PwC se absteve sobre fundo da Apex que cresceu 145% antes de ter resgates suspensos
Fonte: brazilstockguide.com | Data: 11/08/2026 06:34:29
Auditor não conseguiu validar ativos equivalentes a 86% do patrimônio; seis semanas depois, BTG fechou o veículo no mesmo dia em que Fernando Cinelli foi afastado
By Brazil Stock Guide – Seis semanas antes de a crise financeira da Apex Partners vir a público, a PwC já havia emitido uma ressalva grave sobre um fundo gerido por uma empresa do grupo. O auditor se absteve de opinar sobre as demonstrações financeiras do BRM Carbyne Crédito Estruturado porque não conseguiu obter evidências suficientes para avaliar investimentos equivalentes a 86,45% do patrimônio do veículo.
O relatório, assinado em 25 de junho, examinou a posição do fundo em 31 de março de 2026. Naquela data, o veículo tinha patrimônio líquido de R$ 60,3 milhões e mantinha R$ 52,1 milhões aplicados em seis outros fundos.
A primeira parcela, de R$ 28,6 milhões, estava aplicada no Mib Fundo de Investimento em Direitos Creditórios e no Contea Capital Genova D45. O valor representava 47,47% do patrimônio.
Outros R$ 23,5 milhões, ou 38,98%, estavam no Contea Capital Verona, no Amalfi FIDC, no FIDC Canaan e no FC Money. Segundo a PwC, não havia informações financeiras auditadas ou suficientemente recentes que permitissem comprovar a situação patrimonial dos veículos e avaliar adequadamente o valor justo dos investimentos, segundo o relatório analisado pelo Brazil Stock Guide.
Sem essas evidências, o auditor afirmou que não era possível determinar se seriam necessários ajustes nos valores dos ativos, nos resultados registrados e, consequentemente, no valor das cotas.
A distinção técnica é importante. A abstenção de opinião não representa uma constatação de fraude nem prova que os investimentos não valiam o que estava registrado. Significa, porém, que a PwC não encontrou base suficiente para emitir uma opinião sobre as demonstrações financeiras. O relatório também se restringe ao fundo e não constitui uma auditoria das contas consolidadas da Apex Partners.
O BRM Carbyne Crédito Estruturado iniciou suas operações em dezembro de 2025, era destinado a investidores qualificados e tinha a carteira gerida pela BRM Carbyne Gestão de Recursos, empresa ligada à Apex. A administração fiduciária cabia ao BTG Pactual.
Apesar da impossibilidade de validação apontada pela PwC, o fundo mais que dobrou de tamanho nos três meses seguintes. Dados enviados à Comissão de Valores Mobiliários mostram que o patrimônio chegou a R$ 148 milhões em 30 de junho, uma expansão de 145,3% em relação a março.
A carteira declarada à CVM apresentava dez posições em cotas de fundos. Uma única aplicação, avaliada em R$ 104,1 milhões, concentrava 70,36% de todo o patrimônio.
Em 6 de agosto, o BTG fechou o fundo para resgates. Em fato relevante, o banco justificou a medida pela “incompatibilidade entre a liquidez apresentada pela carteira da classe e o volume de resgates solicitados”. O fechamento não equivale a uma declaração de insolvência, mas impede temporariamente que os cotistas retirem seus recursos.
O BTG informou que continuaria acompanhando a liquidez e que poderia convocar uma assembleia de cotistas para decidir sobre as alternativas previstas na regulamentação da CVM. O banco também rompeu a parceria comercial por meio da qual distribuía produtos financeiros da Apex desde 2019.
Afastamento e renúncia na CVC
O fechamento ocorreu no mesmo dia em que a Apex informou ter encontrado “inconsistências financeiras” em uma apuração interna. O Partnership, grupo formado pelos sócios da empresa, afastou Fernando Antonio Kulnig Cinelli da presidência. Em seguida, o conselho de administração formalizou a saída do fundador e também afastou o diretor financeiro, Eduardo Siqueira. Marcelo Murad, sócio sênior da Apex, assumiu o comando interinamente.
No mesmo dia, Cinelli havia renunciado ao conselho de administração da CVC, para o qual fora eleito em maio. A operadora de viagens informou que a cadeira permaneceria vaga até a indicação de um substituto.
