Crise na Apex: rombo de até 1,4 bilhão de reais causa demissão em massa e trava fundos no ES
Fonte: emdiaes.com.br | Data: 10/08/2026 13:26:19
A plataforma de investimentos capixaba Apex Partners promoveu uma demissão em massa neste fim de semana, desligando aproximadamente 80% do seu quadro de funcionários e colaboradores em todos os setores de negócio, em decorrência de uma severa crise operacional e financeira.
O colapso, deflagrado ao público com maior força a partir da última quinta-feira (06), revelou inconsistências nas contas da companhia que, segundo novas estimativas do mercado, podem gerar um passivo real de até 1,4 bilhão de reais de improvável recuperação. A urgência da situação obrigou a instituição a afastar os seus principais executivos e a buscar proteção na Justiça do Espírito Santo para evitar a execução imediata de seus bens e garantias.
O escândalo financeiro, que foi batizado nos bastidores do mercado de Master capixaba, se tornou público após as primeiras revelações da imprensa apontarem para um rombo preliminar superior a 500 milhões de reais. No mesmo dia da divulgação, a empresa publicou um comunicado confirmando a existência de inconsistências financeiras. Na ocasião, a Apex anunciou o afastamento sumário do seu fundador e então presidente, Fernando Antonio Kulnig Cinelli, e também do diretor financeiro, Eduardo Siqueira.
A repercussão institucional provocou respostas imediatas de grandes parceiros. O Banco BTG Pactual encerrou o contrato de distribuição que mantinha com a DRM Apex Investimentos, justificando a ruptura pela omissão de informações e pelo descumprimento de normativas estipuladas pela Comissão de Valores Mobiliários.
Ato contínuo, o BTG bloqueou os resgates do fundo BRM Carbyne FIC FIDC, que concentra 160,5 milhões de reais e 909 cotistas, como forma de interromper a corrida de saques iniciada pelos investidores.
Ação na Justiça e os detalhes das dívidas
Sem caixa para suportar as saídas financeiras, a empresa buscou um escudo legal. Com base nas informações exclusivas apuradas e publicadas pelo colunista Abdo Filho, de A Gazeta, a Apex Partners obteve na sexta-feira (07) uma tutela cautelar antecedente na Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória, concedida pelo juiz Marcos Pereira Sanches. A medida suspende execuções e impede o arresto de ativos do grupo por 60 dias, garantindo uma janela para que uma auditoria externa realize um pente-fino nas demonstrações contábeis.
O colunista Abdo Filho apurou que o passivo total apurado até a liminar, antes da finalização da auditoria, atinge 985,6 milhões de reais. Conforme a apuração do jornalista, parte crítica desse valor refere-se a 201,7 milhões de reais em empréstimos bancários junto ao Sicoob, BTG Pactual e Banco Daycoval.
O grande entrave evidenciado por Abdo Filho é que essas dívidas possuem o aval pessoal dos sócios. No documento judicial, os advogados da companhia argumentaram que a execução simultânea desses avais retiraria da mesa, de uma só vez, tanto a capacidade de aporte dos acionistas quanto a estabilidade pessoal dos administradores de transição encarregados de conduzir a reorganização.
Outro ponto de risco é um montante de 452,1 milhões de reais referente a debêntures emitidas via Rhino Securitizadora. A defesa avisou no processo que esses títulos possuem cláusulas automáticas de vencimento antecipado, conectadas aos contratos bancários, transformando um passivo de médio prazo em uma dívida exigível em questão de dias em caso de calote.
Em nota, a defesa do ex-presidente da plataforma informou que o empresário Fernando Antonio Kulnig Cinelli está dedicado e comprometido a contribuir da melhor forma para a preservação da companhia, seus investidores e acionistas. O texto da nota também afirma que o ex-CEO demonstra disposição em esclarecer todas as questões levantadas com total transparência e idoneidade.
Movimentação da Fucape para sair da blindagem
A amplitude da proteção jurídica incluiu parceiros indiretos. Segundo noticiado pelo colunista Abdo Filho, a Fucape Business School, importante instituição de ensino capixaba, também figurou na tutela cautelar.
A conexão existe porque o fundo de investimento ABMPar, comandado pela Apex, adquiriu em 2025 as ações pertencentes a Aridelmo Teixeira, um dos fundadores da escola.
No entanto, a apuração de Abdo Filho demonstrou que a escola de negócios quer distância da crise. A direção da Fucape argumenta tratar-se de uma sociedade vinculada à economia real, operando sem falhas de solvência ou inadimplência, e sem nenhuma gerência no colapso da plataforma. A diretoria da faculdade apontou que entrará com uma liminar nesta segunda-feira (10) para se retirar voluntariamente da ação judicial.
Envolvimento político e resposta de sócios e do governo
Para além dos credores corporativos, a crise ganhou traços políticos pela composição societária revelada em registros públicos da empresa. Integram o quadro de diretores e acionistas da instituição Victor Casagrande, filho do ex-governador Renato Casagrande, e Pedro Chieppe, filho do atual governador do Estado, Ricardo Ferraço.
A proximidade com famílias tradicionais levou o governo do Espírito Santo a emitir uma posição oficial assegurando a inexistência de aportes ou investimentos públicos na companhia, rechaçando o uso de recursos do Tesouro Estadual ou do Fundo Soberano do Estado nas contas da corretora.
No domingo (09), data comemorativa do Dia dos Pais, o empresário Victor Casagrande escolheu as redes sociais para se manifestar. Embora não tenha citado o nome da Apex Partners de maneira explícita, o sócio centrou sua mensagem na proteção da imagem política da família. O executivo declarou que o pai está sendo atacado e envolvido em um contexto sobre o qual não detém qualquer responsabilidade.
Na postagem, Victor sublinhou os princípios familiares, afirmando que o caráter não se revela nos dias fáceis. O empresário asseverou que tomou a decisão de atravessar a adversidade trabalhando, assumindo suas responsabilidades e formulando soluções, arrematando sua declaração com a visão de que a verdade pode levar tempo, mas não muda com o barulho ao seu redor.