Dor no pé por cinco anos: o que aconteceu com Andrea Beltrão e quando uma dor no tornozelo merece investigação?
Fonte: revistaquem.globo.com | Data: 11/08/2026 16:24:25
Andrea Beltrão, de 62 anos, precisou interromper sua agenda profissional depois de passar por uma cirurgia de emergência no pé esquerdo. O que chama atenção no caso, contudo, é que a dor que levou a atriz à sala de cirurgia não começou de repente: segundo ela, o incômodo se arrastava havia cerca de cinco anos, até que “explodiu” e a “tirou de combate”.
No último dia 31 de julho, Andréa contou nas redes sociais que precisará ficar seis semanas sem pisar no chão e que, por enquanto, está usando cadeira de rodas. Devido ao longo período de recuperação, ela teve de cancelar compromissos como a apresentação do Prêmio Grande Otelo do Cinema Brasileiro e sua participação no Festival de Gramado, nesta sexta-feira (14), para a estreia do filme Antártida, e neste sábado (15), onde também receberia uma homenagem pelos serviços prestados ao cinema.
Andrea explicou que o diagnóstico foi uma lesão osteocondral no domo do tálus, tratada através de um autoenxerto osteoarticular cartilaginoso, conhecido pela sigla OATS. “Para mim, que sou chamada de perereca pelo meu médico Alcino Affonseca, pois não paro quieta, é um exercício extraordinário ficar imóvel, de pé para cima, atracada aos milagrosos analgésicos… Salve a penicilina e afins!”, afirmou.
“Resignada, aguardo a recuperação deste meu pé esquerdo (título de filme, né?) enquanto lamento não estar presente nos compromissos. Mas é a vida que manda na gente. Vou em frente. Cuidadosa para voltar a nadar, jogar bola, correr na praia e usar salto alto quando bem entender. O resto é história”, contou a atriz.
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O que é a lesão osteocondral do tálus?
A lesão osteocondral envolve a cartilagem da articulação e o osso logo abaixo dela. Muitas dessas alterações estão relacionadas a traumas, especialmente entorses de tornozelo. Segundo o ortopedista Celso Cruz, do Hospital Ortopédico AACD, o tálus é o osso do tornozelo que faz o encaixe da articulação. “Podemos resumir a lesão osteocondral do tálus como uma lesão de cartilagem desse osso do tornozelo chamado tálus, que faz o encaixe do tornozelo”, explica o médico à Quem.
Dor que dura semanas merece atenção
De acordo com o ortopedista, o caso de Andréa também chama atenção para um comportamento bastante comum: acostumar-se com uma dor e passar a considerá-la parte da rotina. Para o especialista, uma dor articular persistente, seja no tornozelo ou em outra articulação, deve ser investigada quando permanece por algumas semanas, especialmente quando se aproxima de um mês. “Uma dor persistente, articular, no tornozelo ou em outra articulação, que dure algumas semanas, próxima a um mês, deve ser investigada”, explica.
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Quando a dor surge após um trauma, como uma entorse ou contusão, existe um período natural de recuperação. Em geral, ela tende a regredir ao longo de dias ou algumas semanas. Se o incômodo permanece, porém, é importante avaliar o motivo.
“Normalmente, uma dor pós-traumática tende a regredir em algumas semanas. Se ela se torna persistente depois de três, quatro semanas, um mês, ela deve ser investigada”, afirma o médico. A atenção deve ser ainda maior quando a dor aparece sem uma causa evidente ou vem acompanhada de sinais como inchaço, vermelhidão ou calor local.
Lesão pode ficar silenciosa
Apesar de poder provocar dor e limitação, uma lesão osteocondral do tálus não necessariamente causa sintomas importantes desde o início. “Normalmente, algumas lesões osteocondrais do tálus podem ser inclusive assintomáticas. O paciente não tem sintoma nenhum. Ou tem muito pouco sintoma. E ele pode ‘conviver’ com essa lesão osteocondral do tálus”, explica Celso Cruz.
Segundo o especialista, localização, profundidade e extensão da lesão ajudam a determinar o quanto ela será sintomática. Lesões mais profundas ou extensas, especialmente em áreas do tálus submetidas a maior carga, podem provocar mais desconforto.
A origem também pode variar. “Normalmente ela é pós-traumática, decorrente de entorses, de contusões, mas ela pode também ser não traumática na menor porcentagem dos casos, de etiologia desconhecida, idiopática que a gente fala”, afirma.