A passagem pelo conselho da CVC simbolizou o ponto mais alto da expansão nacional pretendida por Cinelli. Por meio de seis fundos geridos pela Carbyne e de uma participação pessoal do fundador, a Apex havia reunido cerca de 15% das ações da companhia.
Em abril, esse grupo assinou um acordo de acionistas com o GJP, fundo ligado à família Paulus, dona de aproximadamente 20,3% da CVC. Juntos, os dois blocos passaram a representar mais de 35% do capital da operadora.
Parte do investimento da Apex foi realizada com recursos de sua própria tesouraria e parte por meio de um fundo de PIPE que havia captado R$ 78 milhões com clientes e pretendia chegar a R$ 130 milhões.
A aposta fora do eixo Rio–São Paulo
Fernando Cinelli construiu a Apex em torno de uma aposta ousada: romper a concentração do mercado financeiro no eixo Rio–São Paulo e montar, em Vitória, uma plataforma capaz de atrair empresários e famílias das economias regionais.

Fundada em 2013, a empresa buscou transformar empresários capixabas em clientes, investidores e parceiros de negócios. Depois, levou o modelo para estados fora do eixo central, como Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
A expansão avançou por assessoria de investimentos, private equity, venture capital, crédito privado, mercado de capitais, operações imobiliárias e gestão patrimonial. O ecossistema passou a incluir também o Instituto Futura, responsável por pesquisas usadas para mapear as economias regionais e dar base estatística à estratégia comercial do grupo. O Instituto também fazia pesquisas eleitorais dos candidatos.
Em maio, menos de três meses antes da crise, a Apex se apresentava como uma plataforma com R$ 19 bilhões entre recursos sob gestão e operações de advisory. O número não correspondia apenas a ativos de fundos: segundo o ranking da Anbima, a Carbyne tinha aproximadamente R$ 1 bilhão efetivamente sob gestão em junho.
Cinelli também cultivava cuidadosamente sua imagem pública. Em redes sociais, eventos e colunas sociais, aparecia próximo de empresários e banqueiros muito mais conhecidos. Em uma fotografia publicada em 2022, estava em Harvard ao lado do bilionário Jorge Paulo Lemann. Em outra frente, a Apex foi destacada entre os mais de 40 investidores associados à proposta de criação da SAF do Fluminense, lista na qual também aparecia André Esteves.



Esses registros tinham mais valor simbólico do que probatório. Funcionavam como peças de adulação pública e autopromoção, associando a imagem de Cinelli à elite empresarial e permitindo que a proximidade visual fosse usada como uma espécie de credencial. Era a construção da persona de um empresário regional ousado, com ambição nacional. A crise expôs, porém, a distância entre essa imagem e as dúvidas agora existentes sobre os controles financeiros do grupo.
Passivo preliminar de R$ 985,6 milhões
Em 7 de agosto, um dia depois dos afastamentos, a Apex obteve uma tutela cautelar na Vara de Recuperações e Falências de Vitória. A liminar suspendeu execuções e medidas de bloqueio, arresto, penhora, sequestro e busca e apreensão contra as empresas abrangidas pela decisão.
A companhia afirma que a cautelar tem caráter preventivo, busca preservar seu patrimônio e permite que as atividades continuem enquanto uma auditoria externa é contratada.
A medida não representa, neste momento, a concessão de uma recuperação judicial. Apesar disso, a decisão determinou que o grupo apresente um pedido de recuperação judicial em até 30 dias, sob pena de perda da proteção. Uma consultoria também foi nomeada para produzir, em 20 dias, um laudo sobre as condições efetivas de funcionamento e organização das empresas.
Dados apresentados pela própria Apex à Justiça e divulgados pelo Estadão indicam um passivo preliminar de R$ 985,6 milhões. A empresa ressalva que os valores ainda precisam ser confrontados com os contratos e registros contábeis e que não representam apenas obrigações vencidas ou imediatamente exigíveis.
Entre os valores mencionados estão R$ 452,1 milhões em debêntures emitidas por intermédio da Rhino Securitizadora. Os papéis pagavam entre 110% e 130% do CDI ou IPCA acrescido de 1,1% a 1,3% ao mês.
