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Como Rubio, crítico de Lula, influencia a disputa entre EUA e Brasil

Fonte: gazetadopovo.com.br | Data: 11/08/2026 20:57:43

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Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, se tornou uma figura central na escalada de tensão entre o governo de Donald Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O próprio petista destacou a influência de Rubio ao reclamar recentemente que o secretário “faz as coisas diferente daquilo que a gente conversa com Trump”, sinalizando que prefere um canal direto com o presidente americano.

Crítico de Lula e de outros governos de esquerda da América Latina, Rubio tem defendido uma postura mais dura dos EUA na região. O professor de relações internacionais Maurício Fronzaglia, da Universidade Mackenzie, avalia que essa atuação pode ser entendida como uma versão repaginada da Doutrina Monroe, chamada de Doutrina Donroe, que combina pressão política, designações antiterroristas e ferramentas comerciais para ampliar a influência de Washington sobre os governos.

O analista acrescentou que a disputa por influência na América Latina também responde ao avanço econômico da China, que já superou os EUA como principal parceiro comercial de países como Brasil e Argentina.

Nesse sentido, além de adotar sanções próprias, o Departamento de Estado, como órgão responsável pela diplomacia de Washington, exerce influência sobre outras pastas da gestão Trump para traçar medidas contra países “não alinhados” – como a recente tarifa de 25% específica ao Brasil sob a alegação de práticas comerciais injustas, imposta pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR).

Um dos pontos citados pelo representante comercial americano, Jamieson Greer, para a imposição da sobretaxa foi a “censura ao discurso político” no Brasil, argumento utilizado por Rubio para criticar o país.

“As tarifas usadas pelo setor de comércio internacional dos Estados Unidos podem até apresentar tecnicamente uma razão, mas elas ocorrem nesse mesmo ambiente e arcabouço de hostilidade entre Washington e Brasília”, avalia Fronzaglia.

Rubio leva para o governo Trump a pressão sobre Lula

Nos tempos de senador (2011-2025), Rubio já sinalizava um olhar especial para o Brasil, ao criticar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes pelo bloqueio temporário do X no país durante as eleições em 2024 e dizer que Lula era um “líder de extrema esquerda” que encobria “a natureza criminosa do narco-regime de [Nicolás] Maduro”.

Desde que ele assumiu o Departamento de Estado, a pressão sobre o governo petista foi acompanhada por ações do governo Trump como a ofensiva econômica e diplomática sobre a ditadura cubana e a operação militar que capturou Maduro em janeiro na Venezuela – da qual Rubio desde então é considerado o administrador de fato.

Quanto ao Brasil, o secretário de Estado tomou medidas que foram criticadas pela gestão petista, como a revogação dos vistos de Moraes (a imposição de sanções econômicas ao ministro via Lei Magnitsky, revertida posteriormente, veio pelo Departamento do Tesouro), de funcionários de governos petistas envolvidos na criação e gestão do programa Mais Médicos e do advogado-geral da União, Jorge Messias, entre outros.

Outro ponto criticado pela gestão Lula foi a designação dos grupos criminosos brasileiros Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.

Mais pontos de atrito vieram com as recentes declarações do secretário de Estado de que o Brasil faz parte de uma lista de governos latino-americanos “não amigáveis”, mesma categoria de Cuba e Nicarágua, e de que Lula colocou seu “ego” acima dos interesses brasileiros nas negociações do novo tarifaço americano.

O auge da tensão com o Brasil veio na semana passada, quando o governo Trump revogou o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, devido à demora da gestão Lula em conceder o agrément ao indicado pelos EUA para a embaixada americana em Brasília, Daniel Perez, que teve sua nomeação aprovada posteriormente pelo Senado americano.

A medida de Washington foi também uma retaliação pelas recentes negativas de vistos a dois funcionários do governo dos EUA que viriam ao Brasil.

O governo Lula alegou que ambos “planejavam visitar o país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, em tentativa inaceitável de interferir no processo político nacional”, acusação negada pela gestão Trump.

Além de negativas de visto e da postergação do agrément a Perez, o governo Lula vem rebatendo Rubio com farpas: o chanceler Mauro Vieira disse que os comentários dele sobre o Brasil são “ataques” “grosseiros e arrogantes” e Lula acusou o secretário de Estado de ser um “bolsonarista” que “não gosta do Brasil e da América Latina”.

Embaixadores ligados a Rubio incomodam a esquerda latino-americana

Em artigo publicado em julho pelo site The Hill, Alfredo Ferrero, embaixador do Peru nos Estados Unidos, disse que a ênfase de Rubio na América Latina decorre das suas origens.

“Filho de imigrantes cubanos e o primeiro latino a chefiar o Departamento de Estado, ele conferiu ao Hemisfério Ocidental o lugar no pensamento estratégico americano que uma parceria duradoura exige: não algo secundário nem uma questão problemática, mas uma visão política na qual os Estados Unidos têm tanto a ganhar quanto seus aliados do continente”, afirmou.

Ferrero escreveu que um reflexo dessa prioridade é o “maior uso de embaixadores políticos” de origem latina ligados a Rubio em vez de diplomatas de carreira na região – casos de Perez e dos embaixadores Bernie Navarro no Peru, Kevin Marino Cabrera no Panamá e Peter Lamelas na Argentina, entre outros.