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Nem toda lesão precisa de cirurgia
O diagnóstico de uma lesão osteocondral não significa automaticamente que o paciente precisará passar por uma operação. A escolha do tratamento depende dos sintomas, da localização e das características da lesão.
Inicialmente, podem ser adotadas medidas conservadoras, como redução das atividades de impacto, fisioterapia para fortalecimento da musculatura estabilizadora da articulação e medicamentos analgésicos para controle dos sintomas.
Em alguns casos, também podem ser consideradas infiltrações. O médico cita ácido hialurônico e corticosteroides entre as possibilidades e explica que pesquisas na área de medicina regenerativa também investigam recursos como o plasma rico em plaquetas (PRP) e células provenientes de gordura ou da medula óssea. “São atitudes menos agressivas, que geralmente são feitas por infiltrações que podem auxiliar no tratamento dessas lesões”, diz.
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O que é a cirurgia OATS?
Quando a lesão apresenta determinadas características e as alternativas menos agressivas não conseguem controlar os sintomas, pode ser indicada uma cirurgia como a realizada por Andrea. O OATS é uma técnica de transplante osteocondral autólogo. Em termos simples, o cirurgião retira um enxerto contendo osso e cartilagem saudável de uma área do próprio paciente — segundo o médico, geralmente do joelho — para utilizá-lo na região lesionada do tálus.
Para Celso Cruz, trata-se de uma cirurgia mais agressiva que pode ser considerada a última opção dentro do tratamento. “Quando você tem uma lesão em uma localização e de um tamanho onde essas condutas menos agressivas não surtiram efeito, aí você acaba indo para a cirurgia de OATS, que é uma cirurgia que a gente chama de ‘fim de linha'”, explica.
Dependendo da localização e do tamanho da lesão, o procedimento pode ser feito por via artroscópica ou aberta. Em alguns casos, pode ser necessária uma osteotomia, ou seja, um corte ósseo para permitir o acesso à região que será tratada.
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Por que Andréa terá que ficar seis semanas sem pisar?
O período de recuperação é uma das partes mais importantes do procedimento. O enxerto precisa de tempo para se integrar ao local tratado. “Normalmente, quando você faz uma cirurgia de OATS, você necessita de um período de recuperação para que ocorra a integração desse enxerto. Isso leva ao redor de seis semanas”, explica o ortopedista.
Nesse período inicial, a descarga de peso é restrita. O paciente pode precisar utilizar imobilização, como uma bota, além de muletas ou cadeira de rodas.
Depois da fase inicial de cicatrização, a reabilitação progride gradualmente, com movimentos suaves e fisioterapia para recuperar a amplitude de movimento. A descarga de peso também vai sendo aumentada de maneira progressiva, sempre de acordo com a avaliação clínica e radiográfica. “Geralmente após seis a oito semanas, ocorre a progressão para retirada da imobilização e das muletas”, explica o médico.
Mundo dos famosos:
Ignorar a dor pode prolongar o problema
O fato de Andrea ter convivido com o incômodo durante anos não significa que toda dor persistente necessariamente evoluirá para um quadro grave. A evolução das lesões osteocondrais é individual e depende de fatores como atividade física, características da lesão e sintomas.
“Um paciente que entende a lesão, não tem sobrepeso, não faz atividades de alto impacto pode conviver com essa lesão durante anos sem ter que fazer nenhum tratamento mais importante”, afirma Celso Cruz.
O acompanhamento se torna especialmente importante quando exames seriados mostram progressão da lesão e os sintomas passam a comprometer a qualidade de vida. Nessa situação, o quadro pode evoluir para osteoartrose da articulação.
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“Quando essa lesão progride radiograficamente através de exames seriados e os sintomas também comprometem a qualidade de vida do paciente, aí você tem que atuar, porque pode se desenvolver uma osteoartrose [doença degenerativa e inflamatória das articulações] dessa articulação”, explica.
Por isso, a recomendação não é transformar qualquer dor no pé em motivo de preocupação, mas observar sua evolução. Uma dor provocada por uma entorse pode naturalmente melhorar ao longo das semanas. Já uma dor que continua incomodando, especialmente durante as atividades, merece avaliação.
“Quando o paciente tem alguma dor articular pós-traumática no período, vamos colocar aqui de três meses, ao fazer qualquer atividade, aquela dor reaparece, é motivo de uma investigação diagnóstica. Merece uma avaliação ortopédica para avaliação clínica e realização de exames de imagem”, orienta.