Parte das emissões tinha como garantia ações da própria Apex Partners e da BRM Apex Investimentos. De acordo com as informações apresentadas pela companhia, não havia avaliação independente dessas ações nem evidência de que o penhor tivesse sido formalizado nos registros correspondentes.
O documento também menciona R$ 309,8 milhões em obrigações classificadas como “cashback”, distribuídas por aproximadamente 1.600 posições de clientes. Essas operações prometiam remuneração de até 125% do CDI e estavam ligadas a fundos e produtos como Carbyne Voyage, Carbyne Mercados Privados, Apex Crescimento Mercados Regionais, Apex Malls, Carbyne Crédito Privado e debêntures da NewSun WTE.
Outros R$ 201,7 milhões correspondiam a endividamento bancário envolvendo Sicoob, BTG Pactual e Banco Daycoval. A documentação menciona ainda R$ 35,2 milhões em tributos. Como os números são preliminares e algumas categorias podem se sobrepor, eles não devem ser simplesmente somados.
A Apex informou também a existência de R$ 78,2 milhões em pedidos de resgate de fundos regulados, com vencimentos concentrados entre 12 de agosto e 30 de setembro. Esses valores não correspondem necessariamente apenas ao fundo administrado pelo BTG.
Dívida mais que dobrou
Segundo os dados apresentados à Justiça, a dívida líquida consolidada da Apex passou de R$ 413 milhões em janeiro de 2025 para R$ 975 milhões em junho de 2026. Isso representa uma expansão de R$ 562 milhões, ou 136%, em aproximadamente 18 meses – portanto, a dívida mais que dobrou.
Em 2025, R$ 187 milhões de um aumento de R$ 262 milhões teriam sido destinados a aportes em fundos, veículos de investimento e operações de fusões e aquisições que não devolveram caixa ao grupo naquele período.
Somente no primeiro semestre de 2026, a Apex teria contratado mais R$ 300 milhões em dívida. Desse total, segundo a avaliação apresentada pela companhia, R$ 80 milhões teriam financiado o déficit operacional e R$ 95 milhões corresponderiam a despesas financeiras e fiscais, sem a formação de ativos equivalentes.
A cautelar, sempre segundo o relato do Estadão, também aponta uma deterioração no valor esperado dos ativos. De uma carteira com valor nominal de R$ 261,5 milhões em junho, a Apex estimou que R$ 190,1 milhões seriam recuperáveis em um processo de desinvestimento. A diferença é de R$ 71,4 milhões, equivalente a 27,3% do valor registrado.
A empresa identificou ainda R$ 38,1 milhões em créditos considerados não recuperáveis, distribuídos por 65 posições, e estimou descontos de liquidez entre 30% e 60% sobre parte dos demais ativos. Todos esses valores continuam sujeitos à validação independente.
A proteção judicial não alcança os patrimônios segregados dos fundos de investimento, os patrimônios fiduciários vinculados a certificados de recebíveis nem os patrimônios de afetação das sociedades de propósito específico. Também não limita as atribuições da CVM, da Anbima ou dos administradores fiduciários.
Acusação e defesa
A nova administração da Apex acusa Cinelli de suposta “gestão temerária e má-fé”. A companhia anunciou que ajuizaria uma ação de responsabilidade contra o fundador e pediria o bloqueio preventivo de seus bens. O primeiro comunicado também mencionou a adoção de medidas para eventual responsabilização civil e criminal.
A defesa de Cinelli afirma que ele está “dedicado e comprometido” com a preservação da empresa, dos investidores e dos acionistas. Segundo a nota, o fundador pretende contribuir para o esclarecimento das questões levantadas “com total transparência e idoneidade”.
Até agora, não há decisão judicial que atribua responsabilidade a Cinelli ou a Eduardo Siqueira. Também não foi divulgado um resultado independente que determine a origem exata das inconsistências, o eventual tamanho das perdas ou o destino final dos recursos captados.
A auditoria externa terá de esclarecer quem autorizou o crescimento acelerado da dívida, como os recursos circularam entre as dezenas de empresas e fundos ligados ao grupo, quais garantias foram efetivamente constituídas e quanto dos ativos poderá ser recuperado.