A presença desses embaixadores tem irritado a esquerda latino-americana. Em junho, o partido Juntos pelo Peru, do candidato derrotado no segundo turno da eleição presidencial, Roberto Sánchez, alegou sem provas que Navarro teria agido “como um agente político direto, pressionando as instituições democráticas peruanas para favorecer um resultado específico”.

Em julho do ano passado, o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, e a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, ambos da oposição peronista ao presidente argentino, Javier Milei, criticaram Lamelas devido a declarações dele em audiência no Comitê de Relações Exteriores do Senado americano antes de sua indicação ser aprovada.

Entre outros pontos, ele afirmou que, caso fosse confirmado para o cargo, visitaria governadores para propiciar uma “colaboração” com o objetivo de evitar a corrupção de agentes locais envolvendo a China.

Também disse que atuaria para que Kirchner recebesse “a Justiça que merece”. A ex-presidente, que cumpre em prisão domiciliar uma condenação de seis anos por corrupção na licitação de obras rodoviárias, foi acusada de ter acobertado iranianos envolvidos no atentado à Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), que matou 85 pessoas em 1994.

“[Kirchner] está em prisão domiciliar devido ao favoritismo político que ocorre lá [na Argentina]. E, obviamente, ela não esteve envolvida nos ataques à Amia, até onde sabemos, mas definitivamente esteve envolvida de alguma forma no acobertamento”, disse Lamelas na ocasião.

“Quem sabe se ela esteve envolvida na morte do promotor especial?”, acrescentou, em referência ao promotor Alberto Nisman, encontrado morto na sua casa em 2015 dias após ter denunciado Kirchner pelo caso.

Kicillof e Kirchner rebateram Lamelas, acusando-o de “evocar os tempos mais sombrios da interferência dos Estados Unidos na vida democrática da nossa região”.

Daniel Perez, presidente da Câmara dos Representantes da Flórida e cuja indicação para embaixador em Brasília gerou a mais recente disputa entre Rubio e o governo Lula, é tão próximo do secretário de Estado americano que seu apelido é “Mini Rubio”.

No artigo para o The Hill, Ferrero citou a recente onda de vitórias da direita em eleições na América Latina e afirmou que “os EUA estão retomando sua posição como principal aliado dos governos latino-americanos, que agora, mais do que nunca, estão dispostos a compartilhar o ônus da segurança e da estabilidade regionais”.

“No entanto, qualquer reposicionamento dessa magnitude exige alguém para conectar suas peças e — talvez o mais importante — para liderar seu propósito; esse papel coube a Rubio, que se mostrou à altura da tarefa”, finalizou o embaixador peruano.

Lula tenta marcar pontos políticos na briga com Rubio

A dúvida para Lula é qual pode ser a extensão dos danos provocados pelo atrito com os EUA. Em entrevista à Gazeta do Povo, Adriana Melo, especialista em finanças e tributação, disse que, no plano institucional, “o risco [para a relação com os EUA] não é só tarifa ou visto negado, é erosão de confiança em áreas que não se recuperam rápido: cooperação de segurança, combate a crime organizado transnacional, fluxo de investimento”.

Quanto à eleição presidencial de outubro, Melo afirmou que Lula pode se beneficiar com a retórica de “soberania” e “resistência a interferências estrangeiras”, mas o contexto “expõe fragilidade real de método”, com “prioridade ideológica sobre pragmatismo, personalização das relações, dificuldade de manter canal aberto com governos de outra orientação” – também incluídas nesse contexto as crises com Milei e com o Paraguai.

“A oposição já explora essa brecha, com a imagem de um presidente que ‘perde amigo’ e ‘isola o Brasil’”, disse Melo.

“O impacto em outubro existe, mas não é automático nem decisivo. O eleitor brasileiro historicamente vota mais por economia, segurança e custo de vida do que por diplomacia. Se a crise se arrastar e virar atrito comercial concreto, ou perda visível de espaço em fóruns internacionais, reforça avaliação negativa e alimenta discurso de mudança. Se o governo mantiver o enquadramento de soberania e as pesquisas seguirem favoráveis, o episódio é absorvido como ruído externo, sem custo real”, afirmou a analista.

Maurício Fronzaglia disse que a política “dura” de Trump sobre a América Latina visa também as eleições de meio de mandato presidencial nos Estados Unidos, quando serão renovados em novembro um terço do Senado e toda a Câmara federal.

“Essa renovação pode ser contrária aos interesses de Trump. A questão que se coloca é que, por estar em campanha, o discurso do presidente Lula se torna mais duro, porque ele também tem como objetivo olhar para a política interna, percebendo que esse discurso pode lhe ser benéfico nas eleições que se aproximam”, afirmou.

“Do lado de Flávio Bolsonaro, ele vai tentar amenizar essas questões [com Rubio] e dizer que essa situação só chegou aonde chegou porque o presidente Lula não se alinha aos Estados Unidos e não tem capacidade de negociação. Esse será um discurso importante nas eleições”, projetou Fronzaglia.