Os graves efeitos decorrentes do ‘Super El Niño’ previstos pelos cientistas
Fonte: oacreagora.com | Data: 09/08/2026 14:08:40
Na sua primeira mensagem após a posse, no final de julho, a presidente do Peru, Keiko Fujimori, incluiu duas “emergências imediatas” entre suas prioridades: a falta de segurança e o fenômeno climático El Niño.
Cientistas alertam que o El Niño em curso pode ser um dos mais intensos das últimas décadas. O último relatório do Centro de Previsões Climáticas (CPC), órgão da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), indica 81% de probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro deste ano, e aponta que o evento de 2026 pode integrar os episódios mais relevantes registrados desde a década de 1950. Por esse potencial, especialistas o apelidaram de “Super El Niño”.
O fenômeno El Niño‑Oscilação do Sul (ENOS) se manifesta quando a temperatura da superfície do mar no Pacífico central supera em 1,5 °C a média histórica, podendo durar de nove a 12 meses. Neste ciclo, a fraqueza dos ventos reduz o afloramento de água fria ao largo da costa peruana e equatoriana, permitindo que águas mais quentes se espalhem rapidamente. Essa combinação de fatores – enfraquecimento dos ventos, retroalimentação oceano‑atmosfera, ondas Kelvin e mudanças na termoclina – favoreceu a formação de um El Niño mais vigoroso que o habitual.
O professor Ángel Adames, do Departamento de Ciências Atmosféricas e Oceânicas da Universidade de Wisconsin‑Madison, explicou que os impactos do “Super El Niño” deverão ser sentidos até 2027, sendo os mais graves no próximo ano. Ele destacou o risco de ondas de calor intensas, alterações nos padrões de chuva e a possibilidade de eventos extremos prolongados.
Na América do Sul, o “epicentro” do El Niño no Peru e no Equador deve gerar o chamado “El Niño costeiro”, com chuvas torrenciais que provocam inundações e deslizamentos ao longo da costa do Pacífico. A pesca, atividade essencial na região, será seriamente afetada pela mudança de temperatura. Partes do Peru e da Bolívia podem enfrentar secas severas, ameaçando a produção agrícola, enquanto a Colômbia, a Venezuela e o norte do Brasil também correm risco de escassez hídrica. A redução do volume dos rios limitará a geração de energia hidrelétrica.
Ao sul, Uruguai, Paraguai, norte da Argentina, Chile e sul do Brasil devem registrar chuvas intensas, que podem gerar inundações semelhantes às ocorridas durante o El Niño de 1997. No Brasil, as projeções apontam temperaturas acima da média em quase todo o território. No Sul, a probabilidade de chuvas fortes, ventos intensos, granizo e alagamentos aumenta. No Sudeste e no Centro‑Oeste, o calor supera o normal e a umidade cai. No Norte e no Nordeste, a diminuição das precipitações favorece o avanço das queimadas.
Os efeitos canônicos do El Niño – secas, ondas de calor e chuvas intensas – tendem a se intensificar. No México, espera‑se um inverno mais tempestuoso no norte, calor e secas no sudeste, além de furacões mais fortes no Pacífico Sul. A América Central deverá vivenciar um “corredor seco” que eleva o risco de incêndios na Guatemala, Honduras, El Salvador e Nicarágua, enquanto Costa Rica e Panamá enfrentarão ondas mais intensas que o normal. No Caribe, a combinação de calor e escassez de água pode comprometer a agropecuária.
Além do clima, outros fatores podem agravar a situação agrícola, como a guerra no Oriente Médio, que eleva os preços e reduz a oferta de fertilizantes, intensificando os impactos nas colheitas já ameaçadas por calor e secas. A falta de insumos pode ampliar as perdas na produção de alimentos e na geração de eletricidade.
Governos da região já anunciaram medidas de resposta. No Peru, a presidente Fujimori decretou o início imediato de desassoreamento em massa dos rios, a construção de defesas ribeirinhas com critérios técnicos modernos e a proteção das bacias hidrográficas, além da mobilização de maquinário pesado e de um sistema logístico de resposta rápida para garantir abastecimento de alimentos, água e medicamentos nas áreas mais vulneráveis. Na Colômbia, o ex‑presidente Gustavo Petro decretou estado de emergência e destinou cerca de US $ 1,2 bilhão (aproximadamente R$ 6,1 bilhões) para ações de mitigação. México e Equador também divulgaram planos de contingência para enfrentar as possíveis emergências climáticas provocadas pelo El Niño.
Fonte: BBC News Brasil