Também é importante observar comportamentos como preocupação excessiva com pequenas imperfeições, busca constante por novos produtos ou insatisfação frequente com a própria aparência.
Nesses casos, conversar com a criança e buscar orientação profissional pode ajudar a identificar se existe apenas curiosidade ou uma relação mais preocupante com a própria imagem.
Mais do que proibir os cuidados com a pele, o desafio é ensinar que cuidar não significa corrigir uma aparência que nunca foi um problema.
Enquanto crianças transformam cosméticos em conteúdo e conquistam milhares de visualizações, a discussão sobre cosmeticorexia deixa um alerta para famílias e profissionais: a infância pode, sim, incluir cuidados com a pele, mas eles precisam ser seguros, simples e adequados à idade.

