Airbnbala
Fonte: brasil247.com | Data: 10/08/2026 10:36:42
Houve um tempo em que o Airbnb era coisa de rico descolado. Você alugava um apartamento no Leblon e vinha no anúncio algo como: “ambiente minimalista”. O que, na verdade, significava que o dono levara todos os móveis embora antes de viajar para Lisboa.
Depois vieram as casas em Trancoso, os lofts em Pinheiros, os apartamentos com pegada industrial, isto é, reboco faltando e um cano aparente custando mais caro justamente por estar do lado de fora.
Mas o capitalismo é um bicho criativo. O Airbnb olhou para o mapa das cidades brasileiras e percebeu que os bairros nobres estavam cercados por morros com vistas espetaculares. Vista para o mar. Vista para a lagoa. Vista panorâmica da desigualdade social. E concluiu: “Temos um produto”.
Hoje, o turista estrangeiro não quer mais saber de hotel cinco estrelas. Isso já ficou vulgar. O europeu moderno quer experiência autêntica. Quer voltar para Berlim dizendo que viveu o Brasil real.
E assim nasceu o Airbnb Favela Experience.
No Rio de Janeiro, então, virou febre. Barracos alugados por valores que fariam um banqueiro suíço pedir desconto. Porque agora o luxo não é mais ter uma jacuzzi. Luxo é ter uma laje.
Os anúncios são maravilhosos.
“Charmosa residência com ventilação natural e integração total com a comunidade”.
Tradução: não tem janela e o vizinho entra sem bater.
Outro:
“Imóvel aconchegante em área com intensa vida noturna”.
Tiroteio até três da manhã.
“Vista cinematográfica”.
A polícia sobe o morro de helicóptero todo dia.
E os hóspedes avaliam maravilhosamente bem.
“Experiência incrível! Os disparos começaram às 22h em ponto, muito organizados”.
“Anfitrião simpático. Inclusive avisou qual parede tinha menor chance de bala perdida”.
“Localização excelente. Perto da praia, do tráfico e de um sujinho que vende um PF inesquecível”.
O brasileiro também entrou na onda. Afinal, nós adoramos gourmetizar a miséria desde que ela venha acompanhada de luminária de filamento. Já existe até corretor especializado.
— Aqui temos uma excelente oportunidade. Barraco duplex. Conceito aberto.
— Mas não tem teto.
— Pé-direito infinito.
E surgem diferenciais sofisticados:
“Airbnb com boca de fumo integrada”.
“Check-in humanizado pelo gerente do morro”.
“Café da manhã continental: café, pão e operação policial surpresa”.
Alguns imóveis oferecem inclusive experiências imersivas:
“Pacote Favela Plus inclui participação opcional em baile funk e workshop de sobrevivência urbana”.
O turista americano adora. Diz que é “raw”. O francês diz que é “très authentique”. O paulista pergunta se aceita pet.
Daqui a pouco surgirão categorias especiais no aplicativo:
“Superhost armado”.
“Barraco sustentável: 100% reciclado pela chuva”.
“Cancelamento grátis em caso de confronto”.
E inevitavelmente teremos influenciadores.
“Oi, pessoal! Hoje eu vou mostrar pra vocês esse cantinho maravilhoso aqui na comunidade. Simples, aconchegante e com uma metralhadora decorativa logo na entrada, que dá um toque superurbano”.
Porque o sistema tem essa capacidade admirável de transformar qualquer tragédia em hospedagem boutique. Antigamente, o sujeito dizia:
— Vou fugir para um resort.
Hoje:
— Quero me desconectar.
E paga mil reais a diária para dormir num barraco onde a única coisa desconectada é a energia elétrica.